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ENTREVISTA/FLÁVIO GIKOVATE

Mudar é preciso

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postado em 08/09/2014 18:28 / atualizado em 08/09/2014 18:56

Stefan Patay/Divulgação
Todo mundo tem seus medos, suas manias, suas fraquezas. Muitas destas pessoas são infelizes e querem até mudar para uma vida de maior serenidade, de maior harmonia. O problema é o "como mudar". O psiquiatra Flávio Gikovate afirma que isso é possível desde que a pessoa tenha consciência e disposição para dar um passo adiante. Em seu novo livro, Mudar, ele reconhece que isso não é fácil em uma sociedade como a nossa, que cobra perfeição, posse de bens materiais como sinal de felicidade, um padrão estético de magreza e bom desempenho sexual. Mas ele garante: ser feliz é possível.


Como mudar?
O "como" é o mais difícil. Apesar de a psicologia vender a ideia de que isso sempre é possível, os tratamentos nem sempre são eficazes. O que é divulgado é só um pedaço da verdade. Mudar exige muito trabalho, muito empenho da própria pessoa e é muito difícil. O terapeuta é apenas o facilitador; é como o professor de ginástica para quem faz exercício físico. Ele indica o caminho, mas quem faz o exercício é o aluno. Mudar é um processo que envolve muitos recursos, alguns até milenares – como o relaxamento –, que estão crescendo de importância, mas costumam ser muito negligenciados pelo pessoal mais dogmático da psicologia. Mudar é um procedimento estratégico que passa por um monte de caminhos, todos difíceis. Muitos remédios até ajudam, acalmando a pessoa e facilitando para que ela possa refletir com maior profundidade. Mas a técnica a ser utilizada depende muito de cada profissional e também do apoio do paciente, que pode contribuir muito, se realmente quiser mudar.

Qual o sinal de que é preciso mudar?
É quando existe algum sofrimento, algum desgosto que o indivíduo reconhece como limitador de sua rotina diária. Andar de avião atrapalha a qualidade de vida; o medo de dirigir limita os deslocamentos; aprender a falar em público pode ser importante para determinadas pessoas. Se elas não conseguem é porque há um limitador.

Mas, se mudar é algo tão difícil, como romper a barreira?
Abrindo mão de algum benefício imediato, como cigarro, bebida. Ultrapassar essa barreira e mudar é um indicador de maturidade.

Vivemos em uma sociedade que cobra perfeição, posse de bens materiais, bom desempenho sexual e também um padrão estético de magreza. A pressão no sentido contrário da mudança é muito grande? Como lidar com isso?
Se a gente não tomar cuidado, acaba incorporando essas pressões como se fossem exigências nossas, formando o que eu chamo de "consciência oficial". O que ocorre é que as pessoas ficam prestando obediência a valores que não são necessariamente os dela. Passam a fazer isso por pressão cultural, pela publicidade, pelas redes sociais, pela televisão, que influem na formação de crenças e conceitos, que, muitas vezes, as pessoas incorporam sem muita reflexão. Por isso, é importante que as pessoas ganhem autonomia para se insurgirem contra algumas dessas regras. A terrível submissão ao padrão estético oficial faz com que se tenha uma série de comportamentos de intimidação diante de outras pessoas, em função do fato de não se sentirem adequadas do ponto de vista do padrão estético: as pessoas se retraem, tornam-se tímidas e passam a ter dificuldades de relacionamento. O mesmo pode ocorrer com relação à questão financeira. Muitas pessoas entendem que é fundamental ter uma quantidade muito grande de bens materiais visíveis. É muito tolo acreditar que ter a posse de bens é a única forma de ter espaço no ambiente em que se vive. Isso acontece mais nos países onde a desigualdade social é muito grande. As pessoas se esforçam muito para ter acesso aos bens materiais que indicam status como forma de deixar claro que são parte da camada superior da sociedade. É isso o que leva muitas pessoas a fazerem sacrifícios muito grandes para comprar uma bolsa de uma marca que seja símbolo de status. Mas é um status falso, adquirido com muito sacrifício, que só serve para impressionar gente muito tola. Isso é o que eu chamo de felicidade aristocrática. O exibicionismo de fama, fortuna e beleza é composto por variáveis que só servem para quem não tem qualidade de vida.

Pelo atendimento que o senhor presta em consultório, quem está ganhando a disputa?
Por enquanto ninguém está bem. Muitas vezes, quem está bem fisicamente e é rico acaba tendo outros problemas e busca, apesar de toda a bonança, formas de compensar seus complexos e sentimentos de inferioridade adquiridos na adolescência. Mas sou otimista quanto ao futuro. O que vivemos hoje é consequência de avanços importantes que ocorreram na segunda metade do século 20 e que não fomos ainda capazes de digerir direito, como a emancipação feminina. Esse é um fato novíssimo. As mulheres ganharam liberdade sexual e independência financeira. Hoje, elas são maioria nas universidades. Isso vai mudar a qualidade da atividade sexual. Teremos um amor de maior qualidade. Vivemos um momento de transição, pois ainda não absorvemos as mudanças, que são dramáticas, pois envolvem instabilidade nas relações frugais e uma diminuição da influência da família na formação das crianças, que, antes, iam para a escola só aos 5 anos e só conviviam com a família e os vizinhos próximos. Hoje, a situação é muito diferente. As crianças de 3 anos sabem de muito mais coisas que as da mesma idade sabiam antigamente. Há uma variedade grande de novidades. Vivemos um mundo mais unissex do que antes, com muito mais influência do meio. Tudo isso vai criar as condições de que precisamos para que as pessoas avancem mais no autoconhecimento e, aos poucos, abandonem o domínio da futilidade.

