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Da prisão da mente à vida nos corredores
Eles venceram a 'Cidade dos Loucos'

'Sou livre, livre como um pássaro'

As casas terapêuticas devolveram a dignidade e, principalmente, a singularidade no tratamento de cada paciente, que passou a ser compreendido de acordo com suas necessidades particulares

Renan Damasceno

Gladyston Rodrigues/EM/D.A. Press
 

 

Barbacena – Porta-retratos sobre a estante da sala, quadros na parede, risos na sala em torno da televisão que exibe a novela das 18h. É início de noite quando chegamos à casa de Marisa Cristina, que logo se apressa em passar o café, servido com bolo de padaria. “Lá no hospital era muito fechado, não podia sair, as enfermeiras ficavam chamando a nossa atenção, xingando. Aqui na casinha tenho minha chave, meu quarto, minhas amigas”, conta Mariza, ex-paciente da Casa de Saúde Santa Izabel, que hoje divide a construção de quatro quartos com outras sete mulheres, todas ex-internas de hospitais psiquiátricos. Cada uma tem sua chave, administra seu próprio dinheiro. Cada casa tem até quatro cuidadores, que se revezam em turnos de 12 por 36 horas.

As residências são criadas de acordo com a necessidade. O município solicita verba ao Ministério da Saúde, que libera inicialmente R$ 20 mil para mobília e adaptações do imóvel. Cada morador é mantido pelo governo federal, em valores mensais que variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, de acordo com os cuidados necessários.

“Aqui tenho liberdade. No hospital, se a gente sorria, eles perguntavam por quê. Lá ninguém tinha alegria. Hoje eu tenho alegria”, conta Germânio, que conseguiu completar o ensino médio e hoje tenta ingressar na faculdade pelo Enem. “Era uma tortura a vida no hospital. Quantas vezes eles me amarraram as mãos, os pés e eu amanhecia com o corpo quebrado, cabeça rodando…”, conta Bento Márcio, que vivia rotina de internação em várias instituições, entre elas o CHPB, desde 1984, quando tentou suicídio. “Quando saiu a vaga nas casas, primeiro, achei que não ia me acostumar, pois sou caladão, mas fui me acostumando e hoje não penso em sair.”

 

ORGULHO E PRECONCEITO – A primeira residência em Barbacena foi aberta no fim de 1999, na continuidade da reforma psiquiátrica. A criação foi acelerada a partir de 2001, quando da aprovação da Lei Paulo Delgado e do fechamento do Sanatório Barbacena. Em 18 anos, mais de 300 pessoas trocaram hospitais pelas casas.

 “O preconceito existe. O louco representa periculosidade e incapacidade. Então, existe um estigma muito forte sobre esse sujeito. A gente tenta fazer um trabalho cultural no sentido de que a população entenda quem são essas pessoas”, afirma Leandra Vidal, assistente social e coordenadora das residências terapêuticas. “Vizinhos de residências terapêuticas têm nível de preconceito muito menor, porque a convivência vai se dando no dia a dia. Eles passam a compreender essas pessoas.”

As casas terapêuticas devolveram a dignidade e, principalmente, a singularidade no tratamento de cada paciente, que passou a ser compreendido de acordo com suas necessidades particulares. “Do passado, desculpe, eu não gosto de falar”, é o primeiro comentário de Geraldo Antônio da Silva, internado por décadas no CHPB. “Hoje tenho liberdade de ir e voltar. A sensação que tenho é que sou livre, livre com um pássaro.”