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Batalha para se livrar da pedra desafia dependentes e familiares de todas as classes sociais

Na segunda reportagem da série sobre a trajetória de 10 mineiros que se viciaram na droga, EM relata as dificuldades de três usuários para ficar"limpos"

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postado em 12/08/2013 06:00 / atualizado em 24/08/2015 08:03

Sandra Kiefer , Gladyston Rodrigues e Marcos Michelin (fotos)

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press


A dona de casa Dione de Deus, de 44 anos, é uma das pacientes que mais exigiram cuidados especiais em 35 anos de funcionamento do Recanto de Caná, um dos poucos centros de internação de Belo Horizonte a aceitar mulheres com dependência química. Por decisão da filha mais velha, ela foi levada para a comunidade terapêutica no início do ano. Poucos dias antes, tinha fumado 20 gramas de crack e tomado uma mistura de medicamentos controlados com vodca. “Tentei autoextermínio”, ela reconhece. Dione continua em tratamento. Ainda não se sente preparada para voltar ao convívio social. Por enquanto, é capaz de fazer uma promessa: “Vou ficar até o fim”.

Dione de Deus não é uma dona de casa convencional. “Já pus muita trouxa na lavadora, mas sempre movida a pó. A cocaína me ajudava a ficar mais rápida”, ela conta, sem rodeios. Os problemas com drogas são antigos. Aos 15, fumou maconha. Aos 30, depois de se separar do marido e conhecer um amigo das irmãs numa festa, passou a experimentar de tudo. “São 14 anos de remédio para emagrecer, chá de lírio, cogumelo, LSD, anfetamina, cocaína, pico de heroína... Dou graças a Deus por ainda estar viva”, diz. A tarefa de criar os dois filhos ficou a cargo dos avós. 

 

 


O crack é a droga mais recente na vida dela. E a que fez a dona de casa chegar ao momento mais delicado. A internação no Recanto de Caná foi uma decisão extrema tomada pela filha, Nathany, de 22 anos, para tentar salvar a mãe. Por causa do coquetel que misturou bebida, remédios e crack no início do ano, Dione precisou ser levada pelo Samu e ficar dias no centro de terapia intensiva (CTI) de um hospital. Foi transferida primeiro para o Centro de Recuperação em Saúde Mental Álcool e Drogas (Cersam-AD), de Belo Horizonte e, depois, internada contra a vontade no Recanto de Caná.

“Minha filha ameaçou cortar relações comigo. Disse que eu não tinha mais saúde para beber nem usar droga. Nem dinheiro para pagar pelo vício”, lembra. “Na época fiquei revoltada, mas hoje só tenho a agradecer. Eu estava no fundo do poço”, diz, mostrando a foto da filha na capa da Bíblia. Dione lembra que já passou por “humilhações” para comprar e consumir crack. Para fumar, diz ter entrado na casa de outros usuários em favelas e dividido diária em pensões no Centro da cidade. Como forma de conseguir a droga, atuou até como olheira para traficantes.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
A tarefa era avisar se a polícia se aproximasse. “Gritava: ‘Alerta, alerta, João tá chegando’ ou ‘Galo doido’”, lembra. Em troca, os traficantes ofereciam três pedras de duas em duas horas. “Tenho família boa, uma casa boa, um casal de filhos. Minha filha faz faculdade de engenharia. Mas o crack parece um fantasma na minha vida. Ele manipula meus instintos, devassa minha vida, acaba com meus dentes, me faz perder a força”, descreve.

O período de tratamento no Recanto de Caná teve altos e baixos. Nos primeiros 30 dias, Dione tentou fugir duas vezes. Primeiro, escapou pelo portão, que tinha sido aberto por um pedreiro, mas não conseguiu ligar para ninguém do telefone público da esquina. Depois, achou a chave, abriu a porta e foi embora. A filha a encontrou e a levou de volta à comunidade terapêutica. “Quero me tratar, mas a fissura é muito grande”, disse, à época.

Depois de completar três meses de internação, Dione recebeu autorização para visitar a família por três dias. Chegou a participar da festa de aniversário da sobrinha, de 7 anos. Mas ainda não se sentiu preparada para voltar ao convívio social. “No meio da festa, me tranquei no quarto e só saí na hora dos parabéns”, lembra. Outro momento difícil foi a decisão de uma colega da comunidade terapêutica de abandonar o tratamento. “Ela foi embora por impulso. Não deveria ter feito isso.”

Com o tempo, Dione passou a reagir bem ao tratamento. Ganhou a confiança da coordenadora do Recanto de Caná e das colegas. Em julho, recebeu a tarefa de atuar como uma espécie de subcoordenadora. Agora, é responsável pelas chaves dos corredores, dormitórios e do armário de medicamentos. O tratamento, com duração de nove meses, termina em agosto. Perto de sair, ela renova a promessa: “Vou até o fim”.