SIGA O EM

Conheça Fred e Natália, cujas aparências destoam da maioria dos usuários de crack

Rapaz de 31 anos e moça de 24, viciados na pedra, são a prova de que qualquer pessoa, de qualquer classe social, pode trilhar o caminho da droga

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
[{'id_foto': 913184, 'arquivo_grande': '', 'credito': 'Marcos Michelin/EM/D.A Press', 'link': '', 'legenda': 'O designer Frederico foi dono de empresa de comunica\xe7\xe3o visual antes de perder tudo para a droga', 'arquivo': 'ns62/app/noticia_127983242361/2013/08/13/434411/20130813152912585407u.jpg', 'alinhamento': 'center', 'descricao': ''}, {'id_foto': 913185, 'arquivo_grande': '', 'credito': 'Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press', 'link': '', 'legenda': 'Nat\xe1lia Quirino: idas e vindas em institui\xe7\xf5es de recupera\xe7\xe3o, mesmo com apoio incondicional da m\xe3e', 'arquivo': 'ns62/app/noticia_127983242361/2013/08/13/434411/20130813010724646886i.gif', 'alinhamento': 'right', 'descricao': ''}, {'id_foto': 913186, 'arquivo_grande': '', 'credito': 'Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press', 'link': '', 'legenda': 'Frederico, 31 anos, j\xe1 se internou em cl\xednicas de reabilita\xe7\xe3oo para viciados em crack, mas voltou para as ruas em busca da droga', 'arquivo': 'ns62/app/noticia_127983242361/2013/08/13/434411/20130813010827359532i.gif', 'alinhamento': 'right', 'descricao': ''}]

postado em 13/08/2013 06:00 / atualizado em 24/08/2015 09:02

Sandra Kiefer

Marcos Michelin/EM/D.A Press

 
Difícil desconfiar que o designer gráfico Fred é usuário contumaz de crack. Aos 31 anos, ele foge do estereótipo do dependente maltrapilho e de origem humilde. Mostra que qualquer classe social pode trilhar o caminho das pedras, pesado para chegar, e ainda mais difícil de sair. “E aí, chegado? Dá para conseguir uma paradinha?”, pergunta o rapaz, unindo-se ao grupo de usuários. Não há tempo para apresentações, nem formalidades. Primeiro, Frederico precisa da pedra. Já.

Sem se constranger com a presença da equipe de reportagem, Fred acende o cachimbo. À medida que “frita” o crack, as mãos param de tremer. O que ele sente naquele exato momento? “Alívio”, responde, tragando com sofreguidão. Expira a fumaça com um suspiro. “Parece que esqueço de tudo”, diz ele, que já foi dono de empresa de comunicação visual. Perdeu tudo para a droga. Mora com os pais idosos em um bairro  da Região da Pampulha.

Confira fotos de outros usuários de crack que o EM acompanha

Em menos de 15 minutos, Fred acende a segunda pedra. O que ele tanto deseja esquecer? A culpa é atribuída a problemas familiares envolvendo alcoolismo. Seria a explicação para buscar o crack em ocasiões festivas, ao contrário da maioria, que usa droga para aliviar o sofrimento. “Quando estou bem, corro para a cracolândia. É como se eu quisesse estragar tudo.”

Naquele dia de março, Frederico não deveria estar lá. No dia seguinte, a pedido da noiva, de família tradicional no interior do Rio de Janeiro, deve se internar para tratamento. Quando sair da clínica, em dezembro, quer passar a morar com a moça no estado vizinho. Se tudo der certo, vai esquecer o caminho das pedras.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Mas, antes, Frederico precisa da “última”. A tentativa da mãe de trancar o filho em casa e confiscar dinheiro e cartões de crédito fracassou. Fred sai com a melhor calça jeans, um bom tênis e os óculos importados. Hão de servir como moeda na cracolândia. Dentro de volumosa mochila está o aparelho de som recém-comprado pelos pais. Deve valer uns R$ 200 no mercado clandestino do crack. Ele abaixa os olhos, envergonhado. “Faço questão de dar o meu depoimento. É importante que as pessoas saibam que a pedra não é uma droga da periferia. Neste meio tem gente que já teve muitas oportunidades na vida, como engenheiros e advogados”, diz.

Nascido em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, Fred conta ter se iniciado cedo nas drogas. Aos 14, conheceu a maconha com amigos. Aos 20, descobriu a cocaína, quando a namorada rompeu o relacionamento de dois anos. Depois, se envolveu com uma garota de programa, que lhe apresentou o crack.

Afundado no vício, magro e abatido, aceitou se internar por nove meses em Caratinga. Tratado, conseguiu passar no vestibular. Sofreu nova recaída, mudou-se de cidade, passou uma temporada “limpo” e, aos trancos e barrancos, concluiu o curso superior. Com o apoio da família, partiu para a capital, onde montou empresa.

