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Repórteres do EM apreciam corredor do tempo em BH de bike

Último trecho das travessias entre extremos da cidade de bicicleta conduz ciclistas dos ecos do nascimento da capital até o caos moderno, em que o tráfego pesado ameaça ciclistas

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postado em 29/12/2014 06:00 / atualizado em 29/12/2014 07:42

Mateus Parreiras

Mateus Parreiras/EM/D. A PRESS BH

Encobertas por novos edifícios e corredores de tráfego, memórias da origem de Belo Horizonte, que passam despercebidas no ritmo acelerado da metrópole, surgem em uma perspectiva diferente da que se observa da janela de um carro ou ônibus. Do ponto de vista de quem pedala, do extremo Leste ao Centro da capital ainda se encontra quem viva de cultivar o solo e pastorear. Edificações de bairros da época de uma BH jovem, com pouco mais de 20 anos, lembram o cenário quase esquecido dos operários pioneiros. Pelo Centro, no Ribeirão Arrudas, ao largo do qual a área urbana cresceu, sob os arcos do famoso Viaduto Santa Tereza, e na Praça da Estação, antigo ponto de desembarque do material que chegava para erguer a nova cidade, a presença de ciclovias e o respeito ao ciclista permitem mergulhar nesse passado. Mas, seguindo rumo a Oeste, o ritmo frenético da cidade engole os espaços e ameaça atropelar quem insiste em pedalar. Opostos registrados na última parte da travessia ciclística de 60 quilômetros entre os extremos do município, que o Estado de Minas mostra desde ontem, quando foi publicado o trajeto de Sul a Norte.

Foi sob o olhar curioso de um sagui, na mata do Taquaril, extremo Leste de Belo Horizonte, que a expedição urbana pelos extremos da capital foi retomada, desta vez para cumprir os 18 quilômetros do sentido Leste-Oeste. A região de serra faz limite com Sabará e Nova Lima e ainda preserva pequenas propriedades, com roças e currais. Entre os mirantes frequentados por casais, em volta do Hotel Taquaril e do clube Minas Country, estradas pouco movimentadas enganam quem pedala morro abaixo, já que os ônibus aceleram para encurtar distâncias e os caminhoneiros aproveitam toda a pista, na pressa de fazer entregas. “Cuidado com os ônibus desembestados”, recomenda um taxista, de passagem pelas bicicletas.

Passado esse perigo, quando se chega às primeiras residências do bairro, o clima pacato se torna também acolhedor aos ciclistas. E o motivo pode ser o grande número de pessoas que cumprem afazeres ou têm lazer sobre duas rodas, cruzando os bairros de um lado a outro. Os próprios motoristas que trafegam por lá têm paciência e respeitam os espaços das “magrelas”. A primeira ciclovia desce por um quilômetro e meio pela Avenida Country Clube, margeando pastos onde peões a cavalo campeiam o gado e algumas favelas, com a vista de Belo Horizonte crescendo para Oeste. Uma senhora idosa que caminha pela pista exclusiva de ciclistas se assusta com as duas bicicletas descendo em alta velocidade e, de um salto, vai para a calçada. Meio constrangida, dá a entender que não foi a primeira vez: “Já aprendi, tem que andar é no passeio. Agora eu sei!”.

SAUDADE Terminada a ciclovia, mais algumas pedaladas fazem surgir as primeiras cruzes do Cemitério da Saudade. Freando para acompanhar o movimento dos carros à frente, há tempo para observar pessoas depositando flores ou rezando em silêncio. A redução do ritmo tem seus motivos: qualquer veículo que estaciona de forma errada ou que enguiça atrapalha o tráfego pelas ruas apertadas do Bairro Paraíso. Quando é um ônibus, então, em pouco tempo se formam fileiras de carros se espremendo para passar. Entre um e outro, a bicicleta leva alguma vantagem e vai adiante, mas a atenção precisa ser mantida. Como a trânsito desse bairro antigo é muito mais intenso do que o espaço das ruas que têm mais de 90 anos, os ônibus precisam invadir pistas opostas para conseguir convergir, como ocorre na Rua Juramento. No meio da confusão, um caminhão de reboque fecha uma das bicicletas da equipe de reportagem, que precisa desviar para não bater. Uma lembrança de que, ainda que haja mais tolerância aos ciclistas nesta parte da cidade, eles ainda estão sobre o veículo mais vulnerável do trânsito.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Mais adiante, entre oficinas, padarias, mercearias, armarinhos e açougues dos bairros Paraíso e Santa Efigênia, surgem as construções antigas e pequenas, com fachadas do tempo das vilas operárias dos anos 1920, época em que foram ocupadas por imigrantes e trabalhadores que ergueram a capital mineira. Na parada sob um semáforo, a imaginação, ainda que por alguns momentos, transporta o observador para outros tempos, quando a vida era menos corrida, os homens usavam chapéus e paletós e as mulheres, vestidos compridos. Luz verde, é hora de atravessar a Avenida dos Andradas pela Avenida Mem de Sá e ingressar em uma das mais movimentadas ciclovias de Belo Horizonte, que acompanha o Ribeirão Arrudas no sentido Contagem.

Percurso de rara calmaria

As ciclovias do trecho Leste-Oeste das avenidas dos Andradas, do Contorno e Tereza Cristina, ao longo do curso canalizado do Ribeirão Arrudas, são os espaços onde a equipe do EM mais encontrou pessoas se deslocando para trabalhar, estudar ou mesmo para lazer, entre os oito segmentos que totalizaram 13,5 quilômetros nas travessias pelos extremos Norte, Sul, Leste e Oeste de Belo Horizonte. Nessa três vias, são 6,06 quilômetros (73% do percurso total) cobertos por pistas exclusivas para pedalar.

Ainda que haja descontinuidade no percurso, o relevo plano e a passagem pelo Hipercentro da capital fizeram deste um caminho vantajoso para os ciclistas. “Para mim, é um atalho. Os carros e ônibus ficam presos em congestionamentos e a gente vai passando, sem precisar parar. Só atravessa uma rua ou outra, entra em um pedaço de avenida, mas consegue chegar em casa a tempo de almoçar e ao trabalho, sem atrasar”, afirma o gari Adão Gomes Dias, de 43 anos, que mora no Bairro Pompeia e pedala cerca de 20 quilômetros por dia para trabalhar e resolver outros compromissos.



Nas interrupções de trecho, o tráfego pesado exige que os condutores de bikes manobrem entre carros com cuidado, para que não sejam atingidos por motocicletas ao passar entre os veículos. Mesmo com toda a atenção necessária para pedalar por esse trecho, nos momentos em que se aguarda a abertura dos semáforos sempre se pode admirar detalhes normalmente engolidos pela velocidade do dia a dia: os postes que imitam lampiões do Viaduto Santa Tereza, os brinquedos atrás das grades verdes do Parque Municipal, a multidão de passagem entre as faixas de pedestres da Praça da Estação – espaço de belo paisagismo, com suas fontes e o Museu de Artes e Ofícios. No Bulevar Arrudas, à frente, motoristas parados no tráfego não percebem, mas a pista chega a tremer, lembrando a pedestres e ciclistas que sob aquele espaço correm águas poluídas, com histórico de inundações.

Já fora da ciclovia, o deslocamento das bicicletas tem de seguir o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que determina a rodagem pelo bordo direito da pista, em trechos em que não há acostamento ou faixas exclusivas para bikes. A partir daqui, seguimos rumo ao trecho mais movimentado – e tenso – dessa pedalada rumo ao extremo Oeste de BH.

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