(none) || (none)
UAI
Publicidade

Estado de Minas

Ultrassom em profetas revela DNA de Aleijadinho

Grupo de pesquisadores mostra detalhes das 12 peças esculpidas. Hoje à noite começa uma nova etapa do processo de digitalização de parte do patrimônio


postado em 21/11/2011 06:56 / atualizado em 21/11/2011 06:56

O estudo identificou que as duas partes da escultura do profeta Óseas não se tocam, a não ser pelo eixo central(foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
O estudo identificou que as duas partes da escultura do profeta Óseas não se tocam, a não ser pelo eixo central (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)

Congonhas – O processo de digitalização em três dimensões (3D) dos 12 profetas esculpidos, entre 1800 e 1805, por Antonio Francisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, para o adro do Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, já permite revelações de detalhes das peças, os quais são desconhecidos da maioria dos historiadores e quase imperceptíveis a olho nu. Na escultura em pedra-sabão de Daniel, localizada do lado direito da igreja, há um orifício, pouco mais grosso do que um dedo médio, que funcionaria como dreno, impedindo acúmulo de água de chuva entre a cintura e o pergaminho. Outra descoberta, desta vez no profeta Oséas, está na divisão milimétrica entre os blocos superior e inferior do corpo: as duas partes não se tocam, a não ser no eixo central. O trabalho, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) do Brasil, está sendo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa em Visão Computacional, Computação Gráfica e Processamento de Imagem (Imago), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Na noite de hoje, com horário previsto para as 19h, começa uma nova etapa do processo de digitalização dos profetas integrantes do conjunto reconhecido como patrimônio cultural mundial, desde 1985, pela Unesco. Até agora, num processo demorado, manual e que demandou montagem de andaimes e plataformas, foram escaneados cinco deles. No novo sistema, em parceria com a Comau do Brasil, com sede em Betim e especializada em automação e gestão de ativos industriais, será usado um robô, apelidado de Profetinha, o qual terá, na extremidade, uma máquina scanner a laser, operada pelo professor e doutor na área de computação Luciano Silva, do Imago, referência internacional no setor, e que vai gerar as imagens em 3D. “Esses dados são importantes, pois, quanto mais soubermos sobre a morfologia das peças, melhor”, acredita Luciomar Sebastião de Jesus, morador de Congonhas e há anos dedicado aos estudos sobre os profetas.

Na tarde de ontem, Luciano e sua equipe, os estudantes Leonardo Gomes, de doutorado, e Jong Wan Silva, de mestrado, recém-chegados de Curitiba (PR), estiveram no adro da basílica, mostrando o trabalho, que recomeçará hoje, desta vez com apoio de um equipamento de última geração – o robô NJ 110, cedido gratuitamente pela Comau. A expectativa é de que o serviço termine até sábado, sendo feito apenas à noite, pois a iluminação artificial, ao contrário da solar, incide de forma homogênea sobre a escultura e permite uniformidade na coleta das imagens. “Para cada profeta são feitas 250 imagens e antes eram necessários dois dias para cada um. Agora, pretendemos fazer os sete, que estão em difícil acesso, e por isso precisamos do robô, em no máximo cinco dias. O esforço físico também era grande, pois tinha que trabalhar carregando, durante horas seguidas, a máquina e tripé, algo em torno de 10kg”, conta Luciano. “A mobilidade, a segurança e a definição de imagens são os ganhos maiores. A máquina nem encosta nas peças”, afirma o professor.

Atento a cada detalhe, Luciano chamou a atenção para as centenas de marcas existentes na superfície dos profetas, e que se tornam mais evidentes no sistema 3D. Num canto, ele aponta rabiscos e atos de vandalismo e, em outros, nomes de visitantes no distante ano de 1923. “Temos uma ferramenta tecnológica muito preciosa para ajudar na preservação de um bem cultural como o de Congonhas. Fazemos o mapeamento das peças, conhecendo o sistema construtivo das esculturas e fazendo descobertas. No caso do profeta Daniel, a água acumulada poderia ser até depósito de dengue”, brinca.

Acompanhando a visita ao adro, a arquiteta e oficial de projeto do setor de cultura da Unesco, Patrícia Reis disse que a digitalização significa uma medida de segurança e conservação preventiva dos monumentos. Ela explica que a atividade do Imago vai gerar conhecimento e fará parte do Memorial Congonhas – Centro de Estudos da Pedra e do Barroco, em construção no Centro Histórico de Congonhas. Esse projeto é iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), implementado em parceria com a prefeitura local e Unesco do Brasil. Orçada em R$ 330 mil, a digitalização em 3D e financiada pela Lei Rouanet. Para discutir a aplicação de tecnologia de ponta no acervo, informa Patrícia, haverá uma mesa-redonda (Tecnologia 3D e robótica na preservação do patrimônio) aberta ao público na terça-feira, às 14h, na Escola Municipal Fortunata de Freitas Junqueira, que fica na Praça Santo Afonso, 90, em Congonhas. “É fundamental destacar que os profetas estão num espaço de devoção dos moradores de Congonhas e estão sendo tomados todos os cuidados”, diz a arquiteta.

Conforme a Unesco, esta é a primeira vez no mundo que um robô industrial próprio de linhas de produção, como a de automóveis, será usado em um projeto de preservação de obras de arte. A tecnologia de automação permitirá maior precisão e acessibilidade no processo de captura das imagens dos profetas, maior rapidez no deslocamento do equipamento usado e, principalmente, maior segurança para o monumento. O robô chegou a Congonhas no fim da tarde de sexta-feira e o primeiro teste foi mostrado com exclusividade pelo Estado de Minas.

O trabalho corre paralelo a outro projeto importante desenvolvido pela Unesco, que é a produção de réplicas das esculturas – dos cinco profetas escaneados manualmente, dois já entraram na “linha de produção” e ganharam réplicas. O primeiro foi Joel, localizado na fila do alto, no lado direito da basílica, que foi duplamente “clonado” em fibra de vidro, pó de pedra e resina, no tom cinza-escuro, e outro em gesso, e o segundo Jonas. Cada um demandou quatro meses entre a fase de escaneamento e digitalização, também a cargo da equipe de Luciano Silva. A reprodução de três dos profetas já tem recursos assegurados, via lei federal de incentivo à cultura, e há autorização para captação de verbas para a execução das demais réplicas.

A produção de réplicas, segundo a Unesco, não se relaciona à substituição das esculturas originais, prejudicadas e ameaçadas pelo tempo e poeira de mineração, pelas cópias. A intenção é que, se um dia ocorrer algum dano a um dos profetas, num ataque de vandalismo, mesmo que haja segurança no local, haverá condições de fazer a restauração sem problemas e com total fidelidade. Além disso, a escultura em fibra de vidro poderá participar de exposições em qualquer lugar. “Com o sistema 3D, que mantém a memória das peças e todas as suas características, as peças poderão ser reproduzidas em qualquer tamanho”, adianta o professor.

MEMORIAL

O Memorial Congonhas está localizado em uma área de 3,4 mil metros quadrados próxima ao santuário, com previsão de conclusão em junho de 2012. O local vai reunir uma exposição permanente com informações sobre o conjunto arquitetônico e escultórico, em seus aspectos históricos, artísticos e religiosos; o Centro de Estudos da Pedra, que funcionará como uma rede de articulação de instituições de pesquisa, ensino e extensão, para a difusão do conhecimento sobre as rochas, monitorar a integridade das esculturas do santuário e aprimorar as técnicas de conservação e restauração; e um Centro de Referência do Barroco, que terá área de pesquisa e de documentação e uma biblioteca especializada.

TECNOLOGIA E PATRIMÔNIO

BENEFÍCIOS

A tecnologia de digitalização em 3D possibilitará, entre outros ganhos, a visualização dos profetas de Aleijadinho em meio digital, no Memorial Congonhas ou pela internet; uso na preservação e restauro das obras, monitoramento do estado de conservação das peças diante da ação do tempo, estudo minucioso da obra e a compreensão das técnicas usadas pelo artista, além da produção de réplicas com grande precisão, em casos de necessidade.

PROCESSO DE PRESERVAÇÃO DIGITAL

1) Captura de diversas imagens da escultura, via sistema de aquisição de imagens 2D e 3D, que usa um scanner a laser e uma câmera de alta resolução.

2) Integração de imagens capturadas para reconstrução da geometria do objeto.

3)Geração do modelo final em 3D para ser visualizado em ambiente virtual.

Já foram digitalizados os profetas Joel, Daniel, Jonas, Ezequiel e Oséas.

Na etapa que começa hoje, será usado um manipulador telescópico, equipamento próprio para manipulação e içamento de cargas. Posicionado em frente ao adro, ele vai erguer o robô até os profetas.

Os dados coletados serão enviados a um computador que reúne as informações e imagens captadas e vai gerar uma cópia digital das esculturas.

SEGURANÇA

Para garantir a integridade das obras, sensores a laser foram desenvolvidos para impedir que o robô ultrapasse um limite de segurança e mantenha a mesma distância dos profetas. O processo será executado à noite para garantir a luminosidade uniforme na coleta das imagens.

FONTE: UNESCO


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)