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Recaída e desespero de um usuário de crack

Em três reportagens publicadas na edição impressa do Estado de Minas, dez pessoas usuárias de crack revelaram seus dramas e a dor de suas famílias. Elas foram acompanhadas, durante seis meses, pelos repórteres Guilherme Paranaíba e Sandra Kiefer. Estima-se que, em todo o país, haja 1,3 milhão de dependentes desta droga. Conheça outras três delas que a reportagem acompanhou e cujo relato é publicado, com exclusividade, no EM.com.br

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postado em 14/08/2013 06:00 / atualizado em 24/08/2015 08:11

Guilherme Paranaiba

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press


Na vida de Wanderson Santiago das Virgens, de 33 anos, casado e pai de um filho, mais de uma década foi dedicada ao crack. O vício chegou a um ponto que o fez abandonar a família numa noite de Natal em troca das alucinações. Sempre considerado por todos a seu redor um homem trabalhador, o dinheiro conquistado com os serviços de pintor, pedreiro e eletricista foi canalizado para as drogas. Ano passado, entrou em uma comunidade terapêutica para se tratar por seis meses, mas o primeiro dia nas ruas representou sua queda diante do crack. Depois de 12 anos de lutas, a mulher de Wanderson acusou o golpe. O casal entrou em acordo e Wanderson voltou para a casa da mãe, em Santa Luzia, na Grande BH, onde segue fazendo bicos e usando o crack.


Início do drama: Passar o Natal de 2012 em tratamento para se libertar do crack teve um significado especial para Wanderson. Quando ele se recorda da última comemoração natalina antes de ser internado, acaba relembrando um episódio de vida, desde o contato com as drogas aos 15 anos e com o crack depois dos 21. Em 24 de dezembro de 2011, quando estava em casa com a mulher, a operadora de telemarketing Virgínia Ferreira Torres, de 30, e com o filho de 8 anos, a fissura pelo crack bateu de uma forma que ele mesmo reconhece como incontrolável.

Já calejada e conhecendo o histórico de dramas do marido, com quem ficou junto por 12 anos, Virgínia trancou a casa para impedir que Wanderson saísse justamente na noite de Natal. Mesmo assim, uma janela aberta em um sobrado do Bairro Serra Verde, em Venda Nova, foi o suficiente para Wanderson vislumbrar o crack e pular de uma altura equivalente a dois andares. “Dali só bati a poeira e fui atrás da pedra. Foi muito triste. Meu filho me ligava no celular e eu desligava, morrendo de desgosto”, se recorda. “Ele me perguntou se eu duvidava que ele pulava. Pulou e foi parar no Bairro Baronesa (Santa Luzia, Grande BH) atrás da droga. Apareceu depois de mais de um dia fora de casa”, conta Virgínia.

A reportagem do EM encontrou Wanderson exatamente neste momento em que ele passava o Natal se tratando, em dezembro do ano passado. Segundo os relatos de parentes, da mulher e dele próprio, 2012 foi um dos mais críticos em uma rotina de mais de 15 anos envolvido com bebidas, cigarro e drogas, sendo o crack a mais pesada e responsável até por mudar a personalidade do pedreiro. “Eu acordava pensando em como eu ia fazer para usar o crack, como arrumaria dinheiro. No fim das contas, sempre achava uma forma e seguia usando até a hora que conseguia dormir sem comer”, conta. Nesse tempo, ele estava prestes a completar um mês de tratamento. Desde 29 de novembro, data em que entrou em um sítio para se recuperar em Ravena, distrito de Sabará, o que mais ocupava sua cabeça era o medo do futuro. “E quando chegarmos lá fora? Qual será o retorno da sociedade? Como serei recebido?”, questionava.

O principal ponto de uso do crack era o Bairro Baronesa, em Santa Luzia, na região metropolitana, onde moram a mãe e uma irmã. Sempre que a vontade batia, era para lá que ele ia me enfiar em bocas de fumo. “Nesses lugares é muita humilhação que a gente passa. A sociedade vê os usuários de crack como a escória, um lixo que deve ser jogado fora”, desabafa.

