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Simples assim

Existe uma crença de que o dinheiro e a posse de bens é que trazem felicidade. Mas o movimento denominado simplicidade voluntária quer provar o contrário. Que é possível ser feliz sem acumular bens

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postado em 26/07/2014 06:00 / atualizado em 23/07/2014 15:22

Jorge Macedo - especial para o EM

Marcelo Freitas

Reprodução/Internet

No verão de 1990, o jovem americano Christopher Johnson McCandless, de 24 anos, logo depois de formar-se na universidade, mudou de nome, doou a uma instituição de caridade os US$ 24 mil que tinha na poupança, abandonou o carro e a maioria de seus pertences e saiu pelo mundo em uma aventura totalmente à margem da sociedade de consumo e em contato mais próximo com a natureza. Em agosto de 1994, ele foi encontrado morto em um ônibus abandonado em uma região inóspita do Alasca. A trágica história de Christopher McCandles foi contada no livro Na natureza selvagem, escrito pelo jornalista John Krakauer, e virou filme, dirigido por Sean Penn. McCandless pode ser definido como um adepto radical da filosofia da simplicidade voluntária, cujo eixo central é a negação do consumismo. O jovem americano foi extremamente radical ao colocar em prática a ideia de que é possível viver à margem do consumismo. Não é preciso arriscar a vida para praticar a simplicidade voluntária. Em todo o mundo, cresce, principalmente entre os jovens, a o pensamento de que a felicidade não está, necessariamente, associada à ideia de que é preciso ter o último modelo de celular, trocar de carro a cada ano ou ter um guarda-roupa repleto de peças – na linha de que cada modelo serve para uma ocasião específica. A palavra que melhor define o que é a simplicidade voluntária é desapego.

Foi o que fez Heloisa Andrade de Paula. Ela não adotou uma solução radical como McCandless. Mudou aos poucos. Tudo começou em 2004. Ela morava nos Estados Unidos, onde fazia pós-graduação e se via cercada de oportunidades para comprar sempre mais. "Tinha uma ponta de estoque de roupas perto de casa e eu sempre passava e comprava uma camiseta, um agasalho, sapatos, só por distração. Também comprava muitos livros e o que todo mundo tinha na época: câmera digital, computador, impressora, webcam e aparelho de som." O primeiro contato com a simplicidade voluntária se deu por meio de livros. Foi a partir daí que começou a mudança de hábitos. Deixou de comprar eletrônicos. Hoje só tem o laptop e o celular. A televisão quebrou e não comprou outra. Doou várias roupas que não usava mais, entrou para um site de troca de livros e ficou só com os de que realmente gosta. Parou de usar a ida ao shopping ou a lojas como lazer e começou a prestar atenção ao que entra em sua casa, mesmo que sob a forma de brindes. Ela afirma que a transição de um estilo de vida ao outro foi feita de forma gradual, sem radicalismo. "E fui passando de um estilo ao outro devagar." Ao voltar dos Estados Unidos, em 2007, trouxe a "mudança" em duas malas e duas caixas, que despachou por navio. Nelas estavam apenas roupas, fotos, livros e CDs. Ela afirma que, se fosse hoje, traria menos coisas. Heloisa não se arrepende da mudança que fez. Ela mora em um apartamento de 30 metros quadrados, não tem carro, usa o metrô para ir e voltar do trabalho e se considera feliz com a vida que tem. "O maior ganho que eu tive é ver que eu escolhi tudo o que tenho e tenho poucos supérfluos. Minha vida ficou mais organizada e mais leve", afirma.

A preocupação com um estilo de vida menos centrado na posse de bens não é uma ideia nova. No passado mais distante, pensadores como Sócrates e Santo Agostinho já a defendiam. Mais recentemente, no século 19, o americano Henry David Thoreau decidiu colocá-la em prática. Em julho de 1845, desgostoso com o crescente mercantilismo da sociedade americana, ele deixou Concord, Massachusetts, sua cidade natal, para instalar-se à beira do Lago Walden, onde, por dois anos, dois meses e dois dias, viveu suprindo suas próprias necessidades. Sua experiência foi descrita no livro Walden ou a vida nos bosques, até hoje reeditado, tal a atualidade do que defende. No século 20, o psicanalista alemão Erich Fromm publicou Ter ou ser, livro no qual analisa as duas filosóficas de vida, resumidas por ele em uma única frase: "A grande diferença entre ser e ter é a que se estabelece entre uma sociedade centrada sobre as pessoas e uma sociedade centrada sobre as coisas". Nos agitados anos 1960, os hippies foram os que melhor encarnaram o espírito de um mundo não baseado na posse de bens, mas sim nos princípios da paz e do amor. Os hippies duraram não mais que uma década. Sucumbiram diante da força da sociedade do consumo.

Os hippies do século 21 trabalham, têm casa e família, não são cabeludos e, ainda por cima, apreciam muitos dos prazeres cultuados pelos que têm a posse de bens como um algo de muito valor. Em geral, em vez de enormes apartamentos ou casas, preferem viver em espaços menores. Tanto que em São Paulo já são comercializados apartamentos com pouco mais de 20 metros quadrados. Outro empurrão foi dado pelo avanço da tecnologia digital. Em vez de uma estante repleta de CDs, um bom computador; no lugar de uma estante de livros, um kindle, como é conhecido o leitor digital de livros da Amazon. Na Europa, o compartilhamento de carros já preocupa a indústria automobilística. Seus executivos estão cientes de que, cada vez mais, a posse de um automóvel deixa de ser prioridade para a nova geração, que prefere o transporte público ou o compartilhamento de carros, um serviço no qual a pessoa paga pelo tempo de uso, que é dividido com outros usuários. No Brasil, onde o transporte público não tem a mesma capilaridade que na Europa, o compartilhamento de automóveis está ainda engatinhando, mas já é oferecido em São Paulo, onde, aos poucos, não como uma febre ou modismo passageiro, a filosofia da simplicidade voluntária vai encontrando novos adeptos, como a jornalista Maria da Conceição Vieira, de Belo Horizonte.

