Minas tem hoje 40.425 médicos e Belo Horizonte concentra 38,9% do total, ou 15.762, segundo pesquisa do Conselho Federal de Medicina. Dirigentes de entidades da categoria descartam a hipótese de que a desigualdade seja motivada pela falta de profissionais. A razão seria a precária infraestrutura em cidades do interior. Eles não consideram o Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab) uma ferramenta eficaz contra o problema.
“Vistoriamos todos os postos em Minas. Muitas unidades de assistência básica não oferecem a mínima condição. Aqui em BH também há muitos problemas, em bairros. No Norte de Minas, o índice de médicos por habitante é baixo mesmo, mas não tem nada lá. O cidadão não vai conseguir exercer o que aprendeu”, diz o presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas (CRM-MG), João Batista Gomes Soares.
O presidente da Associação Médica de Minas Gerais, Lincoln Lopes, reclama do programa financiado pelo governo federal. “Os médicos vão e ficam o menor tempo possível. Como são jovens e atuam em locais de pouca condição, ficam expostos ao risco de serem processados por má conduta e erro médico. Isso para depois conseguirem pontuação melhor na residência”, constata. Ele questiona a ideia de que uma das possíveis soluções seria a criação de mais cursos no interior. “A grande maioria das pessoas que vão estudar lá não é da região e todo mundo sai para onde tem condições de trabalho”, acrescenta.
Lopes não acredita que haja menos profissionais que o suficiente. “O Brasil tem muitas escolas, a quantidade de médicos que se forma é muito grande. Como estaria faltando médico? O que acontece é que são extremamente mal distribuídos. Médico precisa de estrutura de trabalho. Sem isso, é espectador privilegiado do sofrimento humano. Ninguém aguenta isso”, observa.
MEMÓRIA
Altos salários em leilão
Em agosto de 2010, o Estado de Minas mostrou como o desafio de fixar médicos tornava o dever de garantir o direto universal à saúde cada vez mais difícil no estado. Na tentativa de ter um profissional, as prefeituras da Grande BH abriram um verdadeiro leilão, com oferta de salários de até R$ 17,5 mil. Pesquisa do EM nas 34 cidades da região metropolitana revelou que, na disputa, valia o “quem dá mais”, levando o médico a migrar de um local para outro de acordo com a melhor oferta de salários e de condições de trabalho. Mas, mesmo assim, havia unidades de saúde da família sem um profissional havia vários meses. Fatores como distância, acesso e pagamento em dia influenciavam na decisão de aceitar ou permanecer no cargo. Na época, muitas especialidades estavam com o quadro incompleto ou nem sequer existiam nos municípios. A campeã desse problema era a ortopedia, seguida pela oftalmologia, pediatria, neurologia, hematologia, endocrinologia, ginecologia e urologia.
