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Cruzar as rodovias brasileiras transformou-se em perigosa epopeia para caminhoneiros

Como no premiado romance Jorge, um brasileiro, publicado há quase 50 anos pelo mineiro Oswaldo França Júnior, mensageiros do asfalto enfrentam dificuldades em razão das estradas precárias

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postado em 12/04/2015 06:00 / atualizado em 14/04/2015 10:10

Paulo Henrique Lobato /Enviado Especial

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Caratinga, Belo Oriente e Coronel Fabriciano – “E digo para você que não gosto mais nem de me lembrar dessas coisas, e só me lembro mesmo, quando alguém chega e a gente fica batendo papo.” O lamento de Jorge, um caminhoneiro tão apaixonado pela profissão quanto por rabos de saia, é um desabafo aos entraves ao desenvolvimento econômico e social do país que ele ajudou a construir. Seu último frete, programado para seis dias e que se estendeu por quase duas semanas, se transformou numa epopeia conhecida até no estrangeiro. A missão de guiar o comboio de oito carretas – cada uma com 30 toneladas de milho – de Caratinga, no Vale do Aço, a BH foi um martírio: ele e os amigos percorreram rodovias precárias, abriram desvios e improvisaram pontes. Durante a viagem, discutiram a alta dos juros, o déficit de mão de obra qualificada, a carência de logística, o desvio de dinheiro e a greve da categoria. Comentaram até sobre a popularidade do chefe da República.


O chofer de caminhão é o personagem mais famoso do romancista mineiro Oswaldo França Júnior (1936-1989). Jorge, um brasileiro foi publicado em 1967, e, quase 50 anos depois, os problemas relatados pelos carreteiros são os mesmos que freiam o crescimento econômico do país. É o chamado custo-Brasil, um conjunto de mazelas que joga no ralo um valor incalculável com o encarecimento da produção, o fechamento de empresas e o fomento do desemprego. A partir de hoje, o EM e o em.com.br publicam a série Os homens da estrada, inspirada no livro. As matérias tratam do dia a dia da categoria, mostram o contraste social Brasil afora e apontam obstáculos ao avanço do Produto Interno Bruto (PIB). A voz dos caminhoneiros deveria ser mais ouvida pelo poder público; afinal, eles somam mais de um milhão de autônomos e transportam 58% das mercadorias consumidas no país.

 

A jornada dos personagens começa em Caratinga, onde, na ficção de França Júnior, um trecho da Rio–Bahia foi destruído pela chuva. A Polícia Rodoviária interrompeu o trânsito e os carreteiros buscaram rotas alternativas. Jorge relatou o drama: “A barreira estava exatamente à altura da última rua que dava para a estrada”. Oficialmente, a Rio–Bahia é a 116, a BR mais extensa do Brasil – seus 4,5 mil quilômetros, de Fortaleza (CE) a Jaguarão (RS), cortam Minas e nove estados. Por ironia, na vida real, um exemplo de como o poder público desperdiça o dinheiro do contribuinte ocorre justamente no trecho imaginado pelo escritor. A balança que o poder público construiu em Caratinga para fiscalizar notas fiscais (combate à sonegação de impostos) e o sobrepeso de caminhões (a medida reduz o desgaste do asfalto) está fechada há seis meses.


Situação semelhante vive a 381, em Jaguaraçu, no Vale do Aço, por onde o comboio de Jorge seguiu depois de o trânsito na 116 ser interrompido. Balanças fechadas são porteiras abertas ao transporte de carga acima do peso permitido. Num primeiro momento, a infração reduz o custo com o frete, gerando uma pseudoeconomia. Depois, a despesa com o serviço aumenta, pois o sobrepeso cobra a conta no asfalto: buracos e ondulações danificam a frota, elevam o preço com manutenção dos veículos e põem a vida dos usuários em risco. Na 381, o piso ao lado de um posto desativado foi tomado por “costelas”, aumentando a possibilidade de acidentes na BR rotulada de Rodovia da Morte.

O sobrepeso é herança antiga no Brasil, como a reflexão de Jorge citada em destaque no alto desta página. Em outra oportunidade, o protagonista admitiu que “só pensava em como fazer para os caminhões darem mais viagens e carregarem mais peso”. A qualidade do pavimento da malha nacional é uma espécie de granada prestes a ser detonada. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) apurou que 49,9% do asfalto nacional tem alguma deficiência. O sobrepeso e a falta de manutenção, dizem moradores do Vale do Aço (onde se passa a maior parte da narrativa do romance), danificaram a estrutura da antiga ponte sobre o Rio Piracicaba que liga Coronel Fabriciano a Timóteo. O trânsito de carga foi interrompido na estrutura. O desvio compromete a economia nas imediações.

