Índice de reprovação no exame de direção na Grande BH chega a 67%

Detran teria de punir autoescolas, mas alega que ninguém aprende só com 20 horas/aula

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postado em 20/02/2013 06:00 / atualizado em 20/02/2013 10:03

Paula Sarapu , Pedro Ferreira

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

A recepcionista Patrícia Pereira Magalhães de Godoy, de 25 anos, trabalha numa autoescola, tem 30 instrutores à sua disposição para as aulas de legislação e direção, mas não consegue tirar carteira de motorista. Ela já fez o exame de direção quatro vezes, mas na hora da prova o nervosismo fala mais alto. Como Patrícia, muitos belo-horizontinos sofrem com o rigor da avaliação. Dados do Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran/MG) mostram que o índice de reprovação chega a 67% em Belo Horizonte e na região metropolitana. Em Minas, a média de reprovados é de 64%, muito superior ao Rio de Janeiro, por exemplo, de 51%. Essa estatística faz com que o Detran/MG não consiga cumprir a lei federal que determina que as autoescolas aprovem pelo menos 60% dos candidatos, sob risco de punição. No ano passado, em BH e na região metropolitana, dos 422.827 exames de direção aplicados, em apenas 137.224 os motoristas garantiram a carteira.

“Para as provas teóricas, eles fazem isso. Mas se o Detran cobrar aprovação mínima no exame prático, vai fechar todo mundo. Não tem como aprovar os alunos com apenas 20 horas/aula”, afirma o instrutor e proprietário da autoescola Nova Sion, no Bairro Sion, Lúcio Neto. Ele admite que os alunos chegam muito “crus” à prova prática e diz que com a carga horária determinada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o instrutor só consegue ensinar ao motorista a andar em linha reta, dominando os pedais e usando três marchas.

“Dirigir é uma questão motora e a prova é muito simples, mas a autoescola só consegue ensinar o básico. É tudo meio automatizado”, avalia ele, que é mais radical. “Nem com 40 horas/aula, o que está sendo discutido agora, o aluno tem condições de circular nesse trânsito, porque demora pelo menos três meses para entrar no ritmo e sentir segurança. Deveria ser como nos EUA, onde o motorista, durante seis meses, só pode andar acompanhado de alguém habilitado há mais tempo, enquanto estiver em fase de adaptação.”
O chefe da Divisão de Habilitação do Detran-MG concorda. Segundo o delegado Anderson França, o órgão teria que punir todos os centros de formação se seguisse a lei à risca. “Não é só em Minas, ninguém no Brasil consegue, porque não se a aprende a dirigir com 20 horas/aula. Pesquisei sobre os índices em outros estados e todos estão na faixa de 35% a 40% de aprovação. O Denatran é que precisa mudar a carga horária”, pontua o delegado.

Para o advogado Tales Lucena, especialista em trânsito, os candidatos à carteira de motorista chegam despreparados ao exame. “Não tenho dúvidas disso e as autoescolas também não têm muito o compromisso de capacitá-lo”. O presidente do Sindicato dos Centros de Formação de Condutores de Minas, Rodrigo Fabiano da Silva, concorda. “O principal (problema) é a carga horária, que deixa a desejar, e o rigor do exame. É quase mágica aprovar alguém com 20 horas/aula ou até 15, dependendo do caso, mas há problemas de deficiência no ensino por causa do apagão de mão de obra”, argumenta.

Segundo Rodrigo, não há oferta de profissionais porque a lei exige que o instrutor tenha carteira D (para ônibus) e pelo menos um ano de experiência nessa categoria. “Por isso, se um profissional não responde bem, não temos como trocá-lo”, justifica.

Lucena diz ainda que o rigor do exame de direção pode ter um viés econômico, por causa das taxas de pagamento. Mas, segundo o delegado Anderson França, a receita entra no cofre único do estado. Para o presidente do sindicato, é lenda dizer que a reprovação é interessante para as autoescolas. “Isso, na verdade, queima o filme. O interessante é quando o aluno passa e vira um bom condutor, indicando outras pessoas para a autoescola”.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Pouco tempo, muito nervosismo

A fim de tentar reduzir o número de candidato reprovados no exame no direção, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) está avaliando o pedido do Detran de vários estados para dobrar de 20 para 40 horas/aula o tempo de treinamento dos candidatos a motorista. O tempo curto é apontado como principal causa da reprovação em todo o país.

Mas para o jornalista Daniel Drumond, de 29 anos, a quantidade mínima de aulas foi suficiente e nem mesmo a quarta reprovação tira da sua cabeça que ele dirige bem. “Antes de fazer a última prova, meu instrutor e eu tínhamos certeza de que eu sairia com a carteira na mão”, conta ele, que admite um erro por desatenção. “A verdade é que é um exame muito rápido, não tem como medir se você vai ser um bom motorista ou não.”

Segundo ele, que calcula ter gasto R$ 3 mil nas tentativas de tirar a carteira de habilitação, os examinadores são muito radicais. “Dois deles nos acompanham e a gente fica totalmente na mão deles. Se você não concorda com alguma coisa, não tem a quem recorrer, como em concursos ou provas de seleção. Acaba sendo um exame muito autoritário. Por isso, acho que vale repensar não a carga horária das aulas, que deve ser uma decisão do aluno com o instrutor, mas um índice mínimo de erros e um tempo maior para a prova”, sugere.

TENSÃO NO CARRO

Na quinta tentativa advogada Cristina de Oliveira Souza, de 30, conteve as lágrimas ao ser reprovada ontem, sem nem mesmo chegar ao teste de baliza, por cometer cinco faltas, como fazer conversão sem reduzir a marcha e deixar o carro “morrer”. Ela precisa do carro para trabalhar e há seis meses tenta tirar a carteira. “A gente perde tempo. Sua vida para em função desse objetivo único, mas fico muito nervosa”, diz. “É mais fácil passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil do que ser aprovado no exame de direção. No exame do Detran, dois examinadores ficam no carro com você, um no banco da frente dando ordens e outro atrás anotando seus erros. Eles deixam o candidato tenso”, reclama a advogada.

O delegado Anderson França, entretanto, justifica o rigor. “Mesmo com o alto índice de reprovação, o número de acidentes nas ruas e rodovias é excessivo. Se não fosse isso, talvez houvesse um caos no trânsito”.
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