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Moradores de Barra Longa ficaram ilhados e temem a fome

Estado de Minas chega à região de barra longa, onde moradores ficaram sem estrada e precisam caminhar 4 km pela mata para conseguir água e alimentos

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postado em 08/11/2015 06:00 / atualizado em 10/11/2015 12:49

Mateus Parreiras , Márcia Maria Cruz

Paulo Figueiras/EM/D.A Press

Os remédios para controle da pressão arterial da dona de casa Virgínia Nogueira, de 89 anos, já faltam há dois dias. A água e os mantimentos precisam viajar nos ombros de parentes e vizinhos por mais de 4 km mata adentro para chegar à dispensa dela e da irmã, Isabel Conceição Nogueira, de 80.

A única estrada que ligava a residência das irmãs, no distrito de Mandioca, em Barra Longa, Região Central de Minas, foi engolida pela força do caldo de lama e rejeitos de minério que vazou com a ruptura das duas barragens da mineradora Samarco, na última quinta-feira, em Mariana, mesma região.

Ontem, a reportagem do Estado de Minas conseguiu chegar a esse povoado, de aproximadamente 50 habitantes, para mostrar o sofrimento de uma das três comunidades isoladas pela tragédia. A ameaça de faltar comida e água potável, já que a onda de destruição e a lama depositada no povoado soterraram as minas e nascentes, mobiliza os habitantes a maior parte do tempo. Suam para vencer os morros, os pastos, a mata e atravessar um córrego para, enfim, chegar a uma parte da estrada de terra que liga a comunidade à rodovia MG-129.

São várias viagens por dia para tentar conseguir mantimentos doados num posto avançado montado por socorristas num pesque e pague. “A gente não pode parar, porque mais da metade das pessoas teve de correr só com a roupa do corpo para não se afogar na lama que inundava tudo”, conta Valdimir Campos da Luz, de 34 anos.


A casa dele foi tomada pelos rejeitos de mineração e com isso se foram todos os mantimentos da dispensa, geladeira, televisão, fogão. “Perdemos tudo que tínhamos. Agora a gente se une para ir com uma turma buscar sacos de arroz, macarrão, feijão e os galões de água que chegam de doações. Fazemos mais de dez viagens num dia se precisar.”

Mas não é só a iminência de ficar sem o que comer e beber que os atormenta. A visão da destruição da própria casa e da moradia dos vizinhos e parentes rouba a voz de quem ficou isolado e os leva às lágrimas nos momentos de reflexão. “A gente não sabe como vai ficar. Ainda não deu nem para a gente pensar no que perdeu, porque o que mais precisamos é conseguir continuar a ter comida, água e remédios para ir vivendo”, desabafa o pai de Valdimir, Dirceu da Luz, de 62 anos. Ele conta que mais de 200 galinhas que criava foram soterradas e até o carro da família, um fusca azul, foi parar no alto de um amontoado de lama.

ANGÚSTIA
  Nos fundos da casa dele, outro problema lhe tira a tranquilidade. Entre os chiqueiros e galinheiros inundados e as cercas retorcidas, exala da lama que abrange a visão de sua propriedade um cheiro forte que os próprios socorristas suspeitam ser de um cadáver soterrado.

“Muita gente para cima daqui foi arrastada e esse cheiro só pode ser de gente morta, porque é muito forte. Só que não conseguimos localizar exatamente onde é e a gente fica nessa angústia de pensar que tem o filho de alguém enterrado na nossa terra”, disse.

Na pequena comunidade, a lama destruiu várias casas das quais sobraram apenas armações de telhados, muros tombados e paredes solitárias no meio do barro. A escola tem lama até o teto. O centro comunitário ruiu. A igreja, que tem uma bela torre branca da qual se orgulhavam os moradores por ser um dos poucos pontos visíveis por aquelas roças, foi invadida pela inundação, sem condições sequer para os fiéis se aproximarem para orar por um alívio para tanta dificuldade.

Além de uma ponte ter sido atolada em lama, outras quatro que ligam o povoado a Gesteiros, que é município de Mariana, não suportaram a força da correnteza e desmoronaram.
No campo, ao longe, um lavrador que preferiu não se aproximar, emocionado que estava, ficou com a foice sobre o ombro a mirar por longo tempo a plantação de milho completamente arrasada pela enchente de detritos, que a transformou numa planície marrom.