No primeiro mês de tratamento, Wanderson não fugiu à regra dos demais dependentes. Muitas vezes, se viu tomado por fantasmas que o incentivavam a abandonar tudo e voltar ao crack, além da angústia por estar cercado de desconhecidos e longe da família. Para tentar recomeçar sua história, seguia as regras do tratamento, que impuseram uma rotina baseada em horários e tarefas. Acordava às 7h e cuidava da higiene pessoal até as 7h30. Entre 7h30 e 8h visitava a capela e ouvia os provérbios do dia. Logo depois, às 8h, tomava café da manhã e a partir de 8h30 começava a laboterapia, nome dado ao trabalho dividido de manutenção do sítio exercido pelos internados no espaço. O almoço era servido ao meio dia e o retorno à laboterapia ocorria a partir das 14h. Às 16h, pausa para o lanche, seguido do lazer, até 18h. Ao longo do dia, atividades lúdicas também eram desenvolvidas, como oficinas de música e grupos de oração. “No crack a vida era totalmente desregrada. Acho interessante seguir esses horários para voltar a ter um padrão e não viver largado, dando chances para querer a pedra de novo”, diz ele.

Antes de encontrar Wanderson pela segunda vez, a reportagem conversou com a mãe e a mulher do pedreiro em Santa Luzia, em 6 de fevereiro. Afastada de suas funções na Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) da capital há dois meses por problemas de saúde, Maria Aparecida Santiago, 53, conta que apesar de nunca ter passado perto das drogas, foi o crack que causou seu afastamento, por conta do sofrimento diário com o drama dos filhos. Enquanto Wanderson se tratava para ficar livre do vício, outro filho, Ueliton, um ano mais novo, também foi escravizado pela droga. Até objetos da mãe foram furtados em troca da pedra.

Ela conta que foi alertada por um irmão do envolvimento dos dois com drogas quando eles eram adolescentes, há mais de 15 anos. Mas a rotina de trabalho diária e a ausência de um pai presente não ajudaram a funcionária da SLU a conseguir manter os dois afastados de escolhas erradas. “Hoje estou com depressão por causa dessa situação toda. O Wanderson está se tratando, mas meu outro filho me fez pagar R$ 1 mil a um traficante sem eu ter o dinheiro. Tive que arrumar em três dias”, conta ela exibindo caixas de medicamentos prescritos por um médico para tratar a depressão.

“O crack faz a família inteira adoecer. Eu fico sem noção, sem cabeça e não tenho ânimo para fazer nada. Passo muitas noites sem dormir com medo de aparecerem drogados”, lamenta dona Maria Aparecida. Apesar de todos os dramas, a mãe elogia a postura de Wanderson, que está se tratando. “Toda vida eu trabalhei, vou fazer 31 anos de firma. Eu nunca ensinei coisa errada. Tudo que eu quis foi que eles estudassem, mas eles não quiseram”, desabafa.

NOITES SEM SONO

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Quem também já perdeu muitas noites de sono por conta do envolvimento de Wanderson com o crack é a mulher dele. Virgínia conta que quando os dois se conheceram há 12 anos, período equivalente ao envolvimento dele com o crack, e não imaginava que o futuro marido usava drogas. A única certeza era que ele bebia. Porém, quando a relação com o então namorado ficou mais séria, ela começou a desconfiar do crack.

O CRACK COMO ELE É: confira todas as reportagens da série especial

Chegou até a descobrir um cachimbo no meio de algumas coisas, mas conta que ele sabia manipular muito bem as pessoas para disfarçar o vício. O que mais chamou a atenção de Virgínia por conta da relação do marido com o crack foi a mudança de personalidade. “Ele ficou muito violento. Chegava em casa e me batia, estava sempre muito perturbado. Chegamos a ficar separados por um ano”, conta. Ela diz ainda que quando os dois reataram Wanderson ficou um tempo bem, mas logo recaiu e dessa vez de uma forma bem pior. Até as ferramentas de pedreiro, que eram imprescindíveis para ele trabalhar, chegaram a ser revertidas em crack.