É possível ser feliz? O que, verdadeiramente, traz felicidade?
Sim, é possível. Dentro dos conceitos humanos, é possível estar dentro da serenidade, da harmonia. Haverá momentos mais tristes, sofridos, porque aqui não é nenhuma Disneylândia, mas haverá momentos mais emocionantes. No conjunto, haverá uma média de qualidade de vida desde que se respeitem algumas práticas milenares de a gente só se ocupar de coisas que só dependem da gente. Diminua a importância da opinião dos outros sobre você. O importante é buscar a serenidade, em vez da emoção permanente, da excitação permanente, sensações que até as crianças, hoje, buscam cada vez mais. O resultado disso é que elas são muito excitadas, hiperativas e dormem menos.

As redes sociais não teriam uma parcela de culpa nisso?
Nas redes sociais, as pessoas buscam reconhecimento, mas podem encontrar, também, vaias, grosserias. O mundo virtual repete tudo o que há na vida real, só que com mais cara de pau. Muitas vezes, as pessoas descobrem o sentimento pela via virtual. Nela, as pessoas também se comunicam e escrevem, hoje, muito mais do que escreviam antes. É uma via de comunicação absolutamente legítima, que muitas vezes pode ser até melhor, porque nas baladas as pessoas estão bêbadas de madrugada. O exibicionismo que aparece nas redes sociais também existe no mundo real. Nele, as pessoas passam horas no espelho apenas para tirar uma foto. É a mesma coisa do mundo virtual. Algumas coisas são ridículas, como tirar foto do prato que se está comendo, mas, de resto, é tudo igual. As redes sociais são importantes para buscar o relacionamento, a comunicação. Vejo problemas no abuso, que ocorre, por exemplo, quando as pessoas não conseguem ficar 10 minutos sem acesso a uma informação. Isso sempre existiu, mas ficou um pouco acelerado nas redes sociais. Mas acho que em algum tempo o mundo real e o mundo virtual vão se encontrar.

Nelson Almeida/AFP

Quais são as grandes mudanças comportamentais que estão por vir?
As mudanças individuais, obviamente, têm a ver com as mudanças sociais. Mudar é difícil, individualmente, mas também socialmente. Os grupos são muito mais lentos que os indivíduos. Para os próximos anos, acho que vai haver uma diminuição de tudo que está dando errado: superexposição de sexo deve produzir um cansaço nos moços, o que já acontece hoje. Eles estão muito menos vorazes. Antigamente, não podiam ver uma menina que iam correndo atrás. Hoje, eles passam uma semana em uma casa de campo e não acontece nada. A fissura diminui quando há fartura. Os homens, hoje, estão muito mais calmos quando se trata de sexo. Outro aspecto importante é a da independência econômica das mulheres, que reduz, no outro lado, a vontade do homem de impressioná-las no modo antigo, com carros, luxo. Hoje, um carro novo, a mulher pode comprar também. Com isso, os homens vão ter que descobrir outras maneiras de fazer isso. Talvez venham a prevalecer outras virtudes de caráter. Acho também que o amor vai ganhar força e o sexo vai perder força, da mesma forma que a preocupação com o luxo e a riqueza. Muito mais do que se pensa, o mundo caminha para uma direção legal. Se eu estiver errado, estaremos caminhando para uma catástrofe. Aí será o fim.

No livro, você descreve um estágio do processo de mudança que ocorre quando as pessoas estão quase chegando lá, que é o medo da felicidade. Como superar essa etapa, que é crucial no processo?
Trata-se de um obstáculo estranho e inesperado que parece demonstrar que existem em nós tanto forças construtivas quanto autodestrutivas, algo para além do princípio do prazer. Isso acontece, por exemplo, quando uma pessoa gorda passa a fazer regime e, quando está próximo de atingir seu objetivo, e, portanto, quando estaria próximo à felicidade, abandona esse mecanismo. O fundamental é tomar consciência da existência desse mecanismo. A psicologia não dispõe, pelo menos até o momento, de meios de nos livrar do medo da felicidade. Creio que tudo que não tem solução deve ser pensado em termos de administração. Administrar é ter consciência de que carregamos mecanismos que gostaríamos de não possuir e não negligenciar sua existência. É preciso estar alerta o tempo todo. Ser feliz não é pecado.

O Brasil vive um momento de mudanças muito expressivas, principalmente no plano social. Transpondo suas ideias para o ambiente macro, as pessoas estão preparadas para essas mudanças? A elite está preparada para perder? As pessoas que pertenciam às classes D e E também passaram por mudanças pelas quais talvez não esperassem. Elas estavam preparadas para isso?
A elite mudou muito pouco. Ela continua exibida, muito pouco sofisticada e apegada a valores tradicionais de riqueza, luxo, fama e beleza, conseguida, muitas vezes, à base de cirurgia plástica. Essas pessoas não são felizes. Muitas delas têm helicóptero, que só serve para andar mais depressa, para evitar trânsito. Lutar para ter isso não vale a pena. No outro lado, os ganhos de quem migrou para a classe C foram tão pouquinhos que ainda não deu para eles ficarem metidos. Eles compraram seus carros, puderam usufruir de um nível de consumo um pouco maior, principalmente para os filhos. Mas não tiveram um grande aprimoramento cultural. Os filhos talvez tenham tido mais. De forma que, no geral, todas essas mudanças não trouxeram grandes alterações de comportamento.
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