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Equipe aguarda liberação de recursos
'Sou livre, livre como um pássaro'

Da prisão da mente à vida nos corredores

Últimos 146 pacientes aguardam criação de residências para deixar o antigo Hospital Colônia. A média de idade é de 65 e o tempo médio de internação de 49 anos

Renan Damasceno

 

 

Barbacena – A Segunda Guerra Mundial acabara oficialmente havia duas semanas quando Perciliana Maria dos Santos, hoje com 97 anos, deu entrada no Hospital Colônia, em 19 de setembro de 1945. José Antônio Isaías, atualmente com 91, ingressou nos imensos pavilhões do sanatório dois anos depois, em 20 de julho de 1947. Sueli da Silva, hoje com 59, chegou a Barbacena no fim dos anos 1960, junto com um grupo de crianças de Oliveira, na Região Centro-Oeste de Minas. Eles são três dos últimos 146 pacientes internados no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), privados de liberdade e testemunhas da barbárie que a jornalista mineira Daniela Arbex denominou de “holocausto brasileiro” em seu livro de mesmo nome, lançado em 2013.

A média de idade dos últimos sobreviventes é de 65 anos e o tempo médio de internação, 49, sendo que é considerado longa permanência qualquer internação acima de 12 meses, segundo a Portaria 2840 do Ministério da Saúde, de 2014. Por causa da idade, boa parte dos pacientes necessitam de cuidados especiais e pouco se comunicam – caso de Perciliana e José Antônio, os mais antigos. Devido ao longo tempo de internação, ampla maioria perdeu seus vínculos sociais, foi abandonada pela família e há dificuldade de localizar parentes vivos.

“Vim pra cá criança. Meus pais falaram que vinham me buscar, mas não vieram”, conta Sueli, que transita pela imensa área do hospital – cerca de 3,3 milhões de m², em um bairro da cidade –, e representa bem os impasses e incertezas do futuro dos últimos 146 pacientes: divididos entre o sonho de liberdade e a incerteza do que vão encontrar do lado de fora dos muros.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A. Press
 

Segundo Wander Lopes, diretor hospitalar do CHPB, a Secretaria Estadual da Saúde estabeleceu uma meta de desinstitucionalizar 50 pacientes por semestre para que não haja mais pacientes de longa permanência até o fim do ano que vem. “Eu não sei se vai conseguir. Desde que a gente consiga que esses entes consigam efetivamente criar possibilidades para pessoas morar fora daqui…”, afirma o diretor, ressaltando a particularidade de cada caso: há pacientes que dependem de medicamentos, cuidados especiais ou de acessibilidade, como dona Eunice Alves, internada desde 1964, que vive em cadeira de rodas.

Nos últimos anos, a média de desinstitucionalização tem sido de duas e quatro saídas por trimestre. Ou seja: para cumprir a meta, o hospital terá que promover em 18 meses o mesmo número de alta dos últimos 16 anos, uma vez que desde 2001, quando foi aprovada a Lei Paulo Delgado, que extingue a internação de longo prazo, o hospital promoveu 154 altas. Outros 185 morreram. “Nós acreditamos que todas as pessoas, independentemente de suas limitações, elas têm possibilidade de morar lá fora. Nossa dificuldade é para onde encaminhar essas pessoas.”, afirma a psicóloga Hildaléa Dias.

 

 

TRATAMENTO SINGULAR

Quem chega hoje ao imenso espaço do CHPB – uma das cinco unidades do Complexo de Saúde Mental da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) – encontra resquício da barbárie do século passado apenas na arquitetura colonial. O tratamento e leitos são completamente diferentes dos pavilhões e pátios lotados. Com o início da reforma psiquiátrica, os tratamentos passaram a ser mais singularizados, respeitando o indivíduo. Pacientes hoje contam com quartos individuais e os mais comprometidos, que vivem em quartos coletivos tem guarda-roupas, quadros na parede e fotografias. Além dos pavilhões, o CHPB criou a modalidade de Casa Lar: são dois espaços, dentro da área do hospital, com formato de casa, com cozinha, sala de TV e estrutura independentes, que abrigam até oito pessoas. “O esforço é para que moradores, pacientes, estejam cada vez mais inseridos na cidade, que circule como outra pessoa qualquer”, conta a psicóloga Luísa Lopes Cunha, da coordenação ambulatorial do hospital.