Religião

Em BH, a aparência do designer encantou uma jovem evangélica, moradora da Zona Sul. Decidido a seguir a nova religião, Fred abandonou as drogas e marcou casamento. O sogro financiou um apartamento em bairro nobre e garantiu sociedade nos negócios. “Era o ano de 2010. Estava tudo acertado: igreja, bufê e cerimônia. Mas caí ao viajar para o casamento de um primo, em Valadares”, conta ele, queimando outra pedra.

É difícil acreditar que Fred vai realmente conseguir manter o compromisso de seguir para a clínica de recuperação. Mas, no dia seguinte, a equipe do Estado de Minas liga para a casa dos pais, que confirmam a partida do rapaz, embora se recusem a conversar.

Frederico permaneceu por menos de um mês em uma comunidade terapêutica de Cachoeiro do Itapemirim (ES). Insatisfeito com o lugar, foi para o Rio antes do que esperava. Lá faz terapia e acompanhamento psiquiátrico, sob os cuidados da noiva. Parece perto de um final feliz. Mas isso, só o tempo dirá.  

Namoro com o tráfico

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Aos 24 anos, Natália Quirino é mais uma vítima de Ouro Preto, cidade histórica onde é grande o contraste entre a antiguidade dos prédios e a energia das repúblicas estudantis, movidas a festas, muitas regadas a álcool e drogas. “Moramos em uma cidade universitária, onde o que mais tem é droga. Os nativos é que pagam o pato”, lamenta Maria das Graças Quirino, mãe de Natália, que não desistiu da jovem, apesar das entradas e saídas de instituições de recuperação.

Para chegar à casa delas é preciso atravessar uma pinguela, sobre um córrego onde esgoto corre a céu aberto. A sensação é de que Ouro Preto ficou para trás quando se entra na parte mais pobre da cidade. É lá que a jovem garçonete mora com a irmã mais nova e a mãe, que se divorciou depois que o marido  passou a usar de violência na tentativa de corrigir a filha rebelde. “Meu pai sempre avisou que, se me pegasse com cigarro, quebrava minha mão”, conta Natália, que experimentou maconha aos 11 anos, em uma roda de amigos.

 “O corpo pede crack”, define ela. Dona de cintura fina e sorriso colgate, a morena tornou-se namorada de um traficante conhecido na cidade. Em 2011, o rapaz foi morto a tiros, deflagrando verdadeira guerra, em que muita gente foi assassinada. Natália, por sua vez, entregou-se ao vício. “O pai dela não deixava o rapaz entrar em casa, mas eles namoraram por dois anos. Na minha opinião, o menino fazia bem para Natália, que andava bem arrumada, com roupas de marca, tinha status. Quando ele morreu, minha filha falou comigo que a vida não lhe interessava mais”, relata a mãe. Depois de chegar a usar 60 pedras em um único dia, a jovem já foi internada várias vezes na comunidade Recanto de Caná, no Bairro Padre Eustáquio, Noroeste da capital. Na primeira internação, em 2007, ela permaneceu por sete meses. Depois da alta, conseguiu ficar quatro anos trabalhando, sem usar a pedra. Este ano, Natália voltou pela terceira vez. Estava internada desde janeiro.

Acabou na instituição depois de cumprir quatro meses na cadeia por envolvimento com drogas. Foi presa em flagrante com três pessoas, dentro de um barracão na periferia de Ouro Preto, com armas e drogas. “Natália não sabe disso, mas pedi à juíza para dizer a ela que deveria voltar para o Caná”, conta a mãe, católica praticante, que trabalha como secretária da casa paroquial de uma das igrejas centenárias da cidade.

Maria das Graças também se esforçou para bancar o tratamento. Afinal, ela garante a maior parte do sustento da casa, com a ajuda da filha mais nova, Nayara Karoline, que cursa letras e trabalha nos Correios. Natália, que já teve emprego fixo na prefeitura local, atualmente faz bicos como garçonete e arranjou serviço temporário durante o Festival de Inverno da UFMG.

A jovem deixou a comunidade terapêutica em 14 de julho. Quinze dias depois, Maria das Graças entrou em contato com a instituição, aos prantos. Contou que a filha chegou bamba em casa, de tanto usar crack. Natália nega ter usado a pedra – admite apenas ter apelado para o álcool e “bolinhas” (remédios de uso controlado). “Tive de dar comida a ela na boca. O pai dela entrou em casa nesta hora e virou um vulcão. Tive de entrar no meio. Avisei a ele que, enquanto eu estiver viva, ela continua sendo minha filha”, defende a mãe.

Ultimamente, Maria das Graças só sabe clamar aos céus pela salvação da menina. Passou também a frequentar um grupo de apoio a familiares de dependentes químicos. Pensa em se mudar de Ouro Preto. “Queria arranjar um emprego para a Natália, bem longe daqui. Meu maior sonho é vê-la feliz.” (SK)