
Nestes dias de maio, as igrejas de Minas mais parecem um espelho do céu refletindo a fé do povo, as tradições seculares e a inocência das crianças. Vestidas de anjos, com túnica e asas brancas, as meninas levam ao altar a coroa, o véu, a palma e outros símbolos para homenagear Nossa Senhora. Emoção para as famílias, encantamento para os fiéis, começando já na sacristia dos templos católicos, onde os coordenadores da coroação de Maria repassam os cantos entoados durante o rito, arrumam os cachinhos dos cabelos e ajeitam as vestes das participantes. Em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), a celebração religiosa demanda horas de ensaio e empenho. E moradores guardam velhas histórias.
Em Jaboticabubas, a 63 quilômetros da capital, artesãs e costureiras encontram trabalho certo de fevereiro a maio, mês dedicado às mães e a Maria. Com 30 anos de prática, Maria Inês Santos Maia, de 70 anos, conhecida como dona Inesinha, confecciona asas com maestria e recebe encomendas de todo canto. Ela aprendeu o ofício sozinha e basta olhar as peças para enxergar obras de pura arte. Perto da sua casa, Aparecida de Fátima Santos, de 56, a Neguinha, confecciona as túnicas com detalhes prateados, enquanto Nadir Luíza Marques, de 76, a dona Diquinha, elabora as coroas de flores que enfeitam a fronte da santa. No fim da festa nas igrejas, vem a alegria da garotada: a distribuição dos cartuchos de amêndoas, delícias patrocinadas pela mãe da menina encarregada de coroar na imagem.
A coroação de Nossa Senhora ocorre no fim das missas das 19h, celebradas nos sábados e domingos pelo padre Danil Marcelo dos Santos, mas por volta das 18h o movimento já é intenso na sacristia do Santuário de Santa Luzia, em Santa Luzia, a 27 quilômetros de BH. Algumas meninas chegam à igreja vestidas com as túnicas e carregando as asas, outras, acompanhadas das mães, trazem caixas com a roupa e complementos. “Se a menina não tiver a vestimenta e asas, podemos emprestar”, diz a coordenadora da coroação, Maria Goretti Gabrich Freire Ramos. Há muitos anos nessa função, ela tem a colaboração de Maria José dos Santos, conhecida como Ticota, para ensaiar a turma. “É prazeroso e também exige paciência, pois temos crianças de três anos a 14 anos”.
Com uma túnica rosa, pois vai pôr a coroa, Bárbara Luíza Salomão Rocha, de 10 anos, está pronta, depois de receber toda atenção da mãe, a professora de história Ana Carolina Santos Salomão Rocha. Desde os três anos a garota cumpre o ritual, e gosta. “É um momento especial”, afirma com brilho nos olhos. Ana Carolina acha importante a filha participar das coroações de Nossa Senhora e repassa o verso composto para as celebrações deste ano pela paroquiana Piedade Silva. Ao lado, a cabeleireira Catarina Lamas, moradora do Bairro Frimisa, confere a túnica da filha Thainá, de 10. “É a primeira coroação dela e fico muito orgulhosa e feliz, pois é um ato que fortalece a religiosidade dos jovens”, acredita.
Os minutos vão passando e está quase na hora de as 40 meninas formarem o cortejo na porta da igreja e fazerem a entrada triunfal rumo ao altar. A dona de casa Maria da Silva Freitas, moradora do Frimisa, ajuda as filhas gêmeas Marina e Mariana, de 12, ao lado de Hanna Luíza Patrocínio Baudson, de 12, e Ana Carolina Oliveira Martins, de 11. Tudo pronto e Goretti dá o sinal para que elas se encaminhem, em duplas, para a porta do santuário barroco.
A fila se forma e as meninas entram na igreja de mãos postas – há as que vão colocar os símbolos – véu, coroa, palma, coração, estrela, coroa do Menino Jesus e o terço –, o grupo do coro e as menores, na casa dos três, quatro anos, que vão aprendendo os passos do cerimonial. Antes da bênção final dada pelo padre Danil, elas sobem a escada e cantam. Pais e irmãos envaidecidos registram as cenas nos celulares e máquinas e os fiéis explodem em aplausos. Um dos momentos mais esperados pela garotada é a distribuição dos cartuchos coloridos, enfeitados com papel crepom azul e branco, e recheados de amêndoas, distribuídos por Bárbara Luíza e sua mãe, Ana Carolina Santos Salomão Rocha.
Céu de algodão
De volta à sacristia, no fim da coroação, Goretti se lembra de histórias contadas por sua mãe, Tereza Gabrich, já falecida, que coroou até ficar mocinha. “Uma vez, parece que na década de 1950, enfeitaram o altar-mor todo com algodão. Mãe dizia que ficou lindo, parecendo mesmo um céu. Os anjos subiam pela escada, como é costume até hoje, e se postavam ao redor da imagem de Nossa Senhora e nos degraus, cada um esperando o grande momento. O problema é que uma criança estava com uma vela acesa e chegou muito perto do algodão. Não deu outra: o fogo começou a se alastrar e por pouco não houve um acidente”.
