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Terras se valorizam até 54% no estado em 12 meses Queda nos juros tornou investimento mais atrativo, empurrando a cotação. Valorização da propriedade no estado foi, em média, de 13,6% em 12 meses, contra 16,5% no balanço nacional

Marta Vieira

Publicação: 31/07/2012 06:00 Atualização: 31/07/2012 07:22


Vista aérea de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde as terras rurais alcançaram a maior valorização do estado no período de 12 meses até abril (Marcos Michelin/EM/D.A Press)
Vista aérea de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde as terras rurais alcançaram a maior valorização do estado no período de 12 meses até abril

A queda recente das taxas de juros dá mais gás à valorização das terras agrícolas em Minas Gerais, que estão se beneficiando do consumo crescente de alimentos, da expansão urbana e de bons preços de alguns produtos, como a soja, a despeito da retração do setor agropecuário no estado durante o primeiro trimestre, medida pelo Produto Interno Bruto (soma da produção de bens e serviços). Nos últimos 12 meses encerrados em abril, os preços médios chegaram a subir 54% em Minas nas áreas de pastagem da Região Leste, conforme pesquisa da consultoria especializada em agronegócio Informa Economics FNP. No produtivo Cerrado, a valorização alcançou 27%, em média.

O levantamento analisou cotações em 77 pontos de Minas, incluindo cidades e regiões que servem como referência, entre maio de 2011 e abril passado. O hectare médio no estado foi negociado este ano por
R$ 7.240, ante R$ 6.370 há 12 meses – variação de 13,6% –, e mostrou alta de 42% quando avaliados os últimos três anos. A pesquisa apurou no Brasil um aumento de preços de 16,5% em 12 meses, com o hectare médio negociado a R$ 6,7 mil. A variação representa mais de três vezes a inflação oficial retratada no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,1%, no mesmo período.

A gerente técnica da Informa Economics FNP, Nádia Alcântara, observou o melhor resultado em Minas, considerando-se os preços e a evolução das cotações, nas terras agrícolas de alta produtividade nas proximidades de Araxá, no Alto Paranaíba. Nessa região, houve incremento de 27% nos últimos 12 meses para áreas típicas da produção de grãos, como o café, onde o hectare médio estava cotado em abril a R$ 21 mil. As áreas dedicadas ao café exibiram forte valorização até mesmo por se tratar de uma cultura bem implantada no estado.

“Além da alta recente dos preços das commodities agrícolas, a terra já é vista como um patrimônio. Se existe a possibilidade de produzir e obter bom retorno, isso acelera os preços”, afirma Nádia Alcântara. Em Unaí, no Noroeste de Minas, o produtor Irmo Casavechia, diretor do sindicato local dos proprietários rurais, destaca o efeito da redução das taxas de juros, puxada pela queda da Selic, que remunera os títulos do governo no mercado financeiro e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio. “Cresceu a procura pelas terras agrícolas como investimento e a nossa atividade ganha com isso. Com a valorização, surgem mais recursos para custeio e a produção agrícola, um bem para o país”, afirma.

Com uma agricultura diversificada, terras de baixa produtividade do Cerrado, em Unaí, se valorizaram 21% nos últimos 12 meses e 40% em três anos. O hectare que valia R$ 3,7 mil no ano passado estava cotado a R$ 4,5 mil, na média, em abril. Segundo Irmo Casavechia, nas terras agrícolas de chapada de alta produtividade e que usam irrigação o hectare já atinge R$ 30 mil.

Idêntica valorização em 12 meses, segundo Nádia Alcântara, da Informa Economics FNP, foi constatada para as terras produtoras de grãos de Pouso Alegre e Lavras, no Sul de Minas, onde o hectare médio saiu da faixa de R$ 9,5 mil em maio de 2011 para R$ 11,5 mil, na média este ano. Nessas regiões, a explicação está muito associada ao aumento das cotações de grãos como o café e a soja, que alcançou R$ 68 por saca neste mês, valor considerado histórico. Conforme o boletim de custos e preços relativo a julho editado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a oleaginosa sofreu valorização de 73,9% em relação a julho de 2011 na praça de Londrina (PR).

QUEDA NA OFERTA Apesar da crise externa e do desaquecimento da economia brasileira, os preços das terras agrícolas refletem uma série de fatores independentes da conjuntura, como o novo e mais rigoroso Código Florestal, e o crescimento urbano, destaca Pierre Santos Vilela, coordenador da Assessoria Técnica da Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg). O avanço de outras atividades, a exemplo da indústria da mineração no estado, também contribui para reduzir a oferta de terras. O Norte de Minas, em especial, já é considerado uma nova fronteira da extração de minério de ferro.

“Hoje, o setor só tem oportunidades para crescer usando mais tecnologia e aumentando a produtividade”, diz Pierre Vilela. Entre 1996 e 2006, a área total destinada à agropecuária diminuiu em 8 milhões de hectares, de acordo com a Faemg. Com isso, as melhores terras férteis se valorizam. O setor ocupa cerca de 32 milhões de hectares no estado, o que corresponde a 48% do território mineiro.

À espera da colheita do café

As cotações de terras agrícolas no Brasil tendem a se manter pelo menos até o fim do ano, embora o mercado enfrente um período de baixa liquidez (pouco volume de negócios) e o cenário não esteja muito claro, avalia a gerente técnica da Informa Economics FNP, Nádia Alcântara. “Há uma conjuntura favorável ao mercado de terras, mas o cenário não está bem definido do ponto de vista da liquidez”, afirma. No segmento da cafeicultura, nuvens pairam sobre os resultados da colheita, lembra Breno Pereira de Mesquita, presidente das comissões de café na Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Os produtores estão na metade de uma safra recorde estimada em 50 milhões de sacas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Os cafeicultores se perguntam se vão cumprir as projeções e, mais que isso, se a qualidade alcançará os níveis esperados. “As chuvas fora de hora prejudicaram e só vamos saber se a qualidade ficou comprometida quando o café estiver nos armazéns e nas cooperativas. Certamente um percentual não muito pequeno foi prejudicado”, afirma Breno Mesquita. Com base em levantamentos da CNA, os cafés de alta qualidade tendem a se valorizar. A cotação da saca de 60 quilos do grão está hoje entre
R$ 430 e R$ 440, ante o preço médio de R$ 470 obtido no ano passado.

Os altos preços das terras para café na região do Cerrado mineiro, observa Mesquita, refletem áreas planas, com alta produtividade, uso da mecanização e baixos custos. Na direção inversa, estão terras com menor liquidez das regiões montanhosas do estado, mas que têm grande importância em geração de empregos e na produção de cafés de alta qualidade.

Em geral, os preços das terras agrícolas podem até enfrentar alguma queda, mas ligeira, e vão continuar altos, no cenário em que trabalha Pierre Vilela, coordenador da Assessoria Técnica da Faemg. A evolução costuma acompanhar de perto o movimento dos preços das commodities, os produtos agrícolas com cotação no mercado internacional. Desde a crise dos alimentos, depois da turbulência na economia em 2008, os preços têm subido e boa parte deles sob influência da demanda da China. “Chegamos a um novo patamar em cima da volúpia da economia chinesa”, afirma. Antes desse período, de 2002 a 2006, a maioria das lavouras brasileiras importantes, como o café, e as pastagens enfrentaram um ciclo ruim. (MV)  

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