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postado em 28/06/2014 07:00 / atualizado em 27/06/2014 14:11

José Reinaldo de Lima

Estado de Minas/Arquivo
O futebol é um esporte mágico, o único capaz de lotar estádios e mobilizar milhões de pessoas em torno de um ideal, como na Copa do Mundo. O jogador Reinaldo foi ídolo do Atlético Mineiro por mais de uma década, de 1973 a 1985. Nesses anos, defendeu as cores da Seleção Brasileira de Futebol em 37 partidas. No campo, era conhecido pela forma muito pessoal como comemorava cada gol: com o braço esquerdo erguido e o punho cerrado. Para ele, o futebol era mais que um esporte. Neste artigo, Reinaldo explica por que o futebol está tão entranhado na alma do brasileiro.

Quando o futebol chegou ao Brasil, no fim do século 19, muitos disseram que ele nunca cairia no gosto do povo. No entanto, o estranhamento inicial das classes baixas com o esporte praticado pelos ingleses e abraçado pela elite brasileira foi, aos poucos, dando lugar a uma grande curiosidade e conquistando cada dia mais adeptos entre as pessoas mais humildes. Em alguns anos, o futebol se tornou o esporte mais popular do país. E aos poucos os brasileiros foram reinventando o esporte bretão, e esse foi passando de um jogo aristocrático para o mais democrático de todos os praticados no país. Saiu dos clubes da elite branca e foi ganhando as ruas, as praias, os quintais. Qualquer espaço plano poderia se transformar em um campo e um par de chinelos, ou de latas, poderia ser as traves. A bola podia ser de meia, ou um coco, uma laranja, ou qualquer coisa que obedecesse a uma trajetória imposta pelos pés humanos. Qualquer um podia ser um jogador, mesmo que não tivesse um clube que representar. Mas teria um bairro, uma rua, e, em qualquer pedaço de terra para jogar, era possível fundar o seu time, independentemente da classe social e da cor de seus integrantes. Ao assistirem às partidas, os torcedores, por também serem praticantes, julgavam saber sempre qual a melhor estratégia para ganhar um jogo:

- Eu chutaria assim.
- Ele devia ter passado a bola.

O Brasil foi se tornando uma nação de jogadores. E também de treinadores.

Um jogo simples, com poucas regras, passou a ser importante agente de alegria para os brasileiros, pois a imprevisibilidade dos resultados é diretamente proporcional às emoções que proporciona. E sua carga dramática ensina que o fracasso pode ser superado a qualquer momento, em uma guinada rumo à glória. Assim como o excesso de confiança e a soberba podem ser o prenúncio de uma queda e uma derrota inesperada.

O brasileiro, que nunca teve grandes instituições, como os partidos políticos, e sentimentos coletivos, como o nacionalismo, aos quais se apegar, acabou encontrando no futebol o seu senso de coletividade. Descobriu nesse esporte a sensação de pertencimento que não vivenciou em nenhum outro campo da sua vida. Assim, o clube de futebol ganhou o espaço que, em muitos outros países, cabia à nação. E a bandeira do futebol, abraçada pelas principais nações do planeta, encontrou no esporte a mais perfeita metáfora da guerra, felizmente pacífica, travada pelos "artilheiros", "canhões", "bombas", além de seus comandantes, intitulados "reis", "príncipes" e "capitães".

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A.Press

Espaço democrático


No Brasil, nada conseguiu criar um sentimento tão forte de identidade como o futebol. Além disso, neste país de tão hipócrita democracia racial, onde foi que os negros receberam maior aclamação? Onde mais um rapaz de classe média alta se alegraria ou choraria abraçado a um pedreiro ou outro homem do povo do que em um estádio de futebol? O que mais conseguiu congregar ricos e pobres, negros e brancos, intelectuais e iletrados de forma tão espetacular? São conquistas que o futebol ajudou a alcançar, apesar de ainda ser tão atacado por alguns intelectuais.

O futebol também teve um importante papel no resgate da autoestima do povo brasileiro. Na década de 50, o país ainda engatinhava na sua industrialização e era um mero coadjuvante na política internacional. Mas, com a conquista do primeiro mundial na Suécia em 1958, o país passou a ser protagonista em algo digno de nota. O brasileiro humilhado agora se sentia o melhor em pelo menos alguma coisa. A Bandeira Brasileira subia mais alto no dia daquela conquista. A partir daquela data muitos jovens passaram a acreditar que também podiam ser vencedores.

Quando o país esteve, durante anos, vivendo dias tenebrosos de repressão e com lideranças populares sistematicamente perseguidas, o futebol permaneceu criando ídolos. Em sua maioria, homens do povo, mulatos, negros, pessoas de fibra que inspiraram as pessoas a não desistirem de seus sonhos. Claro que a autoestima, a integração e a identidade do povo brasileiro não estão restritas ao futebol. Longe disso. Trata-se de um país de imensa riqueza cultural e diversidade fantástica. Mas o futebol é um dos agentes dessa alegria que, com certeza, é a marca registrada do brasileiro. A ligação do brasileiro com o futebol é tão íntima que até parece que o futebol foi feito de encomenda para os brasileiros. Dá até para imaginar que talvez tivesse sido mais bela e pacífica a história de nossa colonização se esse presente - o futebol -, em vez da catequese católica, tivesse sido trazido aos índios pelas caravelas que aqui desembarcaram e o Brasil tivesse sido fundado em meio a uma partida de futebol entre os índios e os portugueses.

José Reinaldo de Lima foi jogador de futebol. Defendeu o Clube Atlético Mineiro e a Seleção Brasileira. Foi também treinador de futebol. Na política, foi vereador em Belo Horizonte e deputado estadual
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