Mãos cheias de habilidade

“Quem fazia asas de anjo aqui na cidade era uma senhora chamada Geralda. Quando ela morreu, na década de 1980, pensamos que a tradição poderia terminar também. Mas, mesmo sem nunca ter visto dona Geralda trabalhando, resolvi arriscar e deu certo. Peguei gosto e daquela época em diante o povo não me deu mais sossego”, conta a bem-humorada Inesinha, enquanto dá os últimos retoques num par de asas.
O processo de confecção é totalmente artesanal, começando no sítio da família, nos arredores de Jaboticatubas, onde há criação de patos e gansos. Depois de juntar as penas, começa o processo de limpeza, pois todas devem estar imaculadamente alvas. “Lavo com muita água, sabão em pó e álcool para não dar cheiro. Deixo de molho por uns oito dias, sempre trocando a água”, conta Inesinha, que, na sequência, põe as penas dentro de um saco para secá-las. A sabedoria mostrou que se ficarem ao ar livre “o vento leva”. Nesse período, diariamente, a artesã verifica se as penas já estão no jeito e vai alisando, com a ponta dos dedos polegar e indicador, para que não encrespem.
Pensa que acabou? As asas devem repetir as formas dos animais, então é hora de separar as penas dos lados direito e esquerdo, as grandes e pequenas, e checar se estão todas bem limpinhas –“pena encardida não clareia de jeito nenhum”. Ao mesmo tempo, Inesinha prepara as armações de arame, enroladas com papel crepom e cobertas de filó também branco. É nos buraquinhos do tecido finíssimo que será colocada pena por pena. “Dá muito trabalho, não dá?”, conta a viúva, mãe de dois filhos e avó de cinco netos, que, na etapa final, terá ainda que costurar uma asa à outra e pôr o elástico para prendê-las ao corpo das meninas.
PALAS E BRILHOS Os últimos meses têm sido de muito trabalho para a costureira Aparecida de Fátima Santos, de 56, conhecida como Neguinha. Casada, mãe de quatro filhos e trabalhando nesse ofício há 45 anos, ela é muito requisitada para fazer as túnicas da coroação, sempre de cetim, que permitem o brilho ideal e o caimento perfeito. “Faço a pala removível”, diz, mostrando o complemento da parte superior da túnica, que pode ser acolchoado ou bordado com brilhos. “Os mais indicados são os prateados, pois o efeito à noite é mais bonito”, orienta.
Os sete símbolos
» A coroa de Nossa Senhora mostra que ele é a rainha do céu e da terra, mãe de toda a humanidade: “Nas águas cristalinas, eu fui encontrar/Oh, mãe divina e bela para te coroar/E trouxe esta coroa para te entregar/Foi feita só de pedras que encontrei no mar”.
» O véu representa a virgindade da mãe de Deus: “Deponho em tua fronte este lindo véu/Que hoje aqui te trago, Rainha do Céu/Pedindo proteção para os devotos teus/Que estão em desespero e longe de Deus”.
» A palma na mão representa a “a rainha dos mártires, de todos os que derramaram sangue por Jesus” e a pureza de Nossa Senhora: “Das flores mais bonitas do nosso jardim/Dos lírios, rosas, dálias e também jasmim/Eu vim te oferecer, oh mãe do criador/Esta humilde palma com muito amor”.
» O terço representa a religiosidade do povo: “No terço que aqui vim te trazer/Eu rezo ave-maria para te oferecer/Mas temos o pai-nosso para nos salvar/E na salve-rainha eu vou te contemplar”.
» A estrela representa a evangelização e o sinal de Jesus Cristo: “Olhando para o céu em noite de luar/Também vejo estrelas sempre a piscar/Busquei uma para ti, para iluminar/Durante toda noite o teu lindo altar”.
» O coração representa aquela que acolhe os filhos, a ternura e a disponibilidade de mãe: “Vermelho, puro e belo, eu tenho nas mãos/De todo nosso povo esse coração/Carrego com carinho e muita emoção/E trago para te dar em forma de canção”.
» A coroa do Menino Jesus representa a realeza do “Deus filho”: “Jesus, aqui estou para te bendizer/Transforme minha vida e também meu ser/Aceite esta coroa de todo coração/E para nós teu povo dai-nos teu perdão”.
300 meninas em missa
O próximo dia 27 será de grande festa no Santuário São Paulo da Cruz, na Região do Barreiro, em Belo Horizonte. Para o último domingo do mês, às 9h30, o reitor do local, padre Alex Antonio Favarato, planeja uma celebração com a presença de 300 meninas e adolescentes vestidas de anjo, que vão acompanhar a procissão de Nossa Senhora, missa e encontro de bandas. “Esperamos contar com o apoio da nossa comunidade”, diz o padre Alex, responsável pela organização de uma bonita cerimônia no domingo de ramos. Padre Alex conta que as coroações começaram no século 13, na Europa, e vieram para o Brasil com os portugueses. “A origem está no quinto mistério glorioso do rosário, no qual Nossa Senhora é coroada ‘rainha do céu e da terra’”, explica o religioso.
