Projeto Minas na TI empodera e une mulheres na área de tecnologia


Serena Fernandes já tinha feito todo o processo seletivo e tinha a certeza que arrasou na prova para uma vaga de desenvolvedora de software em uma grande empresa mineira. Recém-formada, ficou ainda mais confiante quando recebeu a ligação do gerente do setor, convidando-a para uma conversa na sede do que parecia um novo emprego. Só que depois de atravessar a cidade, o assunto não foi aquilo que ela esperava: “Queria te falar que você foi muito bem no nosso teste e surpreendeu, mas não posso te contratar, porque você é muito bonita e isso vai dar problemas na minha equipe”.

A justificativa foi um balde de água fria nas pretensões profissionais de Serena. Ela já sabia que teria que superar preconceitos e trabalhar em um ambiente predominantemente masculino quando escolheu sua carreira, mas foi surpreendida com o que parecia uma barreira intransponível. “Pensei que era um problema sem solução. Se eu era bonita era ruim, feia pior ainda. Achei que nunca conseguiria uma vaga na área, tudo iria me atrapalhar. E o pior é que o cara me chamou pessoalmente para falar isso, desse jeito. Ele achou que estava me fazendo um favor me chamando de bonita, que eu deveria ficar feliz com isso”, lamentou.

Ela não apenas persistiu como conseguiu empregos em algumas das mais importantes empresas de tecnologia do país. Pelo caminho, esbarrou em outras situações parecidas, mas também conheceu colegas que passaram e ainda passam por problemas semelhantes. Junto com Francieli Viane e Raquel Lemos, criaram o projeto Minas da TI, um grupo que empodera mulheres que atuam ou desejam atuar na área.

“Se você pedir para alguém elaborar uma lista de profissionais homens muito bons na área de TI, rapidamente teremos um monte de nomes. Já uma lista de mulheres não seria tão fácil. Para se destacar mais que os meninos, não basta que elas sejam melhores, é preciso uma diferença gritante. E como temos poucas referências na área, muitas se sentem intimidadas para começar”, constatou Francieli. “Nos conhecemos porque eramos as únicas mulheres desenvolvedoras na empresa. Passamos por momentos parecidos e decidimos nós unir. Poderíamos até fazer algo para melhorar apenas nosso ambiente de trabalho local, mas escolhemos auxiliar todas as outras que também passam por esses problemas no T.I.”, reforçou.

Nos encontros das Minas do TI, apenas elas participam. “Temos mulheres aprendendo e mulheres ensinando. Como o ambiente é totalmente feminino, elas se sentem muito mais confortáveis para falar, explicar técnicas e serem elas mesmas”, explicou Serena. O grupo é fechado para dar total confiança para as participantes, que podem adotar uma postura mais relaxada e aberta do que no ambiente de trabalho tomado pelo sexo masculino.

“Os homens que quiserem ajudar podem fazer isso indicando o grupo para mulheres da área, que possam palestrar ou aprender com a gente”, explicou Francieli. Como o objetivo é aprender, muitos encontros seguem o formato de dojo, um tipo de estrutura de treinamento inspirada em artes marciais e bem familiar para profissionais de T.I.. “No final do aprendizado, todo mundo tem a chance de participar um pouco e receber dicas”, acrescentou.

Com bons exemplos de profissionais mulheres ensinando, as iniciantes também podem encontrar nelas uma referência de sucesso. Em uma das empresas que trabalhou, Serena conheceu uma menina que tinha formação na área e poderia buscar uma vaga como programadora, mas como acontece regularmente na área de T.I., foi alocada como suporte. “O machismo impediu ela até de tentar”, lembrou. “Mas agora ela participa do nosso grupo e imagino que logo vai ter confiança e qualificação para trabalhar com o que ela quer de verdade”.

Francieli reforçou a importância de mostrar que mulheres não apenas podem como já são bem sucedidas: “É empoderamento. Nós passamos por muita coisa na sociedade, muita gente dizendo que não podemos fazer isso ou aquilo. No Minas na TI, temos um lugar de fazer o que queremos”, ponderou ela.

Para Serena, o proposito do grupo é a oportunidade: “Se eu tivesse conhecido um grupo assim na época da faculdade, teria muito incentivo e chances de crescer na área que eu quero e escolhi”, concluiu.

O próximo encontro das Minas da TI será no sábado, dia 27 de agosto. Quem quiser conhecer, se arriscar e quem sabe começar uma carreira brilhante, pode se inscrever e saber mais aqui.

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