Morro do Pilar vive desafio de criar infraestrutura para suportar megaprojeto

Sob impacto de investimentos de R$ 6,6 bilhões para exploração de minério de ferro, município terá de se reinventar para abrigar projeto que deve gerar 2 mil empregos

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postado em 14/10/2013 06:00 / atualizado em 14/10/2013 07:17

Marta Vieira

 Jair Amaral/EM/D.A Press

Trânsito intenso, filas para comprar remédio e sacar dinheiro em caixas eletrônicos, especulação imobiliária, além de picos de energia frequentes transformam o ambiente bucólico que faz do município de Morro do Pilar um dos lugarejos mais preservados aos pés da Serra do Espinhaço, na Região Central de Minas Gerais. Os ares de cidade grande, com problemas típicos do crescimento desordenado, invadiram a cidade de apenas 3,5 mil habitantes e um minúsculo orçamento de R$ 14 milhões neste ano, depois que o minério de ferro pobre das jazidas abundantes do estado ganhou valor no mercado internacional, atraindo grandes e pequenas mineradoras.


Sem que a população tivesse tempo de se preparar, Morro do Pilar incorporou há menos de um ano na rotina o vaivém de cerca de 1 mil trabalhadores, picapes, ônibus e caminhões a serviço da multinacional Anglo American, um dos maiores conglomerados da mineração no mundo que explora minério de ferro na vizinha Conceição do Mato Dentro, e da Manabi S/A, companhia criada em 2011 com recursos de investidores asiáticos. Para uma economia baseada na agricultura de subsistência e no turismo incipiente oferecido pelas cachoeiras, é só um primeiro teste. Moradores, a prefeitura local e o governo mineiro já discutem como erguer uma nova Morro do Pilar para abrigar o megaprojeto recém-anunciado de extração de ferro da Manabi, avaliado em R$ 6,6 bilhões.

 Jair Amaral/EM/D.A Press
Por trás da promessa de desenvolvimento econômico e de geração de 2 mil empregos no quadro de pessoal da mineradora, a tarefa de construir infraestrutura urbana suficente para suportar as dimensões do empreendimento desafia o tempo. A população poderá triplicar em menos de quatro anos, algo ainda difícil de imaginar para Marlene Assis Duarte, dona do único posto de gasolina da cidade, testemunha do tráfego carregado no entorno da Praça Monsenhor Horta, referência do Centro. “Para os filhos de Morro do Pilar é como se estivéssemos em outra cidade. O sossego e o silêncio acabaram. Há o lado positivo do desenvolvimento que as empresas trazem, mas a cidade tem de ser preparada para isso”, afirma.

O negócio da venda de combustíveis reflete o duplo efeito das mudanças. A demanda nas bombas de gasolina e diesel cresceu 30%, enquanto no escritório a comerciante se desdobra para evitar prejuízo com a falta de energia, que se tornou constante há um mês e inutilizou um computador. O risco de ter de bancar o prejuízo com os picos de luz também preocupa Ricardo de Oliveira Santos, dono da Padaria e Mercearia União, que inicia a jornada às 4h30, na expectativa de ver a cidade crescer e dar ao filho Ricardo Júnior, de 8 anos, a chance de seguir uma boa carreira profissional sem ter de deixar o município, como muitos outros jovens fizeram.

Jair Amaral/EM/D.A Press
Há 10 dias, a padaria ficou às escuras durante seis horas. “A sorte é que o congelador estava bem refrigerado. Conversas há demais, o que espero é que a situação do município melhore e o progresso chegue”, diz Ricardo Santos. O temor dos comerciantes faz todo sentido, reconhece a prefeita Vilma Maria Diniz Gonçalves, do PTC, que trabalha na definição de projetos de infraestrutura desde o traçado das ruas à educação, e num plano diretor para dar condições ao município de receber o megaprojeto de mineração. “Tem de haver uma ação integrada rápida com o governo do estado e a empresa para estruturarmos uma cidade que estava esquecida e agora ganha perspectiva de desenvolvimento”, diz.

Reforço geral Episódio inédito em Morro do Pilar, assaltos a quatro estabelecimentos comerciais foram registrados depois de o município ter enfrentado 36 horas sem energia há menos de duas semanas. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), por meio de sua assessoria de imprensa, informou estar investindo R$ 140 mil em serviços de modernização da rede de energia que atende a cidade para evitar novos apagões. Segundo a empresa, medidas preventivas também estão sendo tomadas para regularizar o fornecimento.

Não sem motivo a preocupação com a segurança cresceu e o crescimento da população que circula em Morro do Pilar exige mais do comandante local da Polícia Militar, o cabo Adelmo Almeida. “O telefone celular fica ligado nas 24 horas do dia”, observa. Dos seis policiais que trabalhavam no município há quase três anos, ficaram três, mas ele espera a destinação de pelos menos mais cinco homens para reforçar o policiamento.

A Manabi informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que vai acompanhar a execução de quatro convênios assinados com a prefeitura – no valor total de R$ 50 milhões –“que têm como finalidade preparar o município para receber os investimentos do empreendimento da Manabi e reduzir os impactos que as obras de construção da unidade industrial possam causar à população”. O desembolso do dinheiro, de acordo com a empresa, será feito após a entrega dos projetos pelo poder local.

Pioneirismo

Morro do Pilar tem raízes no setor minerometalúrgico, embora a vocação tenha ficado esquecida. O município é conhecido pelos especialistas da área por ter sido o local em que Manoel Ferreira Câmara Bitencourt e Sá, o Intendente Câmara, pioneiro da siderurgia no Brasil, realizou a primeira corrida de ferro-gusa (matéria-prima da fabricação de aço) em alto-forno na América Latina. A cidade comemora, neste ano, o aniversário de 200 anos da façanha, empenhada em construir uma réplica do equipamento e lançar um livro contendo documentos que relatam a história dos morrenses.

Terra de oportunidades

Nem a Prefeitura de Morro do Pilar escapou da especulação que aproximou os valores dos aluguéis das ofertas encontradas em zonas valorizadas da capital mineira, se aproveitando da chegada das empresas prestadoras de serviços às mineradoras. Espremida num sobrado histórico de dois andares, a máquina administrativa transferiu as áreas de licitação, tesouraria e o departamento jurídico para acomodações modestas num prédio comercial alugadas por R$ 7.800 por mês.

Os aluguéis residenciais saltaram de preços próximos do salário mínimo à faixa de R$ 3,5 mil por uma casa de três quartos. Convencido de que o megaprojeto da Manabi representa a única chance de crescimento do município, o vereador do PSDB Geovane de Matos Teixeira decidiu alugar a casa em que mora para usar os recursos como investimento, a exemplo do que outros moradores fizeram. Com cinco quartos, a casa dele foi alugada há quatro meses por R$ 5 mil mensais, dinheiro que está sendo investido na construção civil, enquanto ele se abriga na casa do pai, Gésio Coelho.

“As oportunidades surgem com o desenvolvimento que está chegando ao município”, diz Matos Teixeira. O segmento de hospedagem e alimentação é um dos primeiros a se movimentar, quando há um ano era representado por uma única pousada. Ex-empregada doméstica, Lúcia Fernandes da Silva usou o tino para os negócios e a capacidade de trabalho para ampliar a Pousada e Restaurante São José, que mantém com o marido desde 1998.

Com lotação completa, graças à chegada dos trabalhadores, contratou cinco funcionários e investiu todo o dinheiro ganho nos serviços de hospedagem e na venda de 600 refeições por dia, demanda que cresceu 10 vezes. O novo negócio consiste em mais 30 quartos num segundo imóvel adquirido na cidade. “Quero estar funcionando no novo endereço em 2015, se Deus quiser. Precisamos de estruturar a cidade para ter desenvolvimento junto com os trabalhadores que virão”, afirma.

A Manabi está na etapa de detalhamento dos projetos de engenharia e na estruturação dos processos de operação da reserva de minério de ferro. A companhia informou ter elaborado e entregue aos órgãos ambientais o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), documentos necessários para obter a licença prévia do empreendimento. Não foi informada a estimativa de geração de impostos, que, segundo a companhia, pode sofrer mudanças em decorrência das votações do novo marco regulatório da mineração, em análise na Câmara dos Deputados. A Anglo American, por sua vez, informou manter 400 trabalhadores que moram em Morro do Pilar, como parte do grupo que conduz as obras de um mineroduto previsto no seu projeto Minas-Rio, em Conceição do Mato Dentro.

Planejar é preciso

Como se constrói uma cidade balançada por um megaempreendimento é no que a prefeitura e o estado tentam trabalhar, na contramão do ritmo arrastado de ação típico do setor público no Brasil. Não há precedentes, pelo menos recentes, na história do estado, diz o subsecretário de Desenvolvimento Minerometalúrgico e Política Energética de Minas, Paulo Sérgio Machado Ribeiro. “O município depende de uma atenção especial e estamos trabalhando nisso, mas entendemos que Morro do Pilar terá benefícios a médio prazo com o empreendimento”, afirma.

A prefeita Vilma Gonçalves pediu mais rapidez e integração dos órgãos do governo estadual para desenvolver os projetos que vão estruturar a nova cidade. O asfalto só chegou há um ano para ligar o município à MG-010 e a receita local do Fundo de Participação dos Municípios nem sempre alcança R$ 500 mil mensais. O posto de saúde está sendo reformado, mas a arrecadação não será suficiente para o projeto de transformá-lo em Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Há menos de 500 alunos atendidos por trêscolas, estadual, municipal e rural. “A prefeitura arca com o tratamento de água, mas não temos nem um metro cúbico sequer de esgoto tratado. Precisamos de um projeto de desenvolvimento sustentável para 30 anos e que estimule o turismo”, afirma.

A superintendente executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas, diz que a chamada licença social do empreendimento de mineração é fundamental, demonstrando que a Manabi respeitará os limites legais à atividade, a cultura local e cumprirá com suas obrigações para controlar os impactos ambientais. “A comunidade não está disposta a aceitar qualquer coisa. Sob o princípio de que a lei não proíbe a mineração, o empreendimento tem de ser feito da melhor forma”, afirma.

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