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Motoristas que cortam o país se deparam com contrastes

Em alguns lugares, há progresso. Em outros, falta energia e estradas são de chão batido

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postado em 16/04/2015 06:00 / atualizado em 16/04/2015 07:29

Paulo Henrique Lobato - Enviado Especial

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

Coronel Fabriciano e Bugre – O aposentado Ataíde Cruz, de 65 anos, nasceu num povoado em que o córrego garantia o banho diário da garotada. Era um lugar cercado pelo verde e as casas não tinham energia elétrica. O lugarejo surgiu às margens da BR-381, a poucos minutos do Centro de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço. O nome de lá é Caladinho. “Há quase 60 anos, a gente acendia velas e tomava banho frio”, recorda.

Hoje, boa parte do verde deu lugar à expansão imobiliária. Caladinho agora é um dos principais bairros da cidade. Indústrias e um diversificado comércio garantem centenas de empregos. O ex-povoado tem até universidade: a Unileste oferece dezenas de cursos. “A realidade é outra”, compara Ataíde.

O progresso, contudo, não chegou a 50 quilômetros dali. Em Boachá, área rural de Bugre, Júlio César Gomes, de 27, pena para assistir TV: “Preciso puxar a luz da rede que leva energia à casa de um amigo que mora em outra rua, porque não há postes na minha via. Coloquei um padrão no quintal desse colega. Minha rua também não tem saneamento básico e é de chão batido”.

A diferença entre a infraestrutura de Caladinho e Boachá é um dos exemplos de como a desigualdade social ainda é grande no Brasil. Esse é o tema da última reportagem da série “Os homens da estrada”, inspirada em Jorge, um brasileiro, do romancista mineiro Oswaldo França Júnior e que o Estado de Minas publica desde domingo.

O livro, narrado pelo protagonista por Jorge, conta a saga dele e oito caminhoneiros durante uma viagem de Caratinga a BH. O comboio passou por Caladinho, como descreveu o protagonista na frase em destaque no alto da página, e também percorreu a estrada que passa por Boachá.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
PRECARIEDADE Em 1967, quando o romance foi publicado, o protagonista se referiu àquele caminho como uma estrada “ruim que doía”. Júlio César, o rapaz que só tem luz em casa porque colocou um padrão no quintal de um amigo, percorre o trecho diariamente. “Vou de moto, porque trabalho em Bugre. Eu pago R$ 17,16 em minha conta de luz sob a rubrica iluminação pública. Mas minha rua não tem postes”, reclama o jovem, enquanto faz um carinho na filha, Ana Júlia, de 3.

É o mesmo problema do qual queixa, indignado, Joaquim Rodrigues, de 71, e sua esposa, Dolores Barros, de 68. “Há 12 famílias na mesma situação em Boachá”, reclama Joaquim, que ganha um salário mínimo como aposentado. Ele faz parte dos 25,2% de brasileiros que ganham até o piso dos rendimentos no país (R$ 788), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O percentual foi divulgado no fim de 2014 pelo IBGE na pesquisa que também trata do Índice de Gini, indicador que mede a riqueza e a pobreza – a taxa oscila de zero a um e quanto mais alta, maior a desigualdade. O resultado mostrou que a desigualdade social caiu no Brasil: o Índice de Gini de todas as rendas caiu de 0,505 em 2012 para 0,501 em 2013. Mas ainda há muito o que melhorar.

MEDO DA FOME A mesma pesquisa, por exemplo, revelou que o total de domicílios no país com algum grau de insegurança alimentar continua em dois dígitos (22,6%). De acordo com o IBGE, “52 milhões de pessoas tinham alguma restrição alimentar ou pelo menos alguma preocupação com a possibilidade de ocorrer restrição, devido à falta de recursos para adquirir alimentos”.

É por isso que muitas famílias carentes aproveitam o vaivém nas estradas para engordar a renda. Na ficção de França Júnior, Jorge tocou no assunto: “Apareceu uma casa e um menino veio para a luz do farol, na beirada da estrada, com uma coisa na mão que depois eu vi que era um ovo. Estava chovendo, e eu pensei que ia ser até engraçado a gene parar uma carreta naquela subida, só para comprar ovos. Depois que passei, olhei para trás e o menino continuava na chuva, com o braço estendido e mostrando o ovo”.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
AS MENSAGENS DA SÉRIE

A série “Os homens da estrada” tratou de temas comentados pelos personagens do livro Jorge, um brasileiro, do mineiro Oswaldo França Júnior, numa viagem de Caratinga a BH: rodovias precárias, carência de linhas férreas, falta de mão de obra qualificada, inflação e até uma paralisação de caminhoneiros.

Jorge, o protagonista, se recordou de quando um grupo cruzou os braços: “Um dia o Fefeu, que tinha três caminhões, me chamou e mais aos outros que trabalhavam junto com a gente para a Companhia, e falou que ia parar os caminhões (...)”.

O personagem continuou: “E ficamos nós ali parados, e os encarregados gritando para a gente sair com os carros. (...) Chamaram a polícia, e nós havíamos tirado as chaves e uma peça do motor para que os caminhões não pegassem”. O movimento ainda é comum nas manifestações feitas pelos caminhoneiros nos dias de hoje. Os anos passam, mas muitos dos problemas continuam os mesmos, apenas com contornos diferentes e máquinas mais possantes.

A série destaca que os estradeiros – são mais de 1 milhão de autônomos, responsáveis pelo transporte de 58% da carga consumida no país – formam uma categoria importante que deveria ser ouvida com maior atenção pelo governo.
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