Propostas

Ministério avalia novo modelo para melhorar a qualidade do Ensino Médio

Novo modelo, já em análise pelo MEC, vira teste decisivo para mudança de cultura nas séries finais da educação básica, com desafio de integrar disciplinas, usar novas tecnologias e aumentar carga horária. Na rede particular, Enem impulsiona inovação

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postado em 09/12/2012 06:00 / atualizado em 09/12/2012 07:50

Junia Oliveira /

Roberto Rocha/Esp. EM

 

O Brasil se prepara para adotar, em breve, um novo modelo de ensino médio. Estão nos gabinetes de Brasília propostas para melhorar a qualidade das séries finais da educação básica. O documento, entregue na semana passada ao ministro da Educação, Aloizio Mercadante, pelos representantes do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), propõe medidas para tornar essa fase do aprendizado mais atrativa para os jovens. Implantar o sexto horário nas escolas, fazer uso de novas tecnologias e integrar as disciplinas por áreas são alguns dos desafios lançados para o próximo ano. A reformulação do currículo vale para todas as rede de ensino. Mas a particular tem a vantagem de já ter começado esse ensaio, principalmente depois de as universidades federais, como a de Minas Gerais (UFMG), adotarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de ingresso. De qualquer maneira, as mudanças seguem como um desafio.


O documento em avaliação deve servir de base para ações de curto, médio e longo prazos, a serem desenvolvidas pelo Ministério da Educação (MEC). A base é a reforma curricular e a ampliação da educação em tempo integral, além de mais investimento em infraestrutura. Na nova grade de currículo, o MEC espera uma articulação interdisciplinar, de forma que as matérias sejam organizadas em atividades integradas por eixos de referência: trabalho, ciência, tecnologia e cultura. Já as disciplinas deixam de ser isoladas para dialogar em áreas, a exemplo do que ocorre no Enem: ciências da natureza, humanas, linguagens e matemática.

Diretor do Colégio Arnaldo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, e consultor do MEC, Geraldo Júnio dos Santos diz que, na verdade, as propostas são a concretização de medidas que já são aguardadas há muito tempo. As áreas de conhecimento estão previstas na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) desde 1996, bem como o Enem (previsto na legislação como uma avaliação da educação básica em nível nacional). “O MEC vai agora seguir uma determinação que já existe”, afirma.

Mas, mesmo passados 16 anos, a orientação permanece como um desafio. “A grande lacuna é que a formação dos professores não ocorre por área de conhecimento. Hoje, por exemplo, temos profissionais que terminam a licenciatura com o uso de novas tecnologias, mas quem se formou há 10 anos não sabe o que é isso e precisa agregar conhecimento ao currículo”, relata. “Esse talvez seja o grande entravem não só nas escolas particulares, mas também nas públicas: encontrar profissionais que consigam conversar com colegas da área e, principalmente, que estejam abertos ao diálogo. Também não há material didático por área, mas por disciplina. E essa readaptação será necessária”, completa.

No colégio que dirige, Geraldo Júnio conta que a busca é pela construção de processos de avaliação. Nesse sentido, os simulados são elaborados, desde 2010, de forma fragmentada, por áreas de conhecimento. Alguns professores estão aderindo ao modelo e dando aulas conjuntas, principalmente os de ciências humanas, que compreendem a história, a geografia, a filosofia e a sociologia. “Mas precisamos avançar, sobretudo no diálogo com os professores”, destaca. O planejamento para 2013 contempla essa atuação conjunta, afirma.

O diretor diz que desconhece uma escola em BH que adote integralmente o currículo por área de conhecimento. “O governo federal não vai obrigar as escolas a trabalhar nesse perfil. Mas, nesse contexto do Enem, e por pensar que conhecimento não é uma caixinha isolada, a proposta é bem-vinda. O próprio estado está construindo esse caminho. E ainda tem muita água para rolar.”

Aprendizado

Aluna do terceiro ano da instituição, Gabriela Delamare Nascimento Ruas, de 17 anos, aprova a medida e diz que as aulas conjuntas fazem diferença. “Quando as disciplinas são integradas é bem melhor, até porque, na prática, não há como separar. Uma ajuda a explicar a outra. Em biologia, há muitos conteúdos que o estudante não entende se não souber química”, afirma. Para a garota, trata-se de uma nova perspectiva e uma oportunidade de a escola pública ficar mais competitiva. “É válido pensar nisso como modelo de educação. O Enem diminuiu a competição pelo ato de decorar, que os cursinhos ensinavam. Isso é bom para o ensino e para a formação do aluno”, avalia.

O presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG), Emiro Barbibi, chama a atenção para a criação do sexto horário – aulas das 7h às 12h20 –, prática já adotada nas escolas particulares. “Já foi comprovado cientificamente que a carga horária estendida é benéfica para aprendizagem dos alunos”, ressalta. Ele destaca ainda que, enquanto pelo lado dos estudantes a concepção por áreas do Enem serviu para estimular o raciocínio e o pensamento crítico, pelo dos educadores a avaliação está forçando profissionais a aprimorarem a didática em sala de aula e a se adaptarem. “É uma evolução sadia na educação de forma geral”, diz.

Na rede pública, na qual a reformulação do ensino médio começou em projeto piloto aplicado a instituições estaduais de Belo Horizonte, os resultados já são sentidos por estudantes como Gabriele Guedes e Francielle Cecília Ferreira Silva, de 15 anos, da Escola Estadual Professor Hilton Rocha. As adolescentes aprovam a experiência, considerando que ela as tem aproximado do mercado de trabalho e das competências que vêm sendo cobradas no Enem.