Ano passado, enquanto Virgínia frequentava a Igreja Batista da Lagoinha, acabou conseguindo a ajuda de uma pessoa para bancar o tratamento do marido no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos (Credeq), instituição parceira da igreja. Dois meses e 15 dias depois, em setembro, Wanderson abandonou o sítio e voltou às drogas, dessa vez com compulsão pelo crack. “Começou a vender outras ferramentas de trabalho, meus produtos de beleza, as roupas dele e até o videogame do nosso filho. Em uma das vezes que passou dias fora de casa, chegou todo sujo, sem tênis e sem o videogame. Dessa vez, ele mesmo resolveu se tratar”, relata Virgínia.

A nova oportunidade foi dada no fim de novembro, no mesmo lugar, só que em uma das vagas financiadas pelo governo estadual. Apesar das inúmeras recaídas, a expectativa da mulher era a melhor possível. Quando Wanderson completou quatro meses de tratamento, já em março deste ano, Virgínia estava confiante na volta por cima. A mudança na aparência e a clareza dos pensamentos a levaram a acreditar que o casamento teria futuro e as drogas ficariam no passado.

De fato, em 27 de março deste ano, quando a reportagem conversou novamente com Wanderson, ele estava diferente. Com mais calma e tranquilidade, ele comemorava o batismo na Igreja Batista da Lagoinha e a oportunidade de falar para outras pessoas sobre o sucesso no tratamento. “Fui lá e dei meu testemunho de que é possível sair do crack, mas para isso temos que nos apegar à família e à Jesus”, diz ele. A ansiedade de ir embora e voltar ao convívio social também tinha dado lugar à serenidade. “Agora é esperar numa boa. Já não tenho mais aquela vontade de ir embora, a dificuldade é no início”, conta.

Novo encontro entre Wanderson e a reportagem do EM ocorreu em 22 de maio, faltando menos de uma semana para ele concluir o tratamento e retornar para o Bairro Serra Verde, local que ele escolheu para recomeçar ao lado da mulher e do filho. Quase seis meses depois da entrada, ele não negou que em muitas situações se pegou pensando em usar o crack de novo. “Posso te falar que o desejo é intenso. Todo mundo aqui tem vontade. Mas, se você quer realmente sair, tem que dar um basta”, disse. Ao relembrar os dias que chegou em casa coberto de sujeira, sem tênis, maltrapilho e transtornado, ele reconheceu que chegou no fundo do poço. “O crack te tira da condição de ser humano. Você passa à condição de animal, onde não é visto por ninguém. Mas os 180 dias aqui não foram em vão. O crack tem saída. O que falta é alguém apontar esse caminho”, afirma.

FLAGRANTE E DECEPÇÃO

As palavras de Wanderson ao fim do tratamento traduziam um sentimento que era compartilhado pela mulher, pelo filho e pelos parentes. Todos apostavam na superação de um passado em que somente o crack dava as cartas e tomava as decisões. Mas tão grande quanto a confiança de todos foi a decepção, que veio instantes depois da saída do Credeq com uma recaída fulminante, flagrada pela mulher dentro de casa em 25 de maio. “Arrombei a porta do banheiro e ele estava lá dentro. Uma droga na mão, pronta para ser usada”, lamenta Virgínia. Mesmo assim, ela conta que continuou no pé do marido para não desistir e tentar se manter longe da droga, o que não aconteceu.

Em junho, Wanderson chegou a vender dois desodorantes e mais ferramentas de trabalho como pedreiro, o que fez com que o alerta de Virgínia fosse ligado mais uma vez. Apesar de ficar mais tempo em casa, ele sempre dava um jeito de sair, o que aumentava a desconfiança da mulher. Depois de um dia de trabalho em que chegou em casa mais cedo, a operadora de telemarketing sentiu cheiro de fumaça e ouviu a confirmação de que o marido tinha fumado cigarro. No celular um número desconhecido, que ela resolveu ligar para saber de quem era. Nesse momento, os dois brigaram, pois Wanderson admitiu que era uma traficante.

Em seguida outro flagra, dessa vez no banheiro, onde estavam um cachimbo e algumas pedras de crack prontas para uso. “Eu disse que ele colocou a minha vida e a vida do meu filho em risco e dessa vez não dava mais para aguentar”, desabafa Virgínia. A briga fez Wanderson desaparecer por dois dias e retornar drogado, novamente sem o tênis e ameaçando se jogar da janela. “Nessa hora ele mesmo disse que voltaria para a casa da mãe, pois estava nos fazendo sofrer”, completa.
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