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Estado de Minas

Cooperativismo precisa abraçar o mundo digital


postado em 15/08/2017 18:00

Quando o computador começou a entrar nas casas e escritórios, pouco mais de vinte anos atrás, para muita gente era apenas uma máquina de escrever mais sofisticada. Não parecia, pelo alto preço, algo necessário. Em pouco tempo, porém, ficou claro que as possibilidades profissionais eram infinitas.

Engenheiros e arquitetos abandonaram as enormes pranchetas, fotógrafos não precisaram mais revelar filmes e até desenhistas e designers trocaram o papel e o pincel por uma caneta eletrônica e uma tela de LED. Mas parece que há alguns setores, como o cooperativismo, que não são compatíveis com este admirável mundo novo, certo? Errado. Não existe absolutamente nada que não possa tirar proveito da tecnologia digital. Inclusive o cooperativismo. Pode parecer, no entanto, que usar a tecnologia digital numa cooperativa tradicional seja apenas uma adaptação do velho com uma roupagem moderna. Mas é bem mais que isso.

O cooperativismo digital ou cooperativismo de plataforma é um conceito novo ? uma iniciativa econômica que usa um site ou aplicativo para oferecer produtos e serviços, desde que os donos e administradores desse negócio sejam os próprios trabalhadores ou clientes.

Difícil entender a definição? Então vamos a um exemplo: os aplicativos que conectam motoristas a passageiros. Trata-se de uma instituição que usa um aplicativo para oferecer um serviço de transporte. A diferença é que não são os motoristas que são donos do negócio e entregam aos donos do aplicativo em média 25% do faturamento bruto. Todos os custos de manutenção do carro ? e o combustível ? correm por conta do motorista. Uma cooperativa digital seria aquela igualzinha aos aplicativos que conectam motoristas a passageiros, mas os donos dos aplicativos e de tudo o mais seriam os cooperados.

Parece impossível um grupo de motoristas criar um aplicativo assim e administrá-lo, não? O La"Zooz é uma tentativa de ser uma alternativa a serviços capitalistas, que visam ao lucro, que no ano passado faturou US 6,5 bilhões. O aplicativo não oferece um serviço como um táxi. A proposta é criar uma carona remunerada, e o passageiro pegar carros que já estão indo para o mesmo lugar. Com uma preocupação ambiental, o La"Zooz não coloca mais automóveis nas ruas, mas utiliza melhor o espaço livre naqueles que já estão nas ruas. Descentralizado, ele não tem dono. Todo mundo pode fazer parte dele. É um grande desafio, mas mostra que é possível ter ideias criativas em que todos ganham.

Outro exemplo é o Fairmondo, um site alemão de compras (que já está se espalhando para outros países), como a Amazon. Trata-se de uma cooperativa como outra qualquer, mas que teve que investir muito dinheiro para desenvolver seu próprio software e compete com gigantes. Seu fundador, Feliz Weth, reconhece que não é uma missão fácil. Segundo ele, grandes empresas multinacionais costumam cooperar mais com outras companhias do que uma cooperativa com a outra.

Existem iniciativas menos complexas, como a Loconomics ? uma cooperativa norte-americana no melhor sentido da palavra, que usa um aplicativo para oferecer serviços dos mais variados: de passeadores de cães e babás a encanador, eletricista e técnicos de informática. A ideia não é nova, mas cada profissional é um cooperado.

Plataforma idealizada por brasileiro conecta cooperativas com empresas

As cooperativas, porém, também podem se beneficiar de um sistema capitalista, desde que elas sejam parceiras. Um exemplo dessa tentativa é a startup New Hope Ecotech, criada pelo brasileiro Thiago Carvalho, quando ele ainda era estudante de administração na Kellog School of Management, nos Estados Unidos. Ele desenvolveu uma plataforma digital que conecta cooperativas com empresas que utilizam embalagens recicláveis e que são obrigadas por lei a entregar esse material a agentes especializados.

"Aumentamos a renda dos cooperados de 25% a 30%", disse Carvalho em entrevista ao jornal Diário do Comércio e Indústria (DCI). Batizado de Eureciclo, o projeto tem entre seus parceiros companhias como Ambev e Unilever.

O Brasil, entretanto, ainda está longe de enxergar o cooperativismo de plataforma como um caminho para o futuro. "A discussão sobre cooperativismo digital é muito fraca", afirmou Rafael Augusto Ferreira Zanatta em entrevista à revista InfoCoop. "As pessoas ainda têm uma visão retrógrada de cooperativismo, como se fosse algo exclusivo de cooperativas agropecuárias ou cooperativas de crédito.

"Esse é um modelo do século 20." Segundo ele, o modelo de organização pode ser aplicado à tecnologia e economias digitais. "O desafio é levar as ideias do cooperativismo, geralmente bem difundidas no interior do Brasil, para os grandes centros urbanos e para as universidades que formam os profissionais da área de tecnologia e computação."

Fonte: Revista EasyCOOP

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