Ela optou por não ter televisão nem automóvel, mas não abre mão de alguns itens de conforto da vida moderna, como a máquina de lavar roupas, geladeira e computador. Recentemente, mudou-se para um apartamento cujo valor do condomínio é menos da metade do valor do condomínio do imóvel no qual morava antes. Com a mudança, ela passou a poder ir e voltar do trabalho de bicicleta, pois a ligação entre o local onde mora e o trabalho é coberta por uma ciclovia. Seus gastos estão direcionados para viagens e cultura. Recentemente, nas férias, passou 20 dias no Pará. Para ela, a vida baseada no consumo afasta as pessoas umas das outras. Com o estilo de vida que adotou, Conceição Vieira diz que desenvolveu a sensibilidade para ver as pessoas segundo outros valores, de maior profundidade, que não sua aparência exterior. "A vida é mais do que isso." Conceição Vieira afirma também que a simplicidade é perfeitamente compatível com a vida nas cidades, não sendo necessário fazer voto de pobreza nem buscar o retorno ao mundo da natureza selvagem, como na história de Christopher Johnson McCandless. Trata-se, segundo ela, de algo que requer uma reflexão diária para descobrir o que é e o que não é necessário para uma vida simples, mas sem abrir mão do conforto.

Os passos da simplicidade voluntária

• Reflita sobre seus hábitos de consumo
Uma vida simples requer um equilíbrio, um meio-termo, entre os extremos da pobreza e do excesso. Essa é uma tarefa estritamente pessoal. É preciso diferenciar necessidades - bens essenciais à sobrevivência e crescimento - dos desejos ou vontades - bens materiais supérfluos, que apenas gratificam desejos psicológicos - e encontrar aquilo que é suficiente para a manutenção da vida.

• Viva com um propósito mais definido
Adotar um estilo de vida simples é viver com mais consciência, com mais intenção e um propósito definido. É evitar distrações desnecessárias e buscar uma vida de equilíbrio, de forma contínua, dinâmica e real. A vida simples não se confunde com viver uma vida de pobreza, que é prejudicial e degradante. Tampouco significa abrir mão do progresso, uma vez que busca tirar proveito das tecnologias compatíveis com um modo de vida sustentável. Também não significa um retorno ao ambiente bucólico, uma vez que é possível viver uma vida simples onde quer que seja, até mesmo numa metrópole. O desafio consiste em adotar padrões ecológicos de vida menos orientados ao consumo e à posse de bens materiais.

• Valorize os relacionamentos
Dê atenção aos aspectos psicológicos e espirituais da vida, adotando um estilo de vida que promova o crescimento pessoal, valorize os relacionamentos e integre as pessoas na comunidade em que vive, amplificando os processos de cooperação e reforçando os laços de solidariedade.

• Amplie sua percepção da vida
A simplicidade voluntária requer uma mudança de mentalidade em relação ao universo, considerando-o como um lar a ser preservado, e em relação à morte, considerando-a como uma aliada, pois, como temos um período finito de tempo na Terra, passamos a estar mais conscientes da necessidade de valorizarmos menos os aspectos materiais da vida e valorizarmos mais os aspectos intangíveis.

• Controle suas ações
Assuma um efetivo controle de suas ações e pensamentos, uma vez que boa parte deles não passa de reproduções automáticas de comportamentos enraizados na cultura da sociedade, principalmente em relação ao consumo.

• Valorize a intenção
A simplicidade voluntária envolve não apenas os aspectos puramente objetivos da atividade, mas, sobretudo, os aspectos subjetivos, ou seja, a intenção com que se faz. Um exemplo: duas pessoas que usam a bicicleta para ir ao trabalho, para economizar combustível. A primeira usa a bicicleta para se exercitar fisicamente, ter contato com a natureza e poupar energia. Ela teria a possibilidade de usar o carro, mas opta pela bicicleta e sente grande satisfação por isso. Já a segunda pessoa vai de bicicleta ao trabalho porque não tem condições de comprar um carro. Ela anseia por ter um carro e fica ressentida toda vez que tem que ir e voltar do trabalho de bicicleta.

Para saber mais...

Endereços na internet

Sites e blogs
www.simplicidadevoluntaria.com
www.valoresreais.com
simplicitycollective.com
viversemdinheiro.blogspot.com.br

Comunidades no Facebook
www.facebook.com/SimplicidadeVoluntaria
www.facebook.com/pages/Simplicidade-Voluntária/324562180973091?fref=ts
www.facebook.com/groups/274482462639871/?fref=ts

Livros
Simplicidade voluntária
De Duane Elgin, descreve quais são os princípios da simplicidade voluntária
Assista a entrevista com o autor em http://migre.me/kr9b0

Ter ou ser
De Erich Fromm, discute as diferenças entre duas filosofias de vida, uma centrada na acumulação de bens, outra na valorização do humanismo

Walden ou a vida nos bosques
Conta a história de Henry David Thoreau, que em 1845 instalou-se às margens do Lago Walden, onde morou por dois anos, dois meses e dois dias à margem da sociedade
Assista a documentário sobre o autor em http://migre.me/kr9oa

Na natureza Selvagem
De Jon Krakauer, relata a história de Christopher Johnson McCandless, de 24 anos, que, em 1990, decidiu viver à margem da sociedade do consumo, mas foi encontrado morto em um ônibus abandonado no Alasca.Assista a trailer legendado do filme em http://migre.me/kr9Cb
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