População de BH vai conviver com tragédias provocadas por chuvas por muitos anos

Prefeito diz que capital não tem dinheiro para obras que acabem com pontos de alagamento, afirma que solução total do problema pode levar de 5 a 10 anos e anuncia que PBH vai desenvolver mais um sistema paliativo para lidar com a chuva

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postado em 17/11/2012 06:59 / atualizado em 17/11/2012 07:11

Daniel Camargos / , Valquiria Lopes

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

Os moradores de Belo Horizonte terão que conviver com tragédias provocadas por chuvas por no mínimo mais cinco anos. Mas o drama pode se alongar até o período chuvoso de 2022. O prefeito Marcio Lacerda (PSB) calcula que para sanar os problemas dos 80 pontos de inundação da capital serão necessárias obras que demandam de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões. “A prefeitura não tem recursos e não tem capacidade de endividamento para fazer essas obras todas a curto prazo. É preciso aumentar a prevenção e ter um sistema de socorro eficiente”, afirmou ontem Lacerda. Mesmo que o poder público tivesse a verba, o prazo não seria de menos que três a cinco anos, informou. Não é a primeira previsão do tipo feita pela PBH. Em 2009, primeiro ano da gestão Lacerda, o então o secretário municipal de Políticas Urbanas, Murilo Valadares, previu que a cidade precisaria de dois anos até estar pronta para temporais.

Em entrevista ontem, no Bairro Castelo, na Região da Pampulha, próximo ao Córrego Ressaca – local onde Gilmar Almeida de Santana morreu durante a tempestade da quinta-feira –, o prefeito reagiu com irritação ao ser questionado sobre o fato de que o poder público não agiu a tempo de evitar prejuízos, diante da previsão de temporais, nos pontos onde os problemas são conhecidos. “Se é assim, nós falhamos. Nós devíamos ter sido um pouco mais babás dos cidadãos, para que eles não corressem riscos”, disse.

Sem previsão de recursos que possibilitem enfrentar todo o problema a curto prazo, a estratégia da prefeitura pode chegar ao extremo de interditar vias apontadas como potenciais locais de alagamento. “É preciso pensar em um sistema dinâmico, em que mesmo com uma chuva que produza alagamento em 15 minutos, nós possamos ter o fechamento da via, para evitar que pessoas entrem em zonas de risco”, disse Marcio Lacerda, sem detalhar como a medida poderia ser adotada. O prefeito afirmou que nas próximas duas semanas deve pensar em um “sistema de aviso e monitoramento, que permita reação mais rápida, para que os carros não entrem nessas regiões”.

O atual sistema de prevenção, baseado na colocação de placas de advertência em pontos suscetíveis a alagamentos, mostrou-se insuficiente, admitiu o prefeito. “O que nós fizemos nos últimos dois anos foi instalar centenas e centenas de placas de aviso nessas zonas de inundação, pedindo as pessoas para não se arriscarem nesses espaços nos momentos de chuva forte. Foi o mínimo que podíamos fazer”, afirmou Lacerda, reconhecendo que a última morte mostrou que a iniciativa é ineficaz. “Parece que a pessoa se arriscou. É uma morte que lamentamos muito. Somos solidários com a família. É preciso que o poder público aja mais rapidamente para fechar essas áreas no caso de chuva forte”, disse Lacerda.

O prefeito informou que, na atual gestão, que termina este ano, foram investidos quase R$ 500 milhões em intervenções já concluídas, somando as iniciadas na gestão anterior. “Temos em andamento obras de prevenção de enchentes de R$ 900 milhões. Somando ao que está em projeto e licitação, chegamos a R$ 1,1 bilhão. Nunca se investiu tanto em BH na prevenção de enchentes quanto se fez nos últimos quatros anos” argumentou o prefeito, que foi reeleito e fica no cargo até o fim de 2016.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press


Lacerda admite que o volume é insuficiente e atribui parte da culpa a seus antecessores no cargo. “ É uma questão de bilhões e bilhões de reais que não foram investidos no passado. A cidade ocupou margens de córrego de forma indevida”, avaliou. O prefeito acrescentou que, se as chuvas forem intensas nos próximos anos, como ocorre desde 2008, os problemas continuarão a ocorrer até que todas as obras sejam concluídas. Lacerda classificou a chuva de quinta-feira como um fenômeno meteorológico atípico, mas que repetiu situações ocorridas nos últimos quatro anos. “Antes de 2008, pelo menos nos 15 anos anteriores, não tivemos acidentes meteorológicos assim”, afirmou.

MAIS PERDAS Diante da perspectiva pouco otimista da prefeitura, restou aos atingidos pelas chuvas nos conhecidos pontos de inundação da capital se armar de vassouras, pás e mangueiras para limpar a sujeira depositada em casas e lojas pela enxurrada. Foi assim na Avenida Bernardo Varconcelos, no Bairro Cachoeirinha, Região Nordeste de Belo Horizonte. No Supermercado Roma, na altura do número 2.000, produtos e computadores ficaram estragados. Metros à frente, a distribuidora de produtos de sorveteria Minas Soft amanheceu repleta de lama. A avenida por onde passa o Córrego Cachoeirinha ficou mais uma vez coberta de água barrenta, que invadiu o comércio da região. “Enfrentamos uma chuva forte no ano passado e perdemos R$ 15 mil em produtos. Depois disso, colocamos placas de vedação nas portas, mas o serviço não foi suficiente. Estamos com uma perda enorme. Ainda nem sei o valor”, contou a gerente Vanessa Dias, de 28, enquanto juntava caixas de papelão ensopadas. Trabalho que se repetiu por várias regiões da cidade, principalmente em avenidas como a Francisco Sá, Cristiano Machado e Silviano Brandão.


FALA, PREFEITO
“Se é assim, nós falhamos. Nós devíamos ter sido um pouco mais babás dos cidadãos, para que eles não corressem riscos”
Márcio Lacerda, prefeito de BH, ao ser questionado sobre a falta de obras e os resultados previsíveis da tempestade

FALA, CIDADÃO

“Tinha de haver mais obras de drenagem. As galerias não suportam e todo mundo sabe disso. Teve até quem nos prometeu isenção de IPTU, mas não deu nada”
Paulo de Souza Matos, ono de bar na Avenida Francisco Sá, no Prado, enquanto limpava o estabelecimento e contabilizava R$ 3 mil em perdas com a chuva de quinta-feira
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