As duas irmãs idosas também relatam não ter sossego para dormir depois do ocorrido. Por causa da inundação, Virgínia teve de fugir às pressas de sua casa para se abrigar na casa de Isabel, onde ainda está, já que sua casa foi tomada pela lama.

“No dia uns parentes nos ligaram falando que vinha um dilúvio e o dilúvio veio quebrando os bambuzais e arrebentando as matas. Corri o quanto pude e naquele dia todo mundo saiu de suas casas. Passamos a noite no quintal, com medo, sem conseguir dormir. Até hoje não durmo”, diz Virgínia.

Até jipes de voluntários atolam

Paulo Figueiras/EM/D.A Press

Sem esperar que o poder público ou a empresa que é dona da barragem de rejeitos que ruiu tomasse providências para abrir as estradas bloqueadas pela lama, voluntários embarcados em 16 jipes e veículos 4x4 carregaram os carros de mantimentos, remédios, e transportaram médicos e socorristas para tentar chegar ontem às comunidades isoladas de Pedras e Gesteiros, em Mariana, e Mandioca, em Barra Longa.

Mas a lama está tão profunda que venceu até os veículos fora de estrada. Três veículos tentaram atravessar uma ponte encoberta pelos rejeitos minerários e atolaram até a altura das portas, sendo necessário o uso de guinchos para resgatá-los. Uma fila de 16 veículos trazendo gêneros de primeira necessidade aos desabrigados ficou paralisada.

A expectativa é de que tratores sejam levados para liberar a pista que leva às comunidades ilhadas.

A diversidade de pessoas que se uniu nesse esforço mostra como a corrente de solidariedade para ajudar os atingidos pela barragem é grande. De Betim, Sete lagoas, Nova Lima, Ouro Preto e Belo Horizonte vieram guardas municipais voluntários. Bombeiros civis de várias cidades se uniram nesse esforço bem como jipeiros e motociclistas, trilheiros de várias partes.

No caminho, quando paravam nos 90 km percorridos até o obstáculo, as pequenas comunidades reconheciam esse esforço, fornecendo água, doces, chup-chup e palavras de apoio. Hoje, o grupo deve tentar mais uma vez a travessia.

Famílias pedem resgate por helicóptero

Gladyston Rodrigues/ EM/D.A Press

Segundo a Defesa Civil de Minas Gerais, não há como precisar o número de ilhados nos distritos de Pedras, Gesteira e na comunidade de Mandioca. O prefeito de Mariana, Duarte Júnior, informou que duas pessoas da lista de 28 desaparecidos são de Pedras.

Os bombeiros escalaram 50 militares do batalhão especializado para abrir caminho pelos lugares por onde a onda de lama passou. Somam-se aos bombeiros 200 homens da Defesa Civil.

O coordenador das Brigadas Quatro por Quatro, ligado à Cruz Vermelha,
Robson Ferreira Dias, informou que há cerca de 300 pessoas em Pedras. O distrito fica a 40 quilômetros do centro de Mariana. A falta de informação e o isolamento dos moradores do distrito deixam os parentes apreensivos.

Durante todo o dia de ontem, eles buscaram informações junto à prefeitura e pediram o envio de helicóptero. “Minha avó está lá com meus tios. Ela tem problema de pressão. A casa dela foi levada pela lama”, afirmou Tacimara Paiva, de 20 anos. A família solicitava à Defesa Civil o envio de helicóptero para resgatar os familiares.

O sogro do pintor Douglas Ferreira, de 27, também está entre os ilhados. “Eles não dão informações para nós. Eles não têm como entrar em contato. Lá não tem luz e, pelo tempo que estão lá, já estão sem água e comida”, afirmou Marilene Eremita dos Santos, de 24.

Helicóptero No início da noite de ontem, a Defesa Civil e Corpo de Bombeiros articulavam o envio de um helicóptero até Mandioca. “Os nossos voluntários estão abrindo uma clareira para que o helicóptero possa aterrissar”, informou Robson.

Em Pedras, há casos de moradores que não querem deixar os imóveis. Os pais de Sandra Aparecida dos Santos, de 38 anos, estão no distrito.

O casal Wilson Emiliano dos Santos, de 75, e Graciete Martins dos Santos, de 57, estava sem comunicação desde quinta feira, mas, de acordo com Sandra, voluntários conseguiram localizá-los no final da tarde de ontem e eles resistiram em deixar a casa.

“Não querem sair. Não tem como ir lá. Só Deus agora e pessoas de boa vontade para levar comida e remédios para eles”, afirmou.
 

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