“Investi R$ 600 mil em dois galpões e não consigo alugá-los, porque caminhões e ônibus não podem passar na estrutura. O desvio, de 11 quilômetros, aumenta a despesa com o diesel. Outro agravante é o tempo perdido na volta até o centro de Fabriciano. Donos de restaurantes em que ônibus paravam também estão no prejuízo”, reclama o empresário Warley de Moura Domingos. No livro, o comboio transpôs a estrutura: “Passamos por Coronel Fabriciano e depois por uma ponte comprida, e por um lugar onde eu sabia que os homens iriam gostar se a gente parasse”. O mesmo não ocorreu num lugarejo que hoje é distrito de Belo Oriente: “Depois de Cachoeira Escura havia uma ponte que eu olhei debaixo de chuva e que deixei o farol aceso para examinar melhor. Não me pareceu boa (...)”.

A tal ponte, na verdade, só existe na ficção de França Júnior. Cachoeira Escura é separada de São Lourenço, povoado de Bugre, pelo Rio Doce. Cerca de 800 pessoas moram nas duas localidades e dependem de uma antiga balsa para a travessia. A falta da estrutura causa prejuízo às famílias, sobretudo, de São Lourenço, onde o comércio é dependente do varejo de Cachoeira Escura para sobreviver. Há exemplos surreais, como o do mecânico industrial Epaminondas Pereira, que precisa recorrer à balsa para ir à padaria.

Na última semana, ele desembolsou R$ 3 por um saco com pães e mais R$ 12 para atravessar o seu carro na barca (R$ 6 na ida e R$ 6 na volta). “O pão saiu bem mais caro. Gastei R$ 15 no total”, indignou-se. A balsa, com capacidade para dois veículos e 40 passageiros, funciona das 5h30 às 18h. Quem chegar ao local fora desse horário precisará recorrer a um bote ou dar uma volta de 40 quilômetros para chegar ao outro lado do leito.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

O livro que virou  best-seller

Criação de Oswaldo França Júnior, mineiro do Serro, Jorge, um brasileiro venceu o Walmap de 1967, principal concurso literário da época, com Guimarães Rosa e Jorge Amado no júri. A obra inspirou a série de tevê Carga Pesada, com Antônio Fagundes e Stênio Garcia. Foi exibida no cinema, em produção de 1988, dirigida por Paulo Thiago e estrelada por Carlos Alberto Riccelli. Entre uma crítica e outra ao custo-Brasil, Jorge comenta casos pitorescos, como uma viagem de ônibus ao Leste de Minas: “Aí a mulher que estava na minha frente e que era a mesma que me havia feito ficar com o cheiro de salame na mão e no cabelo começou a vomitar. A primeira leva não houve tempo dela abrir a janela, e aquilo veio de embrulhada e bateu no vidro. E você sabe, a coisa não é na sua direção, mas sempre há aqueles respingos. E além do cheiro, tem a impressão que dá. E a mulher abriu a janela, e aí, até mesmo a chuva entrando, para você, não é mais a chuva, é resto do que ela jogou para fora”.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
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Marco
Marco - 28 de Agosto às 10:02
Vivemos no Brasil ainda, como na idade da pedra. O futuro promissor para essa grande nação ficou travado devido a mente do povo e dos governantes que debilitados mentalmente, não arriscaram visando o bem comum. Rodovia ficaram e estão agonizando de tanto movimento e as ferrovias que poderiam ser a válvula de escape, ficaram no esquecimento de mentes boçais de quem poderia ter executado projetos de transportes nesse país como é em quase todos os países. Mas como é Brasil...
 
Heveraldo
Heveraldo - 12 de Abril às 13:24
Mercadorias deveriam ser transportadas de trem e os caminhões deveriam ser retirados das estradas.
 
Marco
Marco - 12 de Abril às 13:24
Motoristas de caminhão, ônibus também deveria ser mais responsáveis. Tem motorista desses veículos que se esquecem que não estão em carros de passeio...
 
SEBASTIAO
SEBASTIAO - 12 de Abril às 12:39
Caminhoneiro, uma profissão de abnegados, que merece sim o reconhecimento e apoio em seus lamentos, que é também o mesmo de muitos brasileiros, que clamam por uma vida digna, com boas condições de saúde, segurança, moradia e lazer, princípios estes romanticamente assegurados na nossa Constituição da República, mas que lamentavelmente é uma utopia.
 
Leandro
Leandro - 12 de Abril às 11:43
Um dos perigos das rodovias e estradas são alguns caminhoneiros também, mas como em toda profissão há bons e maus profissinais.
 
Nilson
Nilson - 12 de Abril às 11:39
Se os caminhoeiros enfrentam dificuldades e correm riscos, imagine nós que transitamos em veículos pequenos, disputando espaço com eles.