
Mas o aumento do consumo de itens industrializados e a rendição das fábricas nacionais à penetração de competidores externos, sobretudo asiáticos, evidenciaram a urgência da inovação. O governo até tentou reverter o quadro, mas o investimento privado continua tímido. Para economistas, se o quadro não mudar restarão como armas apenas a desvalorização do real e o protecionismo comercial.
A liderança da inovação brasileira em certos ramos – Petrobras (exploração de petróleo e gás em águas profundas), Embrapa (genética da agropecuária tropical) e Embraer (aeronaves da aviação regional) – só confirma a regra da desconexão entre ideias inovadoras e investimento industrial privado. Em seguida às três grandes e unânimes exceções, surge um segundo grupo, formado pela Marco Polo (ônibus), pela Natura (cosmésticos), pela WEG (motores elétricos) e por fabricantes de máquinas agrícolas, entre outros. Mas a realidade que incomoda é a de manufaturados de fora ocupando rápido as prateleiras e os componentes importados avançando nos produtos made in Brazil.
Luiz Ricardo Cavalcante, diretor do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), do governo, descreve duas razões para que o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) não seja algo normal para o empresariado nacional. A primeira está baseada no fato de a maioria dos setores econômicos ter base tecnológica baixa ou média, como o têxtil. A outra é que as fábricas de multinacionais no país importam quase toda a sua inovação das matrizes. “A despeito dos obstáculos de nossa estrutura fabril, investir em P&D seria a maneira mais óbvia para melhorar nossa combalida produtividade”, acrescenta.
O Brasil investe 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em inovação, metade da média global, sendo a maior parte dos recursos (55%) vindos do setor público. No resto do mundo, a situação é inversa, com predomínio do dinheiro privado. No Japão e nos Estados Unidos, essa proporção chega a 75%. A Coreia do Sul usa 3,4% do PIB em P&D, quase o triplo do Brasil. “As empresas deveriam reagir para elevar esse percentual para 2,5%”, defende Cavalcante.
Carlos Américo Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), vê na cultura de baixa exposição ao risco o maior gargalo para as políticas de inovação. “As indústrias nacionais não fazem a sua parte e preferem importar tecnologia na forma de máquinas ou dos próprios produtos que vende”, lamenta. Ele cita o caso de fabricantes locais de aparelhos eletrônicos que se valem apenas da marca, dos canais de distribuição e da rede de assistência técnica para ocupar uma parcela do mercado. “Não há soluções simples para esse quadro. A agenda é longa, indo desde a formação de recursos humanos, a laboratórios e subsídios”, completa.
PLATAFORMA LOCAL Adriana Machado, presidente da GE do Brasil, acredita que uma multinacional pode, sim, investir no desenvolvimento regionalizado de tecnologias, com foco nas necessidades locais. Ela cita o primeiro Centro de Pesquisas Global de sua empresa na América Latina, o quinto no mundo, em construção no Rio de Janeiro, com investimentos de R$ 500 milhões e inauguração prevista para 2014. “O projeto já conta com 80 pesquisadores, focados em bioenergia e exploração de petróleo no mar, entre outras áreas”.
Para Mauro Kern, vice-presidente da Embraer, houve avanços importantes no ambiente para a inovação no país. “Há um reconhecimento crescente dos diversos setores quanto à importância da adoção de políticas públicas, com destaque ao aumento da produção científica e do número de pesquisadores”, diz. Mas ele ressalta que, para inovar, setores produtivos requerem menos burocracia, melhor infraestrutura, alívio da carga tributária, novas formas de fomento e, acima de tudo, investimento permanente na educação e na formação profissional. (Colaborou Juliana Borre)
Três perguntas para...
Ozires Silva, ex- ministro de Infraestrutura
O senhor ainda acredita que a inovação pode levar o Brasil a ser uma economia desenvolvida?
Sou muito otimista com o Brasil e acredito firmemente em seu grande potencial. Mas não estou gostando nada do que estão fazendo com o país. Receio que o nosso sistema político não nos levará ao êxito merecido. Se antes não conseguíamos planejar a longo prazo em razão de turbulências econômicas, atualmente abdicamos de fazer qualquer planejamento. E o que mais precisamos é de um plano para a nação porque o futuro precisa ser planejado. Nesse sentido, a inovação deveria estar no centro da estratégia nacional, simplesmente pelo fato de que tecnologia se populariza no consumo.
Como a aposta na tecnologia pode garantir a um país ou a uma empresa novos mercados?
Sempre lembro que acabou faz muito tempo aquela velha ideia de que a crescente demanda mundial por alimentos, puxada pelo aumento da população, só poderia ser atendida se houvesse uma correspondente ampliação das áreas cultivadas. As soluções inovadores fazem a ruptura necessária, como fez a nossa Embrapa, em 40 anos de história. Mas também gosto de ressaltar que a escola é a base de todas essas mudanças radicais, derrubando fórmulas que não servem mais.
Os empresários estão conscientes da necessidade de inovar para competir globalmente?
Estão, mas são tantas as questões a serem solucionadas que a inovação acaba ficando em segundo plano. Precisamos melhorar a logística e a formação de recursos humanos, além de reduzir a burocracia. Mas, lamentavelmente, nenhuma das reformas econômicas necessárias ocorre. Essas falhas ficaram evidentes no desempenho das transações correntes. O capital estrangeiro não virá mais com tanta intensidade. Nossos dados concretos não mais empolgam gente lá fora. Estamos no baile mundial e temos de dançar sua música. Não temos poder para trocar a partitura.
