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Em Viçosa, melhor escola pública do país se destaca pela integração entre alunos e professores O Colégio de Aplicação da UFV prima pelo crescimento profissional e humano dos estudantes

Junia Oliveira -

Publicação: 17/09/2011 07:24 Atualização: 17/09/2011 08:32

Pedro Henrique, Alice, Fagner, Frederico, Aline e Ébio se sentem estimulados a aprender  (Beto Magalhães/EM/DA Press )
Pedro Henrique, Alice, Fagner, Frederico, Aline e Ébio se sentem estimulados a aprender
Viçosa – Qual o segredo da escola pública que há quatro anos consecutivos figura no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como a melhor instituição gratuita do Brasil? O Estado de Minas foi ao Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Coluni, na Zona da Mata, desvendar essa fórmula e conhecer a estrutura e os responsáveis pelos padrões de excelência. O Ministério da Educação divulgou esta semana a nota das escolas no Enem/2010 e, no resultado geral, a escola aparece como terceira melhor de Minas e oitava do país, atrás apenas das particulares. Laboratórios de ciências bem equipados, professores orgulhosos do trabalho e alunos para lá de interessados são componentes da mistura bem-sucedida. Nas palavras dos estudantes Alice, Aline, Ébio, Fagner, Frederico e Pedro Henrique, é um espaço de diversidade e liberdade onde se conquista maturidade e responsabilidade.

O nome Aplicação se justifica na obrigação do colégio em oferecer estágios para os estudantes dos cursos de licenciatura das universidades, principalmente a UFV. Por semestre, passam por lá cerca de 70 alunos de física, química, matemática, biologia, história, geografia, educação física, pedagogia, letras (nas habilitações de português, inglês e espanhol) e ciências sociais. Orientados por professores, os futuros profissionais ajudam na preparação das aulas e de material didático.

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Exemplo do perfil do corpo docente do Coluni é o próprio diretor, Hélio Pereira Filho, com 16 anos de casa. Ele se formou na UFV em ciências biológicas, fez estágio no colégio e quando estava no mestrado prestou concurso para assumir sala de aula, que não abandonou mesmo estando na diretoria.

Hélio diz com a maior naturalidade que o bom resultado é apenas consequência do trabalho: “Fazemos o que é obrigação de qualquer escola: ser dedicado, estar aqui o dia todo e ensinar bem”. Outro perfil típico é o do professor Daniel Ventura, coordenador de física. Formado no Coluni e na UFV, ele foi aprovado em concurso também para o ensino superior, mas a preferência em lidar com a garotada do médio falou mais alto. Para ele, a empolgação de quem trabalha no colégio tem dois lados: “A motivação dos meninos em querer aprender e nós com conhecimento e bagagem querendo dar boa formação a eles, além de sermos satisfeitos com o que fazemos”.

Dedicação

Os professores trabalham em regime de dedicação exclusiva e se dividem entre a sala de aula, projetos de extensão e pesquisa e atendimento aos licenciandos. Os salários são outro incentivo e se igualam aos dos servidores da graduação, assim como o incentivo para a conclusão de mestrado e doutorado. Mesmo assim há gargalos, como a dificuldade de repor professores, pois o governo não abre concurso.

Cultura da qualidade é a expressão-chave. Qualidade que envolve a própria estrutura da UFV, disponível aos estudantes do ensino médio. A biblioteca central, o refeitório, a divisão de saúde e a praça de esportes são espaços comuns que unem os alunos a quem já está na universidade e os põe em patamares iguais. A carga horária de mais de 1 mil horas, superando as 800 horas letivas exigidas pela legislação, também favorece o aprendizado. As aulas do 2º e 3º ano ocorrem das 7h às 12h20, com educação física à tarde. Para o 1º ano vale o contrário. As aulas práticas nos cinco laboratórios – dois de biologia, um de química, um de física e um de física e química – são semanais.

Fora das salas de aulas, é fácil encontrar pequenos grupos de estudo espalhados pelo colégio ou na biblioteca aperfeiçoando os conhecimentos. Atividades extracurriculares, como palestras, debates, rodas de bate-papo, simpósios e feiras fazem parte da rotina. A taxa de evasão é mínima: um a dois alunos por série.

“No sistema educacional há um vício no qual os estudantes são treinados a responder. Aqui eles são estimulados a perguntar”, define o diretor Hélio Pereira.

Seleção rigorosa
Nilda Soares, reitora da UFV

“Eu, meu marido e minhas duas filhas estudamos no Coluni. Na minha época, a escola oferecia apenas o 3º ano, mas o processo de seleção para uma das 150 vagas já era fortíssimo. Apesar de morarmos em Viçosa, a universidade era um sonho muito distante e não havia a preocupação de trazer os estudantes do ensino básico para dentro dela. Pouquíssimas vezes estive no câmpus antes de entrar no Coluni. Sonhávamos em passar nele porque isso significava estudar na UFV. E isso dava um grande status, pois eram as meninas mais requisitadas para namoro por estarem na universidade. Hoje, há um conjunto de diferenciais para os bons resultados no Enem. O governo deveria pegar esse exemplo e aplicar em outras escolas. Esse modelo está falando que dá certo”.


Análise da notícia: Exceção deve ser regra
Álvaro Fraga

A história de sucesso do Coluni de Viçosa, exceção diante da mediocridade geral do ensino público do país, demonstra que há muito tempo a educação brasileira perdeu o rumo e se faz necessária e urgente a transformação do sistema educacional. Não se trata apenas de destinar mais investimentos à infraestrutura educacional e à capacitação e remuneração dos professores. É preciso dedicação e comprometimento de quem tem a responsabilidade de ensinar. Só assim será possível fazer que o padrão de qualidade oferecido pela UFV a seus alunos seja realidade em toda unidade escolar pública municipal, estadual ou federal.


Os segredos do Coluni

Professores com regime de dedicação exclusiva
Remuneração do professor em início de carreira com graduação é de cerca de R$ 3 mil
Processo de seleção para entrar no colégio filtra os bons alunos
Educação muito além da preparação para vestibulares
Estudantes com autonomia, independência e que aprendem a estudar



Relação de confiança e liberdade 

O convite soou atípico. Um grupo de alunos decide dar entrevista na sala de reunião dos professores, sem pedir autorização a ninguém. Uma menina pede desculpa pela “bagunça”, pois a mesa está ocupada com seus livros e cadernos, afinal de contas, ela estuda para a prova de geografia do dia seguinte. Nada de uniforme, outro símbolo do Coluni. Em clima descontraído, os colegas dizem que é assim mesmo, numa relação de confiança e liberdade. O estudante pode até mesmo optar por não assistir a uma ou outra aula, permanecer nas dependências da escola num  bate-papo. Mas pode ter certeza: na hora da prova não haverá moleza.

Uma marca de quem venceu a disputada prova de seleção – por ano, há cerca de 11 adolescentes por vaga – é o orgulho de estudar no Coluni. Aluno do 2º ano, Fagner Toledo, de 19 anos, repetiu dois anos do nível médio. Ele fazia o curso técnico de metalurgia em Ouro Preto e, no fim do 2º ano, percebeu que estava defasado em algumas matérias. “Não queria fazer num cursinho para tentar o vestibular, pois acho que o aluno perde a identidade num lugar desses. Se minha base está errada, tenho que voltar a  ela”, diz.

Aline Ferreti, de 19, do 3º ano, estudava em Carangola, na Zona da Mata, e também preferiu voltar um ano. Ela tentou a seleção quando estava na 8ª série, não passou e tentou novamente. “Chegando aqui percebemos que é mais que adquirir conhecimento. As pessoas chegam despreparadas emocionalmente e passam por dificuldades por estarem fora de casa. Por isso, alcançam nível de maturidade diferente de quem estuda em outros colégios”, afirma.

O brilho nos olhos dos alunos é definido por Ébio Júnior, de 16, do 3º ano, com base na própria experiência. Quando estava na 5ª série e ainda morava em Divino, na Zona da Mata, ele fez uma excursão com a escola para conhecer o Coluni e decidiu que estudaria o nível médio naquele endereço que, segundo ele, reúne os melhores de sua cidade de origem. “O brilho ocorre por causa de professores que te inspiram, se interessam pelo trabalho e vão além, ao mesmo tempo em que nós nos interessamos”, relata o garoto, para quem. “Quando entramos no Coluni imaginamos apenas que queremos estudar, não temos consciência da bagagem que carregaremos”, diz.


Alice Soares, de 16 anos, não tem dúvidas: “Sinto-me mais perto de uma universidade federal aqui”. Ex-aluno do colégio e cursando o 6º período de engenharia de alimentos na UFV, Pedro Henrique de  Souza, de 21, sentiu na pele essa certeza. Ele garante que o aprendizado do ensino médio foi mais do que suficiente para fazer o vestibular: “Há pessoas que gostam de aprender para fazer prova e outras aprender para reter, que é o meu caso”.

Para Frederico Brandão, de 16 anos, do 2º ano, a escola ajuda no autoconhecimento. “A grande diferença é que não é só o foco no vestibular, é aprendizado para a vida”, resume.

Esta matéria tem: (2) comentários

Autor: rogério mota
Basta nossos governantes quererem fazer a coisa certa que tudo vem em reciprocidade para a população. Parabéns aos professorres e alunos que se dedicam para que isso se torne realidade. Rogério | Denuncie |

Autor: Alfredo HW
Esqueceram-se de dizer: o salário destes professores em dedicação exclusiva estão em torno de R$6.000,00 e toda a estrutura de ensino está à disposição destes alunos. E depois alguns incautos dizem por aí que salário e estrutura de ensino não vão mudar a condição de penúria que vive o ensino público. | Denuncie |

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