13ºC
23ºC 0mm
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Para ganhar competitividade, empresas apostam no talento de seus funcionários Ideias simples podem fazer diferença e render prêmios

Marta Vieira - Estado de Minas

Publicação: 09/02/2012 06:00 Atualização: 09/02/2012 07:56

A proximidade com as máquinas, adquirida em mais de 10 anos de trabalho na indústria siderúrgica, aguçou a sensibilidade do supervisor de produção Luiz Carlos Brandão para desvendar qualquer engrenagem mecânica que surja sob seus olhos. A criatividade e o senso crítico foram os pontos de partida de um projeto que ele mesmo propôs para aumentar o nível de precisão e segurança na operação de um dos altos fornos da siderúrgica Usiminas, em Ipatinga, no Vale do Aço – equipamento que funciona como uma espécie de pulmão da linha de fabricação de aço. A ideia deu um gordo retorno financeiro de R$ 6,6 milhões à empresa.

Carlan de Souza também é reconhecido como
Carlan de Souza também é reconhecido como "professor pardal" bem-sucedido
A mesma iniciativa de interferir no tradicional processo de extração de minério de ouro em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, transformou Carlan José de Souza, chefe da área de manutenção da AngloGold Ashanti, num respeitado inventor do chão de fábrica. Ele idealizou, com o colega de trabalho Wanderson Moreira, um sistema de monitoramento que reduziu em 25% o risco de falhas no bombeamento de água e na ventilação da mina subterrânea da cidade histórica.

Expostas à concorrência voraz no mundo, seja em épocas de bonança ou de crise econômica, as grandes indústrias se convenceram da necessidade de incentivar e reconhecer o talento dos seus trabalhadores nas mais diversas áreas para aproveitar o melhor que eles e os equipamentos podem oferecer. Isso vale tanto para programas de redução de custos quanto de segurança das operações e melhorias relacionadas à qualidade e meio ambiente.

Incentivando a geração voluntária de ideias e premiação para toda sugestão viável para ser implantada, seja uma simples troca de lugar de uma torneira útil ao processo de produção a alterações que valem milhões, essas companhias descobrem, e em alguns casos promovem, talentosos Professores Pardais da indústria. A diferença é que a personagem dos estúdios Disney retrata um inventor meio maluco e muitas vezes malsucedido nas suas criações. Nas empresas, as ideias que brotam das linhas de produção são levadas muito a sério e já entraram num sistema de avaliação, implantação e premiação do empregado.

A recompensa para os trabalhadores vai de brindes a premiações de até R$ 20 mil em dinheiro, no caso da Usiminas, e viagens a passeio e a trabalho no Brasil e no exterior, política adotada na ArcelorMittal e Aperam South America (antiga Acesita, de Timóteo, no Vale do Aço) e AngloGold Ashanti. Outras indústrias mantêm e aperfeiçoam esse banco de inventores, como a Vale e a Samarco Mineração. “Seja qual for a qualificação do trabalhador, ninguém conhece melhor o processo de produção do que ele. E isso vale para o envolvimento dos empregados na solução de problemas”, afirma Ricardo Garcia, vice-presidente de Recursos Humanos e Relações Institucionais da ArcelorMittal Brasil.

Somados todos os programas de incentivo à geração de ideias nas unidades da companhia, maior grupo siderúrgico do mundo, em João Monlevade, Juiz de Fora, Itaúna, Contagem e Sabará, desde 1995, 2,6 mil trabalhadores foram premiados por 7,9 mil sugestões. O programa inventado nas unidades brasileiras da multinacional tem dado resultados tão bons que, agora, será exportado para as fábricas na Argentina, Costa Rica e Trinidad-Tobago.

Característica principal dos brasileiros, a criatividade ganhou reconhecimento como um ativo que as multinacionais estrangeiras querem usar na concorrência. A usina de João Monlevade, na Região Central de Minas, da ArcelorMittal, também tem os seus inventores do chão de fábrica, a exemplo de Ésio Barcelos. No coração da siderúrgica, a área de laminação, ele sugeriu inverter a circulação de ar que causava desconforto para os trabalhadores. Aparentemente simples, a ideia melhorou o ambiente, favorecendo o desempenho dos operadores e das máquinas. “É uma postura que valoriza o currículo”, diz Barcelos.

Ideias que reforçam currículos

Sem restrições à criatividade, os trabalhadores que buscam soluções para melhorar o ambiente e a performance das fábricas costumam ir além das tarefas típicas de cada um e acabam atendendo clientes e fornecedores da empresa. Com esse efeito multiplicador das sugestões, grupos como a Usiminas e a AngloGold Ashanti decidiram aprimorar os programas de incentivo à geração de ideias, que se pagam sem dificuldade com o retorno das sugestões, seja em termos financeiros, seja em segurança e comprometimento das equipes.

“Os empregados são reconhecidos como protagonistas do desenvolvimento da empresa e isso gera um clima virtuoso”, diz Fernando Caixeta, gerente de Conhecimento, Inovação e Propriedade Intelectual da Usiminas. Outro ponto forte do programa da siderúrgica está na participação do dono da ideia na transformação dela num projeto efetivo e em sua implementação, motivo de satisfação adicional, para o supervisor Luiz Carlos Teixeira Brandão. “O resultado das ideias gera benefício para todo mundo.”

Concordam com Brandão os companheiros de trabalho Geovani Campos Lage e Pablo Henrique Santos Carvalho. Ex-manobrista de locomotivas, o assistente técnico industrial Geovani Lage levou para o dia a dia de trabalho o hábito incansável de estudar problemas. Ao propor alterações no sistema de recolhimento de vagões carregados de minério de ferro fornecido pela Vale à Usiminas, Geovani descobriu uma forma de acabar com perda de tempo, algo caro para qualquer empresa. A ideia dele promoveu economia de quase R$ 580 mil . “É preciso ir além do proposto para a função e estar disposto a receber críticas.”

A experiência de Pablo Henrique também é rica na atitude de sugerir ideias. Supervisor de estruturas industriais, ele propôs mudanças numa máquina de soldagem italiana que passou a fabricar produtos maiores, com segurança, e permitiu redução de tempo de tarefas na fábrica. O retorno financeiro passa de R$ 2 milhões por ano. “Sempre tentei inovar. Se o trabalhador não correr esse risco fica estagnado”, diz.

Carlan Souza, da AngloGold Ashanti, nem poderia discordar. “Aqui nada é mais importante que a segurança e nem tão urgente”, conta. Nos últimos 10 anos do programa de incentivo à geração de ideias na mineradora, mais de 5 mil sugestões foram apresentadas nas unidades mineiras de Sabará, Nova Lima e Santa Bárbara. O retorno financeiro só das sugestões que foram implantadas soma R$ 14 milhões, segundo o coordenador de Remuneração e Sindical da companhia, Leandrus Othero Karklin.

“É um instrumento que tem de ser mantido vivo nas empresas. As sugestões acabam se tornando um patrimônio”, afirma Kraklin. Na Samarco Mineração, 5,8 mil propostas de um total de 15 mil colhidas em 12 anos foram implantadas. Juliana Souto, gerente de desenvolvimento de pessoas da empresa, diz que o ato de contribuir se incorporou à cultura da companhia. “O retorno está acima dos custos do investimento feito no programa de incentivo às sugestões.” (MV)

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »

Envie sua história efaça parte da rede de conteúdo do grupo Diários Associados.
Clique aqui e envie seu vídeo, foto, podcast ou crie seu blog. Manifeste seu mundo.