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EXPEDIÇÃO CULTURAL 19/9/16

Um mundo povoado de personagens e dramas

O ator Arildo de Barros, do Galpão, conta como o teatro o cativou, ainda na infância, por meio das fotos de grandes astros que via na revista O Cruzeiro

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postado em 19/09/2016 12:53 / atualizado em 19/09/2016 14:39

Guto Muniz/Divulgação
As histórias de Arildo de Barros e do Grupo Galpão se cruzaram em 1992. Naquele ano, ele participou como assistente da montagem do clássico “Romeu e Julieta”, dirigida por Gabriel Vilela. Em 1994, atuou em “A Rua da Amargura” e, desde então, integra o elenco das montagens do grupo.

Como se interessou por teatro?
“Nasci e me criei em Paraisópolis, uma pequena cidade no Sul de Minas, muito distante dos núcleos em que o teatro acontecia. Mas, lá mesmo, me interessei ainda na infância pelas fotos de espetáculos teatrais publicados em cores na revista “O Cruzeiro”. Recortava e colecionava imagens dos astros e estrelas da época, vestidos, maquiados e em ação sobre os cenários. Namorava o Otelo de Paulo Autran enforcando Tônia Carrero no leito de Desdêmona; Maria Della Costa seduzindo uma favela em “Gimba, o presidente dos valentes”; Eva Todor, toda imperial em seu traje de czarina da Rússia; Cacilda Becker, impressionante, travestida de menino em “Pega-Fogo” ou da cortesã que arrebatava Walmor Chagas  em “A dama das Camélias”, ou ainda despojada da realeza como Mary Stuart, ao lado da irmã Cleyde Yáconis, esta sim, rainha, na pele de Elizabeth I; Sérgio Cardoso em seu definitivo Hamlet. E viajava por um mundo povoado de personagens e dramas. A contemplação daquelas imagens sem vida criou na mente de uma criança a mitologia que o acompanharia por toda a sua vida.”

Qual foi a primeira peça de teatro que você assistiu?
“Na época em que as produções de teatro eram patrocinadas pela renda das próprias bilheterias, cada montagem explorava todas as possibilidades de vender ingressos. Foi assim que uma companhia paulista aportou em Itajubá, a 60 quilômetros de Paraisópolis, para se apresentar ali, em um teatro improvisado nas dependências do Exército. Tomei um trem e fui lá pra conhecer o teatro. E o conheci através da comédia de Abílio Pereira de Almeida “...Em moeda corrente no país”, que já então denunciava as dificuldades enfrentadas pelas famílias ante o aterrorizador fenômeno da inflação. Em cena, Cacilda Becker, a maior estrela do teatro brasileiro da época.”

Com qual ator e diretor você gostaria de trabalhar?
“Sou um privilegiado da sorte. Trabalhando no Galpão, estou sempre ao lado de atores extraordinários, a quem respeito e admiro, e que ainda formam um grupo de grandes amigos meus. E trabalhamos sempre com diretores escolhidos por nós, entre os melhores do país e cujo trabalho temos em alta conta.”

Qual espetáculo do Grupo Galpão é mais marcante para você?
“Sem dúvida, os primeiros. Chegando ao Galpão, fui tomado por duas epifanias. A primeira veio do encontro com um grupo estruturado na prática da disciplina, aprendida com os alemães, e no rigor decorrente dessa organização. Ali, descobri também o encanto de se viver plenamente o amor ao teatro, em tempo integral e dedicação exclusiva. Foi mergulhado no espanto e no encanto dessas revelações que me envolvi na montagem de “Romeu e Julieta”, em que a fusão da dinâmica do grupo com a criatividade do encenador Gabriel Vilela me ofereceram a melhor apresentação do teatro profissional e de Shakespeare, em pessoa, que eu poderia sonhar. Vi nascer ali o meu espetáculo mais querido, entre os inumeráveis que já vi, em mais de sessenta anos de plateia.
A segunda epifania me ocorreu quando, convidado pelo Gabriel, me juntei ao elenco do Galpão para atuar em “A Rua da Amargura”. No decorrer dos ensaios, comecei a sentir que toda a minha vida até então vivida fora apenas um preâmbulo, uma preparação para aquele momento, para aquele compromisso, para aquele espetáculo. Minha ortodoxa formação católica, meu gosto pela linguagem parnasiana, ali levada ao paroxismo, minha devoção pela liturgia da Igreja, meu encantamento pelo repertório musical sacro e tudo o que eu conhecia e amava nessas encostas, estava ali. E tudo se fundira para me oferecer, como dádiva, o exemplar magnífico de um fenômeno, aquele que na infância me seduzira através das imagens da revista “O Cruzeiro”: o teatro. E isso era um trabalho!”


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