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Que fim levou o futebol de várzea?

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Preencha todos os campos.

postado em 22/04/2015 09:13 / atualizado em 22/04/2015 10:54

Prof. Vitor Augusto Ferreira

O "futebol de várzea" é uma denominação típica do vocabulário brasileiro, convencionada ao futebol praticado de forma amadora, muitas vezes como ponto de encontro de amigos para os fins de semana. Entretanto, nos últimos 30 anos, esse esporte praticado na sua forma original vem perdendo participação nas atividades urbanas. Voltemos ao início do surgimento desse termo.

Ao longo do processo de urbanização do Brasil - transferência da população do campo para a cidade - houve uma tendência de ocupação dos espaços às margens dos rios. Um ótimo exemplo disso é a cidade de São Paulo, em que a antropização - alterações humanas no meio - se deu ao entorno dos rios Pinheiros e Tietê. E com a ocupação humana, surgiram os primeiros campos de "futebol de várzea".

Geomorfologicamente faz sentido introduzirmos campos de futebol nas várzeas. As várzeas podem ser definidas pela Geografia como: área aplainada nas margens dos rios que passam por alagamentos periódicos. Um exemplo do uso desse espaço é o estádio de futebol do Internacional de Porto Alegre (RS), conhecido popularmente como o "Gigante da Beira-Rio".

Entretanto com o passar dos anos, esses campos foram progressivamente substituídos por vias marginais nas grandes cidades. Um caso bem conhecido é o da própria cidade de São Paulo, em que duas das suas principais rotas de fluxo urbano passam pela Marginal Pinheiros e Marginal Tietê. Esse panorama traçado evidencia um dos maiores problemas ambientais urbanos do nosso país. O modelo de planejamento urbano transformou as várzeas, naturalmente ocupadas por matas ciliares, em ambientes impermeáveis a partir de concreto e asfalto. Essa alteração no padrão da superfície, por sua vez, promove um aumento expressivo na vazão da água nesses ambientes, determinando enchentes urbanas cada vez mais agressivas e prejudiciais para a população local.

Em países que conseguem atrelar desenvolvimento econômico com valorização dos ambientes naturais, ou seja, aqueles que promovem o desenvolvimento sustentável, o novo modelo de planejamento urbano inclui as várzeas como ambientes integralmente preservados. E caso a vegetação que compõe as margens desses rios esteja degradada, esses planos incluem a recomposição vegetal e a constituição de parques públicos. Tais ações são fundamentais para garantir o aumento da permeabilidade do solo, sendo importante não apenas evitar as enchentes urbanas, como também para garantir a vitalidade do corpo d`água e oferecer a população áreas públicas de lazer.

As boas práticas não param de se multiplicar em países desenvolvidos como Inglaterra e Coreia do Sul. Enquanto isso no Brasil, projetos de canalização como o do Ribeirão Arrudas em Belo Horizonte continua atendendo aos princípios do planejamento urbano estabelecidos no início do século passado.

Vitor Augusto é professor de Geografia do Percurso Pré-vestibular e Enem.

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