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Desafio é lidar com o talento de pequenos jogadores, diz psicóloga

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postado em 15/08/2010 13:40

Maurício Lara /Estado de Minas

Para a psicóloga Paula de Paula, a forma equivocada de lidar com o poder que adquirem graças ao talento com a bola nos pés acaba se transformando num dos maiores problemas para os jovens que se destacam e vão parar em grandes clubes de futebol. “Desde muito novos eles vão bebendo desse lugar de prestígio, por serem quem são”, diz a especialista. Para ela, isso pode fazer com que eles se esqueçam de princípios morais. “Vale qualquer coisa para manter o lugar de prestígio e isso até impede o jovem de dormir”, interpreta ela, que lida, no cotidiano, com as questões trazidas pelos atletas em formação.

Paula de Paula relata dilemas, como o do técnico que quer punir o jogador que não cumpriu as regras, como chegar no horário ou se cuidar durante a folga, mas que, pressionado pela necessidade de bons resultados nos jogos, acaba escalando o indisciplinado. Não fazer isso seria punir o clube, com a derrota em campo, em vez de punir o menino.

Significa que o técnico, que tem a ver com a formação técnica, tática, comportamental, física e moral, acaba impotente diante das transgressões. “Se o técnico toma para si essa responsabilidade, tem que esquecer que o time pode não ganhar, porque o craque pode ficar de fora”, argumenta a profissional, para quem o que funcionaria mesmo seria perder o lugar no time, por exemplo.

Instrumentos de pressão, como a cobrança de uma taxa para a “caixinha” dos jogadores, em caso de transgressões, acabam sendo uma faca de dois gumes, porque o menino pode aprender que, se pagar, está desculpado. “Ele já faz a conta da multa da caixinha”, lamenta ela, que completa: “O que a gente tem formado são atletas que, no fundo, sabem que podem resolver as questões via dinheiro. Aí, estamos com as portas abertas para todo tipo de infração moral”.

Para Paula, na cabeça do menino se instalaria uma visão do tipo: “Posso fazer o que quiser; se faço gol, estou protegido. Eu pago”. Na outra ponta, pressionado pela necessidade de oferecer bons resultados, o técnico cede. “Se não ganhar a partida, ele vai embora. Esse é o paradoxo. Na hora do vamos ver, o técnico coloca para jogar”, analisa. Segundo a psicóloga, a alternativa é trabalhar o grupo, que “pode ser muito mais poderoso na pressão do que qualquer conselho ou punição”.

Ela dá o exemplo de um jogador, um dos melhores do time, que discordou do técnico. Ele foi parar no consultório. “Ele disse: ‘Eu não dou o braço a torcer. Se não estiverem satisfeitos, que me mandem embora’.” Paula conta que usou o exemplo da situação vivida por Bruno para mostrar que o jogador não estaria acima dos limites. “Argumentei: ‘Você, que é bom de bola, acha que tem o direito de agir assim?’” Ela afirma que, no caso, a reflexão funcionou e o garoto entendeu que precisava mudar.

Ela traz outro exemplo, para mostrar como é difícil conciliar as questões de origem e formação com a perspectiva de fama e glória. Um menino estava abrindo mão das folgas, porque não queria ir para casa. Acabou contando à psicóloga que era aguardado por um irmão, para ajudá-lo a “quebrar um cara”. No caso, se o rapaz fosse ajudar o irmão, perderia a condição de, no futuro, ajudar a família toda. “Há um preço para mudar um atleta que vem de meios difíceis a ponto de não querer ir para casa”, constata ela.