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Os dez anos dos atentados de 11 de setembro e suas repercussões para o Oriente Médio

Prof. Danny Zahreddine - Chefe do Departamento e Coordenador do Curso de Relações Internacionais da PUC Minas

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postado em 08/09/2011 19:13 / atualizado em 09/09/2011 08:33

Desde os atentados do dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o mundo vem sentindo as consequências destas ações. Os atentados não geraram mudanças no ordenamento mundial, como alguns tentam defender, mas sim transformações substantivas na condução da política doméstica e externa dos EUA.

Arquivo Pessoal
Em todo mundo os desdobramentos foram sentidos em intensidades distintas, sendo que em determinadas regiões, tais repercussões foram mais profundas. Este foi o caso do Oriente Médio, região extremamente importante para a geopolítica estadunidense, que sofreu várias intervenções militares dos EUA com o pretexto de combater o terrorismo internacional.

Os ataques terroristas de 11 de setembro ocorreram no início do mandato do presidente republicano George W. Bush, que conduziu uma política externa extremamente agressiva como resposta à agressão, levando a cabo duas grandes intervenções militares (Afeganistão em 2001, e Iraque em 2003); a utilização da prisão de Guantánamo (em Cuba) para aprisionar suspeitos de terrorismo sem direito a defesa, bem como a criação da Doutrina Bush, que defendia o uso da Guerra Preventiva.

Como a rede terrorista al Qaeda estava envolvida nos ataques, a atenção do governo estadunidense se voltou para o mundo muçulmano e para o Oriente Médio. A “luta contra o terrorismo”, liderada pelo presidente estadunidense teve como foco os principais desafetos do governo americano, o que foi denominado por ele como o “Eixo do Mal” formado por Iraque, Irã e Coréia do Norte. A islamofobia cresceu enormemente nos Estados Unidos e na Europa, o que gerou desdobramentos negativos para as relações entre países árabes, islâmicos e os EUA.

A Invasão do Afeganistão ocorreu em função da recusa do grupo que estava no poder naquele país (os Talibãs), em entregar Osama Bin Laden, considerado o mentor dos Ataques de 11 de setembro. Em aproximadamente um mês após os atentados os Estados Unidos empreenderam uma ação militar contra aquele país, que culminou com a derrubada do governo Talibã, e a criação de uma base avançada estadunidense na fronteira com o Irã, outro Estado contrário à política estadunidense na região.

Já a Segunda Guerra do Golfo, em 2003, foi uma ação conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido, que resultou na invasão do Iraque, acusado de manter armas de destruição em massa que poderiam ser usadas por grupos terroristas ou até mesmo pelo presidente Saddan Hussein.

Esta segunda intervenção no Oriente Médio demonstrou claramente que a utilização da “Luta contra o terrorismo” no caso iraquiano, era mais um pretexto para uma política de intervenção regional, e para fins eleitorais, do que pela busca por armas de destruição em massa ou terroristas. Depois de exaustivas discussões no âmbito do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e após inspeções de equipes enviadas pela ONU ao Iraque, lideradas por Hans Blix, o mesmo declarou que não era possível determinar que o Iraque possuía armas de destruição em massa, o que evitaria uma ação militar contra aquele país.

Mesmo assim, a chancelaria estadunidense tentou aprovar uma resolução no Conselho de Segurança que autorizasse uma intervenção militar no Iraque, o que foi rejeitada por China, Rússia e França, que sinalizaram vetar a resolução. Com a recusa de três membros permanentes do Conselho de Segurança, os EUA decidiram agir sem o aval das Nações Unidas, e com o apoio do Reino Unido e de algumas outras nações, empreenderam uma ação armada contra o Iraque.

Isto demonstra que a política externa estadunidense com relação ao Afeganistão e ao Iraque após os atentados de 11 de setembro refletiu mais os interesses políticos da gestão Bush, que possuía baixíssimos índices de aprovação popular logo após sua posse, do que uma ação planejada com o intuito de resguardar a segurança dos EUA. As ações no Afeganistão e no Iraque garantiram o apoio popular ao presidente Bush para sua reeleição, e os efeitos nefastos destas ações só seriam sentidos ao final de seu segundo mandato, com um grande número de soldados estadunidenses mortos, dois países no Oriente Médio destruídos, e um rombo nas contas públicas dos Estados Unidos, advindos dos gastos militares.

As relações entre os EUA e os países do Oriente Médio, excetuando seus tradicionais aliados, como Israel, Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Turquia, se tornou cada vez mais difícil, muito em função das ações adotadas pelo governo George W. Bush após os ataques terroristas de 11 de setembro.

Dez anos após os atentados, e com a presidência de Barack Obama nos Estados Unidos, as relações melhoraram razoavelmente, mesmo com a manutenção da tensão com o Irã e a instabilidade no Iraque e no Afeganistão. Além disto, a Primavera Árabe têm transformado substancialmente as correlações de força na região, em função da saída de antigos ditadores e pela possibilidade de transformação democrática destes países. Com a morte de Osama Bin Laden, e o enfraquecimento da rede terrorista al Qaeda, a doutrina Bush parece cair no esquecimento, e os efeitos políticos da luta contra o terrorismo para o Oriente Médio pode entrar em uma nova fase, mais sóbria, menos política, e com o objetivo real de evitar ataques contra civis, e não como ferramenta de intervenção internacional.
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