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Trabalho voluntário: procura-se quem saiba ouvir e ajude a salvar vidas Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado há 35 anos em Belo Horizonte, sofre com a falta de voluntários para atender pessoas em crise que procuram a ONG em busca de apoio

Sandra Kiefer -

Publicação: 28/02/2012 06:00 Atualização: 28/02/2012 07:22

"No início do CVV desliguei o telefone sabendo que tinha salvado três vidas, quer dizer, eu não, o CVV. Não posso revelar mais detalhes, mas esse é o momento mais especia"l - Ordália, voluntária há 16 anos
“Alô, é do CVV. Pois não?”. Ao ouvir a sigla mágica CVV, que quer dizer Centro de Valorização da Vida, seguida de um longo silêncio do outro lado da linha, quem discou o número 141 começa a contar livremente sobre os seus problemas. Os desabafos variam e não há quantificação nem julgamento sobre a dor do outro. As 800 ligações recebidas por mês são de pessoas dispostas a contar sobre a perda de um ente próximo, falar sobre sua dependência com o álcool ou confessar o desejo de pular de um prédio porque terminou com a namorada. Pode até não conseguir falar nada, por estar abafado, aos prantos do outro lado da linha. “É o que a gente chama de atendimento mudo. Enquanto houver alguém respirando, ofegante ao telefone, nós estamos ouvindo”, explica a voluntária do CVV Klênia, de 38 anos, que preserva o anonimato e o sigilo das ligações.

Pela primeira vez, estão faltando voluntários no serviço de apoio emocional e prevenção ao suicídio prestado há 35 anos pelo CVV de Belo Horizonte e há 50 anos no Brasil. O trabalho, que costumava ser 24 horas por dia, há quase seis meses tem funcionado apenas das 14h às 23h. No restante do dia, os aparelhos são deixados fora do gancho, dando a entender que estão ocupados. “Desse jeito, quem ligou uma vez não perde a esperança. Pode tentar ligar de novo”, afirma. Dona de casa e mãe de dois filhos pequenos, de 3 e 5 anos, Klênia dedica 4 horas e meia por semana ao centro, assim como os atuais 25 voluntários do CVV BH, que já foram 60 no passado. Com a escassez de pessoal, não dá para preencher 100% da grade de atendimentos.

“É preocupante, porque a dor e o sofrimento não têm hora. Pode dar vontade de ligar de manhã, ao meio-dia, de madrugada”, diz a voluntária, que, na última sexta-feira, extrapolou o limite de 23h e atendeu um usuário do serviço até depois da meia-noite. Ordália é a voluntária mais antiga e mantém há 16 anos o compromisso de se doar por quatro horas e meia toda semana. “No meu começo de CVV desliguei o telefone sabendo que tinha salvado três vidas, quer dizer, eu não, o CVV. Não posso revelar mais detalhes, mas esse é o momento mais especial”, revela a voluntária, que chega de casa trazendo bolo de limão e biscoitos para a turma da segunda-feira.

Pede para passar um café fresco e lamenta que as ameaças de suicídio estão ocorrendo cada vez mais cedo entre os adolescentes e se prolongam na velhice. Antes, os casos concentravam-se entre 18 a 26 anos. “Agora atendemos a partir dos 13 anos. Também trabalhamos com a prevenção ao suicídio de idosos, que aumentou com a solidão”, afirma ela, que já perdeu um irmão e uma amiga em mortes trágicas, antes de se candidatar ao CVV. Entre os voluntários do CVV, estão apresentadores de TV, empresários, professores universitários e aposentados, que não se identificam para não criar dependência nos ouvintes.

 

“Uma vez atendi uma jovem que contou estar trancada dentro de um quarto e disse que eu era a primeira pessoa com quem ela conversava naquele dia. Ela falou sobre seus problemas psiquiátricos e dizia que só um cego não enxergava que ela estava sofrendo”, conta Altair, de 52 anos, que se tornou deficiente visual aos 19 anos ao sofrer um acidente de trabalho. Seus atendimentos no CVV são altamente qualificados, em função de sua tragédia pessoal e do desenvolvimento da audição e da fala, que se aperfeiçoaram no lugar da visão.

“Apesar das minhas dificuldades pessoais, sinto que ainda tenho algo que pode ajudar outras pessoas, nesta sociedade tão individualista. Por isso, me candidatei a ser voluntário do CVV”, conta Altair, que se locomove com dificuldade até chegar à cabine dois, nos corredores da casa, localizada no Bairro Nova Suíssa. Ele também foi obrigado a memorizar as fichas de apoio fornecidas aos voluntários, como forma de conduzir a conversa e deixar o ouvinte mais à vontade. “É gratificante quando alguém liga e diz que a voluntária da tarde de domingo salvou sua vida”, diz. O CVV não tem fins lucrativos, ligação com partidos políticos nem com organizações religiosas. Também não tem pretensão de oferecer terapia, nem propor conselhos ou dar palpites na vida do ouvinte.

Ajuda sem julgamento ou doutrina

Altair, que é cego, memorizou as orientações fornecidas pelo CVV para facilitar o atendimento e poder ajudar a quem precisa (Beto Novaes/EM/D.A Press)
Altair, que é cego, memorizou as orientações fornecidas pelo CVV para facilitar o atendimento e poder ajudar a quem precisa
No país onde há mais de um telefone celular por habitante, procuram-se pessoas capazes de ouvir o outro, do lado de lá da linha. Mas não basta atender à ligação. É preciso ter tempo para escutar o desabafo, sem pedir desculpas por sair correndo para o mestrado, a academia ou para levar o filho no futebol. Não basta atender o telefone, é preciso querer ouvir, sem julgar, tentar dar conselhos ou cair na tentação de doutrinar. Para simplesmente ouvir, é preciso antes calar. “Entrei no CVV para aprender a ouvir. Só mesmo trabalhando no CVV para entender o quanto faz diferença aprender a escutar. Simplesmente 90% dos seus problemas acabam”, declara a voluntária Klênia, palestrante de cursos de relacionamento interpessoal.

Para ser voluntário do CVV, é preciso passar antes por um espécie de pré-seleção. Depois o voluntário irá fazer dez estágios de três horas uma vez por semana, no período da noite ou nos fins de semana. Em seguida, ele participa de quatro plantões acompanhado e só então será considerado apto a atender como voluntário do CVV. “Ao aprender a ouvir, você aprende a distinguir o seu problema do da outra pessoa. Se alguém chega para você e diz que pôs silicone e que passou a usar 44, geralmente você pergunta o nome do médico e quanto custou a cirurgia. Se você continuar ouvindo a história, você poderá entender que o real motivo da cirurgia era a angústia que ela passou na adolescência porque tinha seios pequenos etc. Mas ninguém faz isso. Só compra a idéia do outro e começa a vender para si e para os outros”, compara.

O CVV oferecer a oportunidade de a pessoa se acalmar, de conversar no telefone, de organizar o o pensamento e encontrar o próprio caminho. “Muitas vezes, o usuário desliga o telefone agradecendo pelos conselhos, sendo que o CVV não deu conselho algum. A pessoa apenas ouviu a si própria”, conclui a voluntária, que vai conduzindo a conversa com palavras como “pode falar”, “eu estou te ouvindo”, “eu compreendo”.

 

 

Como participar

O Centro de Valorização da Vida irá promover, quinta-feira, a palestra gratuita “Curso para novos voluntários”, para os interessados em participar do serviço. O evento pretende esclarecer frequentes dúvidas sobre o funcionamento da organização e os requisitos para se tornar voluntário. A palestra acontece no auditório da rodoviária de Belo Horizonte, na Praça
Rio Branco, 100, segundo piso, a partir das 19h30. Mais informações pelos telefones 141 ou (31) 3334-4111.

 

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: Fátima Oliveira
Tenho interesse em participar desse curso, tem um probleminha , trabalho a noite. Tem em outro horário? | Denuncie |

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