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Estado de Minas

Preços de petiscos variam até 161% em bares de BH

Valor cobrado pelo prato concorrente é bem semelhante, o que exige atenção redobrada do consumidor para os outros preços do cardápio. Caipirinha, por exemplo, varia até 100%


postado em 29/04/2013 06:00 / atualizado em 29/04/2013 07:39

Minas não tem mar, mas tem bar. E eles estão fervendo com a 14ª edição do Comida di Buteco. Apesar do custo atrativo para o consumidor dos pratos que concorrem ao título de campeão do festival, a conta pode surpreender no almoço ou jantar. As diferenças entre os preços cobrados pelos concorrentes pesam no consumo dos acompanhamentos, dos petiscos à cerveja e o refrigerante, que podem custar mais do dobro, dependendo do estabelecimento escolhido. Levantamento feito pelo site de pesquisas Mercado Mineiro em 40 bares participantes do tradicional concurso de nove regiões de Belo Horizonte mostra variação inferior a 10% nos preços das estrelas da festa gastronômica, os tira-gostos com linguiça e mandioca. No restante do cardápio, a prosa muda.

O que o cliente nem sempre percebe é que nas entradas e demais opções oferecidas há disparidades entre os preços de até 160,9%, a exemplo da porção de mandioca frita, encontrada a R$ 6,90 e a R$ 18, maior valor verificado pelos pesquisadores. Os custos das bebidas variam de 11,1% pelo chope a 100% por um suco de laranja. A pesquisa foi realizada entre terça e quinta-feira passadas. “Observamos que, apesar de os preços dos pratos que estão participando do concurso serem razoáveis, entre R$ 20,90 e R$ 22,90, existe grande variação entre os petiscos que estão fora do Comida di Buteco. A diferença atinge também a cerveja, refrigerantes em lata e outras bebidas, como a caipirinha”, alerta Feliciano Abreu, diretor-executivo do Mercado Mineiro.

Amplie e veja preços de outros petiscos
Amplie e veja preços de outros petiscos
É o caso das carnes na chapa ou na brasa, vendidas como especialidade em diversos restaurantes. A porção de meio quilo de picanha é encontrada a preços variando de R$ 35,90 a R$ 59,90, diferença de 66,9%. O menor preço da garrafa da cerveja Bohemia, R$ 5,20, foi encontrado na Região Norte da capital e o maior, R$ 7,50, na Oeste, perfazendo variação de 44,2%. A porção de batata frita na hora custa de R$ 8 na Região Leste da capital a
R$ 18 na Zona Sul. Quem optar pelo suco de laranja, vai pagar R$ 5 na Zona Oeste e a metade disso no Centro da cidade.

Feliciano Abreu lembra que as despesas em bares são frequentes no orçamento do mineiro, já que se trata de um lazer tradicional tanto de homens e mulheres solteiros quanto de famílias e, por isso mesmo, variações de preços exorbitantes sacrificam o bolso. Consumidores que estão percorrendo os bares participantes do Comida di Buteco vão perceber que, na capital mineira, em uma única porção é possível economizar quase R$ 50.

Diferenças


O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG), Fernando Junior, diz que alguns fatores motivam a diferença de preços. Em pedidos como a picanha na chapa, ele cita a variedade de custos da matéria-prima. “Antigamente, só existiam carnes de primeira e de segunda. Hoje, essa classificação mudou e a variação de preços para um mesmo produto é bem grande”, argumenta. Reduzir os preços também pode fazer parte da estratégia do estabelecimento para atrair novos clientes. “É uma forma de fazer a demanda crescer”, pondera Junior.
Paulo Benevides, o chef Bené, sócio-proprietário do Bar Temático, de Santa Tereza, na Zona Leste de BH, afirma que a disparidade de preços da picanha se justifica quando analisada a procedência do corte. “Existe picanha de primeira e aquela de qualidade bem inferior. Há quem compre o quilo da carne a R$ 19 e a R$ 32”, diz.

Rafaella Xavier (E) já mudou de bar depois de comparar os preços cobrados(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Rafaella Xavier (E) já mudou de bar depois de comparar os preços cobrados (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
O presidente da Abrasel destaca ainda a influência da localização do bar nos custos da casa. O local costuma determinar o preço do aluguel, o que se reflete nos preços dos produtos. “Em algumas regiões, o aluguel se tornou exorbitante”, afirma. Por fim, ele pondera que as empresas familiares, onde os funcionários são os próprios donos, conseguem reduzir o peso da carga tributária, que chega a 33% do faturamento do negócio. Nesses casos, há economia com os tributos trabalhistas.

Paulo Benevides concorda com o argumento da localização do estabelecimento, mas admite que variações tão expressivas quanto apurou o Mercado Mineiro não têm explicação. Ele aponta as porções de batata frita, que, em geral, são preparadas a partir do produto congelado, comprado pronto para ir à frigideira, e as bebidas. Uma única exceção, neste item do cardápio, seriam a caipivodka e a caipirinha, cujos preços dependem das marcas usadas nos drinques. Bené diz que o correto é avisar o consumidor sobre as marcas disponíveis, para que ele decida o preço que deseja pagar.

Critérios dividem clientela

Os consumidores atentos aos gastos nos bares rebatem as explicações dos donos dos estabelecimentos, mas se dividem na hora de escolher o bar que frequentam. Boa parte sobrepõe aos preços a escolha pelos critérios do ambiente prazeroso, frequentado por amigos, com bom atendimento e próximo de casa. Na outra ponta, há quem se recuse a pagar mais caro por isso. Neste segundo grupo está a estudante Rafaella Xavier, de 18 anos, que conta já ter deixado o restaurante escolhido em troca do concorrente, ao lado, depois de conferir os cardápios. “Não aceito diferenças tão absurdas de preços”, afirma, ao lado da mãe, a dona de casa Rosilene Xavier Alves, de 40 anos, ao experimentar um dos pratos do Comida di Buteco na sexta-feira, regado a caipvodka.

As amigas de Rafaella, Júlia Ferraz e Beatriz Lobato, de 18, também questionam as justificativas dos bares para a disparidade de preços identificada na pesquisa do site Mercado Mineiro. “Se os fornecedores de bebidas e a logística deles são os mesmos, não vejo muito sentido no argumento. A localização, sim, e o conforto posso entender como argumentos”, afirma Beatriz. “Há diferenças de qualidade na comida, mas nem sempre a porção mais cara é a melhor”, completa Júlia.

Para Natália Peixoto e Guilherme Gandini, disparidades são inexplicáveis(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Para Natália Peixoto e Guilherme Gandini, disparidades são inexplicáveis (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Sem vacilar, os amigos Pedro Figueiredo Chagas Filho, contador, de 49, e o administrador Jair Rodrigues de Oliveira Filho, de 48, recordam todos os preços recentes pagos pela cerveja e reclamam das diferenças. O menor preço pago num fim de semana foi R$ 5,90 e o maior R$ 7,50, nos bares do Bairro Sion. Em regiões onde o poder aquisitivo é mais baixo, a mesma marca da bebida foi comprada a R$ 4,50 em estabelecimentos dos bairros Padre Eustáquio e Carlos Prates, e a
R$ 3,99, no Palmeiras. A disparidade, no entanto, pouco importa para eles. “Escolhemos o local de acordo com o ambiente. Ficamos onde somos bem tratados”, diz Jair Filho. “A preferência é pela proximidade e a amizade que a gente tem nesses locais”, destaca Pedro Chagas. O grupo já foi a sete estabelecimentos participantes do festival grastronômico.

Com a experiência do trabalho como advogado, Guilherme Gandini, de 24, aceita a explicação dos donos de bares de que os custos decorrentes do pagamento do aluguel e do Imposto Predial e Territorial Urbano ( IPTU) influenciam na formação dos preços. Contudo, o argumento tem limite. Na sexta-feira, Gandini e a amiga Natália Peixoto, estudante de 24 anos, desfrutavam de uma porção de torresmo num dos restaurantes que participa do Comida di Buteco e protestaram contra o custo da iguaria, de R$ 25. “Não considero que seja justificável”, afirma o advogado. “Parece até uma espécie de caixa dois. Por R$ 10 eu compro bacon no açougue para fazer um bom torresmo”, ironizou Natália.

Comodidade

Qualidade e bom atendimento são quesitos mais importantes que os preços para o economista Rodrigo Barbosa lima, de 39, desde que ele não ultrapasse o orçamento de R$ 80, em média, a cada saída, dependendo do tempo gasto no restaurante. No primeiro bar frequentado nesta temporada do Comida di Buteco ele pagou R$ 4 pelo suco de laranja. “Qualidade, bom atendimento e a facilidade de estacionar fazem a diferença”, diz Rodrigo.

A professora Helenice Freitas, de 48, entra no debate aberto na mesa de bar com os amigos Valdeir Belfort, Osvaldo Borges e Wanderleia Maria da Boa Morte, sobre os resultados da pesquisa do Mercado Mineiro, questionando diferenças de 100% ou mais. “Não há lógica nisso. A laranja usada no suco que o freguês toma na Zona Norte é a mesma daquela oferecida na Região Sul. Como explicar uma porção de torresmo vendida a R$ 21, quando a de bolinho de bacalhau, um ingrediente nobre, custa R$ 16,90?”, indaga. A amiga Celma Regina Pereira Santos, bibliotecária, de 42, discorda que a localização seja motivo suficiente para explicar a diferença de preços. Para o empresário Leonardo Faria, de 38, mais grave do que os preços é o uso de matéria-prima de má qualidade. (MV)


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