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Defesa tenta calar testemunhas e blindar goleiro

Polícia ataca estratégia de desqualificar depoimentos que incriminam atleta. Trocas de advogados coincidem com silêncio de investigados e versões que beneficiam jogador

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postado em 17/07/2010 08:05 / atualizado em 17/07/2010 08:54

Pedro Rocha Franco

Sidney Lopes/EM/D.A.Press


A tentativa de desqualificar depoimentos das duas peças-chave do suposto assassinato da modelo Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno Fernandes de Souza, indica uma ofensiva da defesa para criar uma versão única – e favorável ao jogador – sobre o desaparecimento da atriz. O esquema supostamente armado para inocentar Bruno é apontado pelos investigadores que têm o desafio de desvendar o sumiço da jovem. “Há uma tentativa de desqualificar as principais testemunhas. Mas as versões de Sérgio Rosa Sales (o Camelo, primo de Bruno) e do menor (de 17 anos, que revelou como teria ocorrido o assassinato) são contundentes e têm laços”, contra-atacou na sexta-feira o chefe do Departamento de Investigações, delegado Edson Moreira.

Como os depoimentos são tidos como armas fundamentais para indiciar os suspeitos, um possível esvaziamento deles favorece os acusados.
A estratégia dos defensores do atleta inclui investidas para assumir a representação do maior número de suspeitos envolvidos na trama e assim facilitar a afinação dos depoimentos. Informações de bastidores revelam ainda tentativas de calar investigados que dão informações desfavoráveis ao jogador, com pressão para mudança dos profissionais que começaram a representá-los. A última mudança ocorreu exatamente na defesa do menor, que, com novo advogado, passou a recusar-se a dar mais informações à policia. Ainda não se sabe se a postura vai frustrar a intenção da polícia de confrontá-lo com Sérgio.

Além do silêncio recém-decretado, as contradições nos depoimentos do adolescente de 17 anos que mais detalhes revelou sobre o suposto crime vêm sendo usadas pela defesa dos suspeitos para tentar desqualificar o que ele já disse à polícia e ao Ministério Público. Em entrevista na sexta-feira ao Estado de Minas, a mãe do rapaz, assim como outros parentes, o apontaram como usuário de drogas, mentiroso compulsivo e portador de transtornos psicológicos, o que seria mais uma justificativa para invalidar a versão do principal colaborador das investigações.

A orientação do advogado sobre o que a mãe do jovem deveria ou não dizer ficou evidente enquanto ela era entrevistada. “Acho que ela (Eliza) pode estar viva por aí”, disse a mãe, sob olhar atento e instrutivo do advogado Eliérzer Jônatas Almeida Lima, que substitui João Roberto Cordoval Júnior na defesa do rapaz. A cada pergunta da equipe de reportagem, o defensor indicava, com movimentos de cabeça, se a resposta deveria ser afirmativa ou negativa.

A incomum disposição da família para classificar negativamente o menor não passou despercebida à polícia, para quem os argumentos não tiram a credibilidade do que o adolescente já revelou. “Os depoimentos dele sobre suas próprias passagens pelo mundo do crime, anteriores ao desaparecimento de Eliza, estão em consonância com a participação dele no sumiço da modelo”, contesta a chefe da Divisão de Homicídios de Contagem, delegada Ana Maria dos Santos.

Drogas

Mesmo com a confissão detalhada do filho à polícia, a mãe do menor que denunciou a trama para matar Eliza diz que, como o filho é usuário de drogas, ele não estava em condições de ser interrogado e parte considerável do que afirmou não passa de “sonho”. “Não sei se, quando fez a confissão, ele estava alterado”, sugere, acrescentando que “nem as coronhadas” ele deu. As afirmações, embora enfáticas, são baseadas tão somente nas orientações do advogado, uma vez que o primeiro contato dela com o filho depois das declarações ocorrerá somente na terça-feira, dia de visitas no Centro de Internação Provisória (Ceip) Dom Bosco, no Bairro Horto, Região Leste de BH.

Mais bem articulado, o advogado Eliézer reforça a tese do uso de drogas e diz que sequer participação no crime o adolescente teve. “Ele não estava em nenhuma cena de crime. No meio de um turbilhão, os acontecimentos o induziram a dizer certas coisas. Na frente de um policial, qualquer pessoa fica nervosa. O cidadão diz um sim ou um não quando questionado e dá-se a entender que ele deu uma informação”, sugeriu.

Na tentativa de blindar Bruno, o advogado adota o mesmo empenho usado na defesa de seu próprio cliente: “Até que me provem o contrário, não acredito na participação do Bruno. Duvido que ele tenha dado qualquer ordem”, afirma, com uma insinuação que empurra as suspeitas para outros envolvidos. “Eles devem ter um sentimento de dever e obrigação para com o jogador e podem ter tentado dar um susto na Eliza, para que parasse de pressionar o Bruno”, arrisca o advogado, referindo-se à pressão da modelo para que o atleta assumisse a paternidade de seu filho.

Outra tentativa clara é unir suspeitos sob a orientação de um mesmo defensor – no caso Ércio Quaresma, contratado por Bruno via Michel Assef Filho, advogado do Flamengo. Essa iniciativa levaria ao isolamento de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, acusado de executar a modelo e envolvido também em outras denúncias. Além de Bola, apenas o menor e Sérgio Rosa Sales não são representados pelo escritório de Quaresma. A defesa do adolescente foi trocada ontem. E o advogado de Sérgio, que como o menor também vinha colaborando com a polícia, só não foi substituído porque o investigado não assinou procuração para que a advogada Carla Silene assumisse o caso. Fontes do meio garantem que Silene tem ligações profissionais com o escritório de Quaresma, embora a advogada negue.

(Com Amanda Almeida)