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Manobras em fase decisiva no julgamento de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola

Defesa deixa claro que linha é desqualificar apuração e estender depoimentos

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postado em 23/04/2013 06:00 / atualizado em 23/04/2013 09:46

Pedro Ferreira, Paula Sarapu, Guilherme Paranaiba e Daniel Silveira

Um batalhão de advogados e uma determinação: transformar em personagens principais do julgamento do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, duas figuras que não constam do processo. O primeiro dia do julgamento do acusado de executar Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno Fernandes de Souza, começou como havia terminado a primeira tentativa de levar a júri o suposto matador, em novembro do ano passado: com toda sorte de manobras e investidas para adiar a sessão, por parte de uma defesa formada por nada menos que 10 advogados, capitaneados por Ércio Quaresma. Para isso, uma das armas usadas é sustentar que dois dos possíveis envolvidos no crime – o ex-policial civil José Laureano da Silva, o Zezé, e o agente da ativa Gilson Costa – não foram indiciados e que a morte de Eliza ainda está sob investigação.

A estratégia está diretamente ligada a outra: a tentativa de desqualificar o trabalho da polícia, que levou ao indiciamento de Bola como executor de Eliza. A intenção ficou clara desde o início, com a insistência dos advogados de Bola na presença do jornalista José Cleves, testemunha da defesa que não havia comparecido. Cleves, que fazia matérias sobre corrupção policial, foi acusado de envolvimento na morte da esposa, durante um assalto, em 2000. Ele foi investigado pelo delegado Edson Moreira – também responsável pelo inquérito sobre o desaparecimento e morte de Eliza Samudio – e acabou absolvido no Tribunal do Júri. O longo interrogatório da primeira testemunha, a delega Ana Maria Santos, reforçou a linha de demonstrar equívocos na investigação.

“Por que Zezé não foi indiciado?” Quaresma repetiu essa pergunta inúmeras vezes à delegada. “Não se procedeu o indiciamento de José Laureano, porque não se entendeu que estava bastantemente fundamentado”, afirmou a investigadora. Ela confirmou que o nome do policial surgiu durante as investigações e afirmou que ele chegou a ser interrogado duas vezes, mas que não havia provas suficientes para incriminá-lo.

“Cinquenta ligações. Não são cinco, são 50”, esbravejou Ércio Quaresma, ao falar sobre o relatório da quebra de sigilo telefônico dos acusados, que demonstra cerca de 50 telefonemas entre o celular de Zezé e outros acusados, em 10 de junho de 2010, data apontada pela promotoria como o dia em que Eliza foi morta. A delegada, dirigindo-se aos jurados, disse que um único elemento não pode ser tomado como prova. Quaresma, por sua vez, indagou se a polícia não achou estranho o volume de ligações envolvendo o policial. Ela esclareceu que não ficou responsável pela análise desse relatório.

Quaresma ainda citou o policial civil Gilson Costa, que está sendo investigado paralelamente, assim como Zezé. Segundo o defensor, também há grande volume de ligações telefônicas envolvendo o agente e alguns acusados. A delegada repetiu as respostas. Esse clima de enfrentamento foi a tônica do trabalho da defesa e das respostas da policial, que foi questionada por cerca de cinco horas, até o encerramento dos trabalhos, por volta das 22h30 de ontem.

Durante a investigação, a delegada Ana Maria Santos foi quem ouviu o primo do goleiro Bruno Jorge Luiz Rosa, adolescente à época do crime. Ele é considerado a principal testemunha da trama, já que denunciou o sequestro e assassinato da jovem. No depoimento que prestou às autoridades policiais, Jorge deu detalhes sobre os últimos instantes da vida de Eliza Samudio, incriminando Bola.

Tentativa frustrada de novo adiamento

Apesar da insistência da defesa de Bola na presença do jornalista José Cleves à sessão e nos questionamentos à delegada Ana Maria Santos, não era intenção dos advogados que esses depoimentos ocorressem ontem. O pedido inicial de adiamento do júri, feito por Ércio Quaresma e justificado pela ausência da delegada Alessandra Wilke, testemunha que está em Ipatinga, onde participa da investigação sobre a morte de jornalistas, foi negado pela juíza Marixa Fabiane Rodrigues, que também indeferiu pedido de retirar dos autos o atestado de óbito de Eliza Samudio. Mas o julgamento de fato só começou muito mais tarde, já que a magistrada determinou que o jornalista José Cleves fosse buscado por força policial, conforme pedido dos defensores.

Os trabalhos foram reabertos com nova polêmica. O promotor Henry Vasconcelos pediu, no reinício da audiência, que a juíza retirasse dos autos fotos do acusado Marcos Aparecido dos Santos usando forte armamento. O representante do Ministério Público sustentou que as fotos são “intimidatórias”. Henry mencionou ainda uma carta recebida pela juíza de uma pessoa que se sentiu intimidada pela defesa do ex-policial em julgamento de outro crime, no ano passado. A magistrada deferiu a retirada das imagens.
Diante do clima, o sorteio do corpo de sentença foi comemorado pelo promotor. Ao contrário dos dois julgamentos anteriores do chamado caso Bruno, no júri de Bola os homens são a maioria dos jurados, o que, para o representante do MP, pode ser positivo para minimizar o que classifica como ambiente de intimidação.

LISTA Somente às 12h09 Ércio Quaresma começou a listar o que queria que constasse na ata do julgamento. Teve 30 minutos para as apresentações preliminares e mais 15 garantidos por liminar que conseguiu no Tribunal de Justiça. “São mais de 40 questões prejudiciais no processo”, disse ele, citando quatro: a comarca do julgamento, já que pelo atestado de óbito de Eliza o crime ocorreu em Vespasiano; a expedição do documento já com a causa da morte; o inquérito paralelo e sigiloso em que dois policiais supostamente ligados a Bola ainda são investigados; e o fato de uma jurada do conselho de sentença de Luiz Henrique Romão, o Macarrão, ter passado mal e ter sido levada para a UPA de Contagem, sem que o atendimento constasse nos autos.

Apesar dos esforços da defesa, para o assistente de acusação José Arteiro Cavalcante, Bola deve pegar cerca de 30 anos pela execução de Eliza. “Todos querem saber onde está o corpo de Eliza e a oportunidade é esta. Sem dúvida ele será condenado. Não é possível que uma estratégia de sumir com o corpo sirva para inocentá-lo”, diz Arteiro.
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