Bate-estaca ameaça casarão tombado em BH

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postado em 05/10/2010 06:43 / atualizado em 05/10/2010 08:49

Pedro Ferreira , Gustavo Werneck

Beto Novaes/EM/D.A Press

Ameaça ao patrimônio cultural e arquitetônico de Belo Horizonte. Um casarão construído em 1896, um ano antes da inauguração da capital, corre sério risco de desabamento. Segundo o dono do imóvel da Rua Paraíba, 866, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul, arquiteto Marcos Moisés, as estruturas estão abaladas pelo bate-estaca das obras de um luxuoso prédio residencial, de 23 andares, que está sendo erguido no terreno dos fundos, na Rua Pernambuco. Tombado desde 2000 pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal, o imponente casarão, de arquitetura eclética, preserva a originalidade da sua arquitetura. O problema foi levado à prefeitura, que, em maio, pediu um laudo à Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap).

O dono do imóvel recorreu também ao Ministério Público Estadual (MPE) e, em 27 de setembro, houve audiência entre as partes. A Promotoria de Justiça Especializada na Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural deu prazo de 15 dias para a construtora apresentar relatório que avalie a possibilidade de uso de outra técnica na execução das fundações do novo prédio, para evitar vibrações. Para Marcos Moisés, o bate-estaca é ultrapassado e só é usado por ser mais barato. O equipamento pode comprometer também estruturas de outras três casas tombadas no entorno da obra.

O arquiteto conta que as trepidações foram sentidas na primeira fase da preparação do solo para a construção do edifício. Ele afirma que algumas telhas caíram e houve rebaixamento do assoalho, feito em peroba, na sala e num quarto. Além disso, pequenas fissuras surgiram nas paredes. Com medo de que algo de pior ocorra, o arquiteto pôs faixas na rua e na fachada do imóvel. “Esta casa pede socorro”, diz a mensagem, que chamou a atenção de um grupo de alunos de arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), disposto a estudar o casarão. “Vamos fazer um trabalho mostrando a interação do imóvel com as pessoas que passam pela rua. Será a nossa contribuição para ajudar a preservar este patrimônio histórico da cidade”, disse a estudante Bruna Costa, de 18 anos, que teve permissão do dono para levar a ideia adiante.

Marcos Moisés coleciona vários livros sobre a história de Belo Horizonte. Em 1896, segundo ele, a Comissão Construtora da Nova Capital fez 200 casas no Bairro Funcionários e em outras regiões da cidade, para abrigar servidores públicos transferidos de Ouro Preto. E, segundo ele, restam apenas 13. Conforme a diretoria de Patrimônio Histórico Municipal/Fundação Municipal de Cultura, as moradias, que se encontram em bom estado de conservação, sem problemas nas fundações e estrutura, e servem ao seu objetivo inicial (residencial), já estavam prontas quando a cidade foi inaugurada. A diretora de Patrimônio Histórico Municipal, Michele Arroyo, diz que a prefeitura fez inventário dos bens tombados no perímetro da Avenida da Contorno e faz companhamento da situação de cada um.

O arquiteto conta que, além da ameaça ao casarão, sua família sofre com o barulho do bate-estaca e com a poeira. “Vou entrar com pedido de tombamento federal do imóvel e também na Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco)”, afirma. A mulher dele, a psicóloga Daniela Freitas, diz que a propriedade está isenta de impostos municipais por se tratar de bem tombado, mas que a família não recebe ajuda financeira para a manutenção do imóvel. “Não podemos fazer qualquer intervenção sem autorização do órgão do patrimônio municipal”, acrescenta.

A casa, com paredes de tijolos maciços e com fundação rasa de pedra, foi erguida para abrigar a família do coronel Jacinto Freire de Andrade, então comandante da polícia mineira. O jardim lateral da entrada chama a atenção pelos desenhos geométricos e espécies de plantas usadas no tempo da inauguração, como camélias e roseiras. A varanda da entrada principal em pinho-de-riga, madeira em extinção, segundo Daniela, tem piso em ladrilhos hidráulicos.

Dentro do imóvel, com seu pé-direito de quase quatro metros, a sensação é de uma volta ao passado. O mobiliário não é o original, “mas antigo”, de acordo com o dono. O quintal surpreende pelo verde preservado em meio à selva de pedra, com pitangueirass, ameixeiras, bananeiras e um frondoso flamboyant. Outro detalhe que atrai olhares: a calçada em frente à entrada da casa é revestida de pedras, decoração original do século 19.

Audiência

Como a diretoria de Patrimônio Histórico Municipal/Fundação Municipal de Cultura não tem profissionais da área de engenharia de estrutura, encaminhou o pedido de providências do arquiteto Marcos Moisés à diretoria de projetos da Sudecap, para que um engenheiro calculista vistorie a casa. O medo do arquiteto é de que a construtora inicie, a qualquer momento, a segunda etapa das fundações do prédio. Na obra, um engenheiro que se identificou apenas por Felipe, informou que está sendo elaborado um laudo e que a empresa está dentro do prazo de 15 dias estipulado pelo MPE para concluí-lo.

Na audiência do MPE, a diretora de projetos da Sudecap, Maria Luísa Ferreira Belo Moncorvo, ressaltou que há outras técnicas construtivas que não usam bate-estaca. Mas deixou claro que a troca do método precisa ser avaliada por especialistas. Bruno Torres Pichara Sily, engenheiro da Sudecap, destaca a necessidade de um estudo sobre impactos que podem ser causados pelo equipamento, “já que, hipoteticamente, de acordo com os fatores envolvidos, as vibrações podem gerar tensões no solo e comprometer imóveis”.

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