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Cartas manuscritas fazem parte de estratégia de defesa no Caso Bruno

Textos escritos à mão foram enviados para polícia e até programas de TV. Em um deles, havia descrição do local onde o corpo de Elisa estaria enterrados. Buscas foram feitas, mas nada foi encontrado

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postado em 17/11/2012 09:52 / atualizado em 17/11/2012 12:56

João Henrique do Vale

Em meio a todas as polêmicas que envolvem o desaparecimento de Eliza Samudio, um elemento chama a atenção: cartas manuscritas. Numa época em que quase um terço da população mundial está conectada à internet e usa o e-mail como uma das principais formas de comunicação, chega a ser curioso o uso do antigo método via ECT. Desde o início das investigações, várias correspondências foram entregues à polícia, advogados de defesa e acusação e até programas de tevê. Algumas traziam informações supostamente reveladoras. Outras tinham notório apelo emocional. Por serem redigidas à mão, transmitem a pessoalidade que o meio eletrônico não oferece. Mas, ainda assim, a validade desses documentos, que certamente serão citados durante o julgamento de cinco dos sete réus, que começa na próxima segunda-feira.

 Veja a cobertura completa no Especial Caso Bruno


O apresentador do programa TV Verdade, da TV Alterosa, Ricardo Carlini, foi um dos destinatários de algumas cartas. Outras lhe foram apresentadas pelos defensores dos réus. Para ele, vários dos documentos se resumem em mera estratégia de defesa. “Não tenho dúvidas que qualquer comunicação do réu que está preso só se faz a partir da aprovação dos advogados. Algumas cartas, como as de Bola e Sérgio que divulgamos há dois anos, revelaram o desespero que pode ter sido passado sem o conhecimento dos defensores. Mas em outras, é nítida a mão do advogado”, avalia.


A última correspondência que se tornou pública foi anunciada como o grande trunfo dos defensores para conseguir a absolvição dos réus. Ela foi escrita Luiz Henrique Franco Timóteo, que foi casado com a mãe biológica do goleiro e está preso em Governador Valadares por tráfico de drogas. O padrasto que o jogador não chegou a conhecer pessoalmente afirmou que forneceu documentos falsos a Eliza Samudio para ela deixar o país. Com base no documento, a defesa do goleiro tentou, por meio de um recurso, incluir Timóteo como testemunha de defesa. No entanto, a juíza Marixa Fabiane Rodrigues, que presidirá o júri popular, indeferiu o pedido.

Controvérsias

Mais ajuda quem não atrapalha, diz o ditado. O que a maioria das cartas relacionadas ao chamado Caso Bruno fez foi dificultar as investigações ou, apenas, estimular a imaginação de muita gente. A primeira carta que surgiu, por exemplo, foi entregue a uma emissora de TV um mês depois que o sumiço de Eliza começou a ser investigado. A autora, uma suposta faxineira, dizia ter trabalhado no sítio do goleiro Bruno Fernandes enquanto a modelo e o filho dela eram mantidos reféns. Ela desmentia as primeiras apurações a respeito de quem executou a vítima. A Polícia Civil tinha a informação de que o assassino era um homem baixo, branco e forte, características de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. Porém, na correspondência a mulher o descrevia como alto, magro e negro, a quem chamou pelo nome de Emerson. À época, o então chefe do Departamento de Investigações, delegado Edson Moreira, afirmou que a carta era "apócrifa, sem valor de testemunho”.

Em agosto do mesmo ano, foi o próprio Bruno quem redigiu uma carta, endereçada ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O atleta relatou, com caneta azul em uma folha de caderno, que o advogado José Arteiro, que é assistente de acusação do caso, foi até a carceragem onde o jogador está preso, na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na Grande BH, para oferecer os seus serviços. Segundo o atleta, Arteiro teria ido ao local e dito a ele que se fosse contratado, conseguiria retirá-lo da cadeia, pois era amigo do delegado Edson Moreira.

Bruno disse que o advogado fez perguntas sobre o caso e o forçou a "falar coisas que não existia sobre o caso, sem sequer respeitar o seu colega de trabalho". O atleta também revela qual seria a estratégia de Arteiro. "Era pra mim dar um depoimento, jogando toda a situação para cima de Luiz Henrique, vulgo Macarrão, Marcos Aparecido, vulgo Bola, e o menor de idade que é o meu primo", contou o atleta. O documento chegou a ser avaliado pela OAB. Quatro meses depois, em dezembro, uma nova carta escrita pelo primo do goleiro e também réu do processo, Sérgio Rosa

Sales, foi entregue à juíza do Tribunal do Júri de Contagem, Marixa Rodrigues, com a promessa de mudar os rumos das investigações. Nela, Sales pede para depor novamente e afirma que o conteúdo dos dois depoimentos prestados à polícia, considerados as mais contundentes provas contra os nove acusados do crime, não eram inteiramente verdadeiros. No registro, Sérgio retirou o primo da cena do crime, alterando a primeira versão que ele apresentou na fase de inquérito policial. Ele ainda denunciou sofrer pressão de Macarrão e de alguns advogados para que obedecesse às instruções repassadas por eles.

Sérgio, que assim como Bruno, Macarrão e Bola, respondia pela acusação dos crimes de homicídios qualificado, cárcere privado e ocultação de cadáver, acabou sendo assassinado em agosto deste ano. Pouco depois de sua morte, uma carta que ele escreveu aos pais no ano anterior veio à tona. Nesta correspondência, o primo do jogador afirmou que seus depoimentos eram verdadeiros e que teve de mudar sua versão do crime após ser ameaçado por outros advogados do caso.

Alarme falso

Dois anos depois do desaparecimento da modelo, uma nova carta chegou às mãos dos policias responsáveis pelas investigações do caso. O documento, entregue à mãe de Eliza, Sônia Fátima Moura, 44 anos, era de uma mulher que afirmava saber onde estavam os restos mortais da modela. Ela afirmou que o corpo de Samudio havia sido jogado em um poço artesiano desativado no Bairro Planalto, na Região da Pampulha. O relato fez com que a Polícia Civil fizesse novas buscas pelo corpo. "Fizemos a vistoria para analisar o local e vê se tem algum ambiente onde o corpo possa estar escondido. Mas não encontramos nada. Concluímos que as informações são infundadas”, disse o delegado Wagner Pinto chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Pela culatra

Em julho deste ano, Bruno acabou sendo punido pela administração da Penitenciária Nelson Hungria, onde está preso desde julho de 2010 à espera do julgamento, por causa de duas cartas que ele próprio escreveu e foram remetidas desrespeitando o trâmite legal para envio de correspondências de dentro de uma unidade prisional. Na primeira correspondência, o atleta pedia ao amigo Macarrão que assumisse o crime contra Eliza Samudio. Nela, o goleiro dizia ter sido orientado pelos advogados a colocar em prática o “Plano B”, que seria imputar a responsabilidade pela morte da modelo sobre Luiz Henrique.
Com grande apelo emotivo, o goleiro chegou a pedir desculpas ao amigo de infância. “Eu, sinceramente, não pediria isso pra você, mas hoje não temos que pensar em nós somente! Temos uma grande responsabilidade que são nossas crianças, então, meu irmão, peço que pense nisso e do fundo do meu coração me perdoe, eu sempre fui e sempre serei homem com você”, escreveu.

Na segunda correspondência, revelada dias depois em um programa de televisão, o goleiro disse que era inocente e que seu maior erro foi ter confiado em algumas pessoas. Por causa das cartas, Bruno foi afastado temporariamente do trabalho de faxina que realiza diariamente na penitenciária, pois o documento não passou pelo crivo da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Ele teve suspenso por 20 dias o direito de tomar sol e receber visitas.

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