12ºC
21ºC 0mm
  • (5) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Natal da vida » Família de menina que sobreviveu ao acidente no Anel comemora milagre da recuperação Pai e mãe de Laura, a menina que tinha 2% de chances de sobreviver a acidente com carreta no Anel, comemoram a oportunidade de passar mais uma festa com a pequena guerreira

Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas

Publicação: 25/12/2011 06:57 Atualização: 25/12/2011 11:56

Laura Gibosky com a mãe, Priscila, o pai, Ricardo, e o irmão, Yuri: um Natal com espírito de renascimento (Laura Gibosky com a mãe, Priscila, o pai, Ricardo, e o irmão, Yuri: um Natal com espírito de renascimento)
Laura Gibosky com a mãe, Priscila, o pai, Ricardo, e o irmão, Yuri: um Natal com espírito de renascimento
Natal de 2010. Laura Gibosky, de 4 anos, pede ao Papai Noel uma bicicleta sem rodinhas. Já sabe se equilibrar. A estrela dourada no topo da árvore luminosa foi colocada pela menina. De véspera, o brinquedo “surge” amarrado ao balanço. Laura duvida: “Ah… ele não ia amarrar a bicicleta”. Na noite de celebração, com a família reunida em outra casa, Papai Noel, contratado para fazer a alegria da criançada, surpreende a mocinha: “Então, Laura… gostou do presente que deixei no balanço?”. Boquiaberta, num suspiro, a menina linda corre para os braços dos pais. Está certa da existência do bom velhinho. Noite de sonhos, viagem de férias, ano novo e a vida segue. Fim de janeiro, já de volta a Belo Horizonte, em novo passeio – desta vez longe dos pais –, uma carreta bitrem carregada com 37 toneladas de trigo faz estragos na alma. Conduzida por Leonardo Faria Hilário, de 24, de Mundo Novo (MS), arrasta 15 veículos engarrafados no Anel Rodoviário, matando cinco pessoas e ferindo outras 12. Uma delas, Laura Gibosky, levada de helicóptero ao Hospital João XXIII. Pai e mãe recebem a notícia: traumatismo no crânio, no abdômen e na perna esquerda, além de profundo estado de coma, com apenas 2% de chances de sobrevivência. Só um m
ilagre para salvar a menina.

Natal de 2011. Num canto da sala de dois ambientes na casa de número seis, no Bairro Dona Clara, na Região da Pampulha, sob a mesma árvore da estrela dourada, Laura é o presente da vida no colo da mãe, Priscila Gibosky, de 34. O pai, Ricardo de Carvalho, de 45, não esconde a alegria de ter a filha em casa depois da tragédia no Anel. No primeiro semestre, em cinco meses de internação, foram várias as intervenções cirúrgicas. Yuri, o mocinho mais velho da casa, com 10 anos, pausa as estripulias com os amigos para se juntar à família. Lolla, a mascote maltês, faz festa para o registro. Retrato de fé, amor e união, que se renova no mais legítimo espírito do renascimento. Há uma luz a mais a cobrir a família. Laura, de olhos vivos, arrebatadora, parece buscar a lente da câmera. Linda, de batom, vestida na moda, de calça legging fusô preta e camisa vermelha com estampa da Sininho – a Tinkerbell dos dias atuais –, chama a atenção pela força da presença, que afasta o clima do nunca. Impossível ficar indiferente aos olhares da menina, que (ainda) não anda, não fala e pouco se movimenta.

Sentimentos Antes de Laura ganhar a sala, a atmosfera da entrevista de Ricardo e Priscila ao Estado de Minas é uma miscelânea de sentimentos: dor pela morte de Ana Flávia, de 2, prima de Laura, que não sobreviveu ao acidente; revolta por conta da impunidade nas tragédias do trânsito e o descaso com o Anel Rodoviário; tristeza por saber de mocinha tão ativa ter a vida ao avesso; alegria pelo milagre da sobrevivência; esperança pela recuperação, ainda que lenta; e receio por mais uma cirurgia que se aproxima. A família acaba de receber a notícia da necessidade de mais uma intervenção no cérebro da garota. Uma válvula no sistema ventricular. Batalha longa e desgastante pela vida, que não afeta o otimismo de Ricardo e Priscila. Advogados de sucesso, ambos foram obrigados a rever a carreira para dar conta de dar atenção especial às circunstâncias. Apesar de a infraestrutura hospitalar 24 horas em casa ser mantida por convênio médico, os custos descobertos chegam a R$ 6 mil mensais, com alimentação, medicamentos e assistência particular.

De todos os sentimentos percebidos em duas horas de conversa, sobressaem o amor e a esperança. Priscila é mais força. Ricardo é mais sorriso. A mãe respira fundo repetidas vezes e tenta segurar as inquietações de quem demonstra amar além de todas as contas. Não se contém e desaba uma, duas vezes. O pai, desenvolto, chora por vezes. Sorrindo, derrama lágrimas enxutas pelas costas da mão. Explica o sentimento de “quebra no tempo e no espaço”, vivido desde o fatídico 28 de janeiro. “Primeiro, o choque com a quase morte, o vazio. Depois, o porquê. A gente tentava entender… por que com a nossa família? Em seguida, veio a realidade de UTI, com várias tragédias reunidas no mesmo lugar. E a gente unido, lutando contra todas as previsões. Todo dia sabendo que ela podia morrer e, ao mesmo tempo, comemorando um novo dia”, relata.

Conquistas Ao falar de julho, mês em que Laura deixou o hospital, voltou para casa e comemorou 5 anos, o advogado abre ainda mais a envergadura do sorriso e fala de dias melhores: “Depois de tudo, uma fase muito boa de motivos de festa por cada conquista”. Comenta as dificuldades encaradas com determinação por todos os amigos e familiares e considera as incertezas com o futuro trazidas pelo quadro de paralisia cerebral. Priscila reconhece: “Não é fácil. Tem dias que falta força para sair da cama”. No entanto, fortalecida por nova dose de esperança a cada instante, apega-se à fé na recuperação da filha. “A verdade é que ninguém sabe nada do cérebro. As melhoras vêm do próprio cérebro. Os médicos acreditam que, como a Laura já tinha registros quando ocorreu o acidente, a recuperação seja possível.” Longe dos casados comuns, pai e mãe exibem cumplicidade admirável durante toda a conversa. Fazem-se soma e equilíbrio: ele fé, ela comunhão.

Há 17 anos juntos, Ricardo e Priscila fazem dos momentos mais difíceis razão para crescer. Mão e luva, se amparam para superar a dureza da síndrome pós-traumática. Demonstram olhar diferenciado sobre os dramas dos outros e se apegam às pequenas conquistas diárias de Laura. “Em todas as famílias, você vai vendo que cada um tem lá as suas tragédias”, diz Ricardo, que, daqui para a frente, só pensa na melhor maneira de trazer Laura para a própria vida como ela é, sem pensar apenas no futuro, vivendo o presente com a maior integridade possível. “Quero ter alegria. Parece que a sociedade, no fundo, quer ver você triste. Algumas pessoas se espantam com o mínimo de alegria preservada em você”, lamenta o professor. Muito emocionado, desabafa: “Quero viver o hoje da minha filha. Não quero mais viver de passado e com medo de não tê-la mais”.

Priscila vai até o andar de cima buscar Laura. No quintal, Yuri é pura energia com os amigos. “Filho, vamos fazer uma foto!”, convoca o pai. O garoto reclama. Natural. Não quer deixar a farra com os vizinhos. Ali, é tarde de água boa sob a chuva fina. Com a chegada de Laura na sala, a cadela maltês faz festa. A imagem da mocinha na escadaria, no colo de Priscila, parece pintura. Mãe e filha num cuidado de dar gosto. A advogada, funcionária pública licenciada, tem mais vida e luz na expressão de encanto. Deixa de lado qualquer resquício do que é lúgubre para dar espaço ao que é somente beleza. É preciso repetir: Laura é linda. Olhos profundos cheios de vida por viver. Pele bem cuidada que faz mínimas as cicatrizes do corpo. Boca vermelha, entreaberta, de quem sabe agradecer em silêncio. “No final, peça para que todo mundo continue orando por ela”, apela o coração da mãe. Do lado de fora, a bicicletinha sem rodinhas ainda espera por Laura, milagre da vida.

A 115km/h, carreta arrastou 14 veículos

Era por volta das 18h40 de 28 de janeiro deste ano quando Leonardo Faria Hilário (foto), de 24 anos, motorista de uma carreta bitrem Volvo, de Mundo Novo (MS), perdeu o controle da direção do veículo, carregado com 37 toneladas de trigo, bateu em um caminhão-baú e arrastou 14 veículos parados no trânsito no km 6 do Anel Rodoviário, no Bairro Betânia, Região Oeste de Belo Horizonte.

Cinco pessoas morreram e 12 ficaram feridas, entre elas Laura Gibosky. A perícia da Polícia Civil apontou que o condutor trafegava a 115 km/h. Depois de passar sob o Viaduto da Via do Minério, em alta velocidade, ele se deparou com vários carros à sua frente retidos em um congestionamento provocado pelo afunilamento de pista debaixo de um viaduto da linha férrea.

O motorista foi preso e na noite de 15 de fevereiro foi solto, depois que o juiz do 1º Tribunal do Júri do Fórum Lafayette, de Belo Horizonte, Guilherme Queiroz Lacerda, concedeu liberdade provisória ao acusado. Leonardo havia sido autuado em flagrante um dia depois do acidente e ficou detido no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional, no Bairro Gameleira. Ele aguarda julgamento em liberdade.

Esta matéria tem: (5) comentários

Autor: Marcelo Quintao E Silva
O nosso prefeito andou falando em decretar estado de calamidade pública por causa do anel rodoviário. Pois a verdadeira calamidade continua lá, diante dos nossos olhos, onde precisamos passar todos os dias para trabalhar e dar conta de pagar os impostos. | Denuncie |

Autor: sandra camelo
Uma das mais lindas reportagens da Uai, durante esse ano de 2011. Luz, e paz a todas essas famílias,especialmente a esse motorista que certamente também teve lesada parte de sua vida. | Denuncie |

Autor: Marcia Lopes Sila
Reportagem perfeita, desejo que menino Jesus renasça todos os dias na vida de Laura e da sua família, que não percam a fé e continuem lutando junto da pequena, com esta coragem, força e alegria por um dia cada vez melhor!!! | Denuncie |

Autor: Andreza Campos
Linda reportagem!! Parabéns ao reporter, que diante de toda tragédia e tristeza da história, soube trazer uma bela e emocionante mensagem de fé e esperança. Força a família, espero que Deus continue a conceder milagres na vida da pequena Laura. | Denuncie |

Autor: ALESSANDRO RIBEIRO
Essa novela do Anel só vai encerrar o dia que alguém da família ou o próprio prefeito ou algum sujeito do Alto escalão , passar pelo que essa família passou. Aí sim este bando de SAFADOS, CRIMINOSOS vao cumprir seu dever . Vamos nos lembrar destes fatos nas próximas eleiçoes Brasil!!!!!!!!!!!! | Denuncie |

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »

Envie sua história efaça parte da rede de conteúdo do grupo Diários Associados.
Clique aqui e envie seu vídeo, foto, podcast ou crie seu blog. Manifeste